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Bicicletear, bicitar, bicitandar

Foto: do acervo do autor



2020-06-03

A crônica de Rodney Saint-Éloi é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Romy é uma linguista do alto de seus quatro anos e meio. No carro, há uma semana, ela calmamente observa uma menininha andando de bicicleta e diz "Olha, ela tá bicicleteando." Logo depois, ela usa o verbo bicitar com o mesmo sentido.

Hoje, como o dia está lindo, ela decreta, do jeito mais sério que se pode imaginar: “Vamos bicitandar, pai."

No espaço de uma semana, Romy enriqueceu o dicionário da língua francesa com três verbos de ação: bicicletear, bicitar e bicitandar.

O que eu poderia dizer? Sou escritor e editor na editora Mémoire d’encrier, cuja missão é a diversidade. Devo dizer-lhe que a gramática, as enciclopédias e as academias não permitem a utilização desses verbos? Naturalmente, fico do lado da Romy contra a gramática e as instituições encarregadas do bom uso da língua francesa. Começo a repetir com ela os verbos bicicletear, bicitar e bicitandar. Acredito sinceramente que a língua francesa acaba de ser enriquecida com três palavras reluzentes.

Adoro essas vielas que se confundem com o sol. Quando surge a primeira nesga de sol em Montreal, a cidade bicicleia e borbolereia. A cidade dansareia e saracocheia. Foi o que aconteceu no último dia de abril. A primavera e o sol formam um par. A minha filha está feliz com a sua bicicleta branca. Ela bicicletea com todo esplendor num parque do bairro Mile End. É preciso admitir que a chegada da primavera continua sendo o maior evento de Montreal.

À tarde, na rua Côte-des-Neiges, leio, desconcertado, o aviso “Livraria Olivieri fechada por tempo indeterminado”. Foi a primeira livraria que visitei em Montreal, há mais de trinta anos. Foi também a única livraria que se abriu às culturas de todo o mundo, à diversidade. Trata-se de um duro golpe!

O dia em que a famosa livraria de Montreal fecha é o dia em que Romy faz uma contribuição fulgurante à língua francesa. Abre-se uma nova era. Outra termina. Para compreender o que está acontecendo, escuto bem lá no fundo a voz da Romy que pronuncia sem pedir permissão a ninguém os verbos bicicletear, bicitar e bicitandar.

Continuo o meu caminho no bairro Côte-des-Neiges, onde mais de 170 comunidades e nacionalidades se encontram e interagem, inventando línguas misteriosas para tomar conta da cidade. Que grande e bela diversidade faz o coração da cidade bater. Paro no bairro Parc-Extension, onde ouço as pessoas falando panjabi, crioulo, urdu, árabe, tâmil, grego, bengali… Voltando para casa, um senhor hassídico me diz “Sholom aleichem”. É a face de Montreal que eu gosto. Eu escrevo DIVERSIDADE. Essas vozes, línguas, faces, imaginários representam a minha luta contra o racismo e os meus sonhos de viver junto.

 

Tradutores: Vinicius Carneiro e Mathilde Moaty

 

Essa crônica foi publicada originalmente no portal LCB diplomatique em francês, inglês e alemão e é apresentada na Pessoa em português como parte de uma parceria. Confira a versão original aqui.  

 

 

 



Rodney Saint-Éloi

É um poeta haitiano-canadense. Ele foi duas vezes indicado ao Prêmio Gouverneur général de poesia em língua francesa, em 2013, por Jacques Roche, je t'écris ce lettre e, em 2016, por Je suis la fille du baobab brûlé. Nascido e criado em Cavaellon, Haiti, mudou-se para Montreal em 2001. Foi fundador da editora haitiana Éditions Mémoire, em 1991, na qual publicou várias coleções de poesia, como J’avais une ville d’eau, de terre et d’arc-en-ciel heureux  (1999),  J’ai un arbre dans ma pirogue (2003) e Récitatif au pays des ombres (2011). Ele também administra a editora Mémoire d'encrier, fundada por ele em 2003 em Montreal. Fotografado por Étienne Bienvenu.




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