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Questões políticas do dia-a-dia

Foto: do acervo do autora



2020-08-17

A crônica de Sheng Keyi é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Ainda me lembro de minha infância e dos pôsteres na parede do cômodo central da nossa casa (que as pessoas da cidade conhecem como “sala de estar”). Eram pôsteres de figuras tais como os Dez Marechais da República Popular da China e o Deus da Fortuna. O cartaz que ocupava a posição de maior prestígio na parede central era um retrato enorme de Mao Tsé-Tung com um sol dourado atrás de sua cabeça. Mas mesmo naquela época ele não era tão venerado quanto deuses e ancestrais. Era simplesmente um costume popular ter o seu retrato na parede, da mesma forma que pendurávamos pôsteres auspiciosos durante o Ano Novo Chinês. Todo mundo fazia a mesma coisa, mas o retrato do Mao não gozava de nenhum tipo de prestígio especial. Sendo assim, mesmo que ele ficasse todo sujo e enegrecido pela fumaça dos fogões ou fosse danificado por algum motivo, ninguém se importava.

Eu deixei minha cidade-natal há mais de vinte anos. Visito-a anualmente para passar o Ano Novo Chinês com a minha família. Notei que por alguns anos o retrato do presidente Mao sumiu da parede, mas nas minhas visitas mais recentes ele voltou a aparecer e, com o avanço tecnológico das impressoras, a qualidade do retrato havia melhorado muito. Já não sofria tão facilmente as ações do clima. Até mesmo rasgá-lo à mão demandava certo esforço.

Lembro-me de um dia quando voltava à minha cidade-natal, como de costume, e peguei um táxi do aeroporto de Changsha* até a casa dos meus pais. O taxista tinha um retrato do presidente Mao todo decorado com brocados no espelho-retrovisor do carro. Ele me disse que aquilo era um talismã para afastar os maus espíritos.

Um dia fiquei sabendo que milhares de pessoas vindas de todo o país se reúnem diariamente em frente da antiga casa de Mao Tsé-Tung para chorar sua morte. Decidi ver com meus próprios olhos, então me dirigi até lá e fiquei completamente estupefata com aquela cena inacreditável.

Ao chegar em casa, assim que abri a porta, me deparei com um enorme retrato do presidente Mao ao lado do altar da família. Eu o rasguei e joguei no lixo. Meus pais não disseram uma palavra, mas eu notei que ficaram chateados. Depois me dei conta de que ao rasgar aquele retrato, eu havia mexido com suas emoções e vontades, o que é uma grave ofensa.

Já fazia muitos anos que eu deixara a casa dos meus pais e agora eu havia me tornado apenas uma “visita”. Rasgar seus retratos é um comportamento agressivo e eu deveria ter encontrado uma maneira mais cordial de expressar minha opinião sobre esse assunto.

Eu poderia muito bem contar-lhes sobre as milhões de pessoas que morreram durante a Grande Fome e sobre o sangue derramado na Revolução Cultural, sobre o livro Tombstone, de Yang Jisheng, e todos os fatos históricos que ele traz à tona, poderia contar-lhes também sobre o livro de Frank Dikötter A Grande Fome de Mao: A Maior Catástrofe da História da China. Mas a verdade é tão absurda que acho que eles não conseguiriam acreditar, então resolvi ficar quieta.

Ao voltar para a casa dos meus pais no ano passado, me deparei com outro retrato do presidente Mao novinho em folha na mesma parede de sempre, mas desta vez não o rasguei. Em vez disso, peguei meu celular e tirei uma foto. Estranhamente, um profundo misto de pesar e pena tomou conta de mim.
 

*Changsha é a capital da província de Hunan. O fato de Mao Tsé-Tung ter nascido nessa província gerou um próspero mercado de turismo doméstico explorado por orgulhosos conterrâneos locais do presidente.

 

Tradução de Camila Felix Pessoa.

 

 

Essa crônica foi publicada originalmente no portal LCB diplomatique em chinês, inglês e alemão e é apresentada na Pessoa em português como parte de uma parceria. Confira as outras versões aqui.  

 



Sheng Keyi

Nasceu em 1973 na província de Hunan e mudou-se para Pequim na década de 1990. Desde 2003, ela vem produzindo uma obra extensa, reconhecida também internacionalmente, caracterizada por uma visão crítica da sociedade chinesa e seus conflitos sociais, como no romance Wild Fruit (tradução para o inglês da Random House, 2018). Com o apoio do Instituto Confúcio e patrocinada pelo Programa de Escritores em Residência, Hanban Beijing, ela foi bolsista do LCB em janeiro de 2019.




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