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Entre línguas

Foto: Alina Grubnyak



2020-10-28

Mas pensei que a experiência de viver entre línguas em alguma medida nos afeta a todos e todas, dentro de nossas próprias línguas maternas. É, obviamente, uma outra camada ou intensidade de experiência, mas não é qualitativamente diferente, talvez, de viver num falar nordestino num Brasil de elites sudestinas; ou de falar “caipira” em qualquer lugar que se sinta “o centro”, algo que quase nada tem de geográfico; de falar “errado” onde as pessoas têm escola; de abrir a boca em qualquer canto e logo ser identificado/a por uma pronúncia de R, de S ou de vogal.

 

Em que língua será sua velhice senil? A minha eu sei, mas talvez haja dúvida sobre minha fluência, sobre a maneira como nos trataremos – eu e o português – quando meu corpo já estiver menos vivo que as palavras.

Aprendi minha língua no berço. Era um português de pessoas simples, mas estudadas, ao menos o núcleo parental mais próximo. Lembro que tive prazer em aprender a falar. Experimentava alguns sons como se fossem doces. Lambia e estalava outros. Quando descobri os sotaques, passei a experimentá-los também. Até hoje, às vezes leio um texto em voz alta com pronúncia pernambucana, carioca...

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Ana Elisa Ribeiro

É mineira de Belo Horizonte, onde trabalha e reside. É professora e pesquisadora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, onde atua na área de Linguagem e Tecnologia, em três níveis de ensino. Publicou mais de trinta livros para crianças, adolescentes e adultos, sendo os mais recentes os poemários Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de Imprecisões (Impressões de Minas, 2019). É colunista do Digestivo Cultural e da Revista Pessoa. Fotografada por Sérgio Karam.




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