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Com os próprios olhos

Foto: Alison Entrekin



2020-11-17

A crônica de Alison Entrekin é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Chegou a estação das rãs no sudoeste da Austrália. Sei disso porque as “rãs-moto” (Litoria moorei, “motorbike frog” em inglês) que moram no lago ornamental do meu pai começaram a causar tumulto toda noite.

A rã-moto é uma espécie ameaçada de extinção e endêmica de uma faixa estreita da Austrália que engloba a área metropolitana de Perth. O crescimento urbano e as mudanças climáticas estão afetando as lagoas e os pântanos, seu habitat natural.

O chamamento do macho para o acasalamento é parecido com o som da mudança de marchas em uma moto, seguido de uma pausa e o “croac” gutural. Consigo imitar perfeitamente esse som, para o desgosto das rãs macho que, perplexas com a competição, preparam o papo para coaxar ainda mais alto. O resultado é sempre o mesmo: uma pilha de duas ou três rãs macho pequeninas em cima de uma rã fêmea mais avantajada.

“Mamãe, mamãe, as rãs estão brincando de cavalinho!”, a minha filha gritou de alegria quando viu a cena pela primeira vez e logo saiu correndo para chamar a criançada da vizinhança.

Há alguns anos, de visita durante as férias de verão, vimos a rã-mãe depositando centenas de ovinhos numa gosma transparente na superfície do laguinho, enquanto quatro peixinhos dourados faziam um banquete. Não conseguimos ficar assistindo àquilo, então resgatamos os últimos sete ovinhos e os guardamos em um pote de sorvete. Os especialistas dizem que a população de rãs na Austrália está em declínio desde a década de 1980. Achei que poderíamos dar uma mãozinha para aquelas sete rãzinhas. Pensei: “Que oportunidade maravilhosa para a minha filha!” Ela passou grande parte da vida dentro de um apartamento em um arranha-céu no Brasil e estava conhecendo, com os próprios olhos, aquelas vidas que dividem o planeta conosco.

Nas semanas seguintes, acompanhamos o crescimento delas. Os pontinhos negros viram peixinhos, que se transformam em girinos de barriga inchada e boca enrugada igual papel crepom. Logo aparecem as pernas, que ficam meio molengas na parte traseira até as rãs aprenderem a usá-las. Na décima semana, dá para ver uma saliência onde os braços estão se desenvolvendo debaixo da pele. Estávamos morrendo de ansiedade para ver os bracinhos expostos, mas os girinos crescem mais rápido ou mais devagar de acordo com o ambiente e o perigo iminente. Os nossos estavam levando uma vida boa e não tinham pressa de crescer.

Dois dias antes de partirmos, fizemos um teste para ver se os girinos conseguiriam se adaptar ao lago. Colocamos três deles na água. Foi a primeira vez que pusemos as mãos neles, apesar de a minha filha ter tentado fazer carinho várias vezes. Aqueles corpinhos pareciam tão frágeis nas nossas mãos…

Dois voltaram para a superfície da água e olharam para mim. “Me tira daqui!”, pareciam dizer. Nadaram de volta para a minha mão, e eu os coloquei num aquário.

O terceiro mergulhou fundo no lago antes de descansar em um toco no meio da água. Os peixes dourados ficaram rondando a rã, abrindo e fechando a boca, antes de se afastarem.

Colocamos todos eles no laguinho naquela mesma noite e, na manhã seguinte, vimos que os bracinhos estavam expostos, o que com certeza deve ter sido provocado pelos novos vizinhos de lago, que representavam um perigo iminente.

Nas próximas semanas, de acordo com as minhas pesquisas, as rãs parariam de comer, enquanto as caudas seriam reabsorvidas pelo corpo e os pulmões se desenvolveriam para elas poderem respirar ar, em vez de água.

Tentei tocar numa delas, mas ela se virou e nadou para longe. Eram criaturas selvagens novamente.

Ontem, uma rã-mãe depositou centenas de ovinhos no lago.

 

*

 

Traduzido do inglês por Rafaela Lombardino.

 

Essa crônica foi publicada originalmente no portal LCB diplomatique em inglês e alemão e é apresentada na Pessoa em português como parte de uma parceria entre as duas plataformas. Confira as outras versões aqui.  

 



Alison Entrekin

É tradutora literária australiana radicada no Brasil. Verteu para o inglês Cidade de Deus, do Paulo Lins, O filho eterno, do Cristovão Tezza, Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector e Budapeste, do Chico Buarque, entre outros. Trabalha atualmente na tradução de Grande SertãoVeredas, de Guimarães Rosa, com patrocínio do Itau Cultural.




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