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A Solidão da Palmeira

Foto do acervo da autora



2020-08-17

A crônica de Olinda Beja é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Não, não era esta a paisagem a que meus olhos estavam habituados há muitos anos.

Essa palmeira fica em Molembu, roça que foi comprada por meu avô Rachid (indiano), e onde foram criados todos os seus filhos (20), incluindo minha mãe. Todos os meus tios eram vianteiros, além de terem outros afazeres.

Palmeira ancestral, familiar, ereta, bela copa estrelada de folhas verde-mar, a ela subiam meus tios e meu primo por vezes quando as estrelas ainda se estavam a despedir da noite. Primeiro subia meu tio Aurelino, o mais velho de uma prole de homens valentes, ousados, vianteiros de profissão como só eles. Tio Aurelino descia leve leve o caminho até Molembu sempre cumprimentando "Bond’jaô sobrinhaê!", ajeitando a corda d’onsó no ombro esquerdo e na mão direita o garrafão que colocado lá no alto se iria encher do néctar precioso que a palmeira oferece. E o ritual ia seguindo a antiga tradição que serviu sempre de ganha pão extra a muitos chefes de família. Treinados desde muito jovens em subir às palmeiras assim se mantinham nesse arrojado mister mesmo com a idade a pesar-lhes nos ombros. É assim por toda a ilha.

Quando tio Aurelino descia, já Adilson, seu irmão, também ele passado dos sessenta, munido de garrafão e corda se preparava para exercitar pernas e braços até chegar ao topo da árvore abençoada que nunca negava a hospedagem das vasilhas com que a iam enfeitando. Por último, já em espera, subia Josias, filho codé de tia Semiana, que, num ápice trepava e deixava mais um garrafão na velha palmeira que nossos antepassados tinham conhecido em Molembu.

Embora sabendo que a árvore se haveria de ressentir de tanto peso a sugar-lhe o ventre era um gosto vê-la assim todos os dias na paisagem tropical de azuis e verdes com aqueles adereços quais bailarinas em dias de vento! Aquilo era uma pintura na tela da mãe-natureza. À tarde voltavam os vianteiros. Subiam, desciam e eu ouvia-os tagarelar, discutir o preço do vinho, oferecer um gole bem fresquinho a quem com eles se cruzava. Era a vida em toda a sua explosão benfazeja que a palmeira proporcionava. Eram os barulhos do mato, da floresta…

“Ninguém pode andar na rua senão polícia dá borracha” – grita a vizinha do outro lado do caminho.

“Idoso não pode sair de casa não! Vírus mata ele!” – é a voz de Ladina, enfermeira, a dar seus conselhos.

Mascarados, confinados, estamos todos mais tristes, mais sós. Até mesmo a palmeira. Tenho notado que suas folhas já não mostram o mesmo verde-mar que antes tinham. E sei que agora só Josias, para sobreviver, ainda teima em continuar a sua profissão de vianteiro.

 

Glossário:
Bond’jaô sobrinhaê: bom dia, sobrinha

Codé: o filho mais novo
Corda d’onsó: corda usada para subir às palmeiras feita com fios das folhas da palmeira (hoje já se usa pouco, preferindo os mais jovens corda de aço)
Leve, leve: resposta que marca o ritmo de vida nas ilhas
Vianteiro: homem que sobe à palmeira para lhe extrair o vinho de palma

 

 

Clique aqui para ler as versões em alemão e inglês da crônica. 

Aqui, mais informações sobre a parceria entre a revista Pessoa e o LCB diplomatique.

 

 



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