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A contratempo

Foto: domínio público



2020-04-26

O correr da vida sem maiores pontuações, enquanto os grandes fatos pedem pausa. Justo o que acontece agora, em que a vida experimenta uma grande pausa e as notas fracas ganham uma iluminação desconhecida. Antes desse universal contratempo, era bem comum as notas fracas não contarem com muita atenção para seu potencial papel num bom concerto. Certos modos de vida passariam por desperdício, desatino, excentricidade.

 

Não fui boa aluna de piano.  Filha mais velha de família pequeno-burguesa, os preceitos de classe social precisavam ter o lugar bem marcado. A luta do casal para sustentar uma vida decente com quatro filhos era grande.  Mas a necessidade de menina tocar piano não fugia do horizonte. Sem qualquer consulta prévia, lá fui eu solfejar escalas.  

Não fui má aluna, e o gongo me salvou. Ou meus pais me compravam um piano para estudar ou não adiantava continuar, anunciou a professora após três anos de aulas. Minha mãe, compungida, me colocou o dilema e a escolha. Se eu quisesse...

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Nilma Lacerda

Nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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