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Hoje a minha rua ainda não acordou

Foto: Praia. Cabo Verde. Do acervo da autora



2020-04-27

A crônica de Dina Salústio é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Hoje não ouvi os pássaros que me avisam do novo dia. Queria sentir o sopro do mar que atravessa a rua e me entra no quintal. Poder olhar os telhados e terraços e, da janela do autocarro, ver a cidade acordando. No entanto, embalada pelo som que guardo, não descubro logo à primeira que a cidade não veio.

As obras não retomam, os cafés, restaurantes e vendinhas não abrem, as lojas estão com os cadeados à vista. Um ou outro rapaz do continente traz pendurado meia dúzia de óculos e outros tantos relógios, mas não faz um gesto para seduzir os clientes. Não há bolos à venda, nem garrafas de água gelada ou torresmos vermelhos. Um ou outro rapaz do continente traz pendurado meia dúzia de óculos e outros tantos relógios, mas não faz um gesto para seduzir os clientes.

Pressa nas gentes que não se olham. Murmúrios sobre a COVID-19.

As nossas ruas deixaram de ser estreitas e agressivas.

Nenhum país estava preparado para esse novo coronavírus, mas há uns mais despreparados do que outros. Cabo Verde é um dos países mais expostos às situações de carência severa. É assim em matérias fundamentais. A violência, o infanticídio, o femicídio, o abandono familiar; a luta contra a miséria, a luta pela paridade e pelo empoderamento das mulheres, a dignidade, a igualdade e a liberdade de todos nós. Há tantas batalhas a defender. Um vírus é suficiente para fazer tremer as ilhas, pô-las em suspenso e abrir-lhe as feridas.

O último balanço sobre a COVID-19 diz que já temos infetados em três das nove ilhas. Ventiladores? Camas? Máscaras e viseiras? Na desenvolvida Europa fala-se no drama – e é – de ter que se escolher, entre dois doentes, aquele que tem mais possibilidades de ser salvo com um ventilador. No meu país, tenho a certeza que é um drama para os governantes terem que escolher em cada orçamento anual, ao longo desses quarenta e cinco anos de independência, as populações que vão ficar fora das oportunidades de trabalho, normalmente oportunidades de uma vida.

Ficar em casa, prevenção, higiene… são recomendações que salvam as nossas vidas. E alguns estamos a cumprir. Mas e os outros que não sabem onde buscar a próxima refeição? Que não dispõem de água ou sabão para lavar as mãos? Que não têm onde pôr os seus velhos para não se contaminarem e que se atropelam em casas minúsculas por um pouco de ar? Quem lhes falará de distanciamento e contágio? Em açambarcamento nos supermercados?

Das recomendações dos Serviços de Saúde, salta uma linha que mostra a sociedade dividida e deixa um amargor no peito.

 

 

Clique aqui para ler as versões em alemão e inglês da crônica. 

Aqui, mais informações sobre a parceria entre a revista Pessoa e o LCB diplomatique.

 

 



Dina Salústio

Dina Salústio (pseudônimo de Bernardina Oliveira) é poeta e prosadora. Nascida em 1941, em Santo Antão, em Cabo Verde. Foi professora, assistente social e jornalista em Cabo Verde, Portugal e Angola. É autora do livro de contos Mornas eram as Noites (1994) e dos romances A Louca de Serrano (1998), Filhas do Vento (2009) e Veromar (2019. Também escreve para o público infanto-juvenil. Publicou em 2001 um estudo sobre Violência Contra as Mulheres. A sua obra é objeto de estudo no Brasil, Portugal, Itália, além de Cabo Verde. É Membro Fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras. Entre os vários premiações que recebeu está o Prémio Rosalía de Castro para a Literatura em Língua Portuguesa — Espanha 2016.  Fotografada por Paulo-Sousa-Coelho no Festival-Morabeza.




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