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Plastic view

foto do acervo do autor



2021-02-08

A crônica de Aldino Muianga é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Dir-se-ia que entre os países da SADC (Southern Africa Development Community) existe uma tradição ou acordo de intercâmbio de cidadãos que, de um país para o outro, protagonizam êxodos de populações. São multidões de emigrantes ilegais em busca de um El-Dourado que os acolha e ofereça o que os seus países de origem são incapazes de proporcionar: segurança, bem-estar e alguma esperança de uma vida digna e honrada.

O Plastic View é um aglomerado de choças de plástico que cresceu nos arredores da cidade de Pretória, na província de Gauteng, África do Sul. Ocupa um espaço que outrora fora baldio, entre os bairros aristocrátios de Woods Park, Jacaranda Lands e Kloof Hills, com sumptuosos edifícios enfileirados em anfiteatro nas colinas dos montes que cercam a urbe e onde residem alguns dos mais destacados nobres da cidade. A leste do aglomerado estende-se um cemitério densamente povoado, onde campas e cruzes se espalham e se erguem do solo para manter vivas nas memórias o fim inevitável de cada um.

As fronteiras do Plastic View são marcadas por montes de desperdícios. Estes são constituídos, na maioria, por vasilhame de garrafas de plástico e de bebidas recolhidas de tambores de lixo. Nesses lugares respira-se um ambiente de decomposição. De fogueiras mal cuidadas evolam-se os fumos pestilentos das lixeiras municipais.

Cerca de três mil habitantes deambulam noite e dia pelos labirintos que se amaranham no campo. Crianças empanturradas de kwashiokor infectam-se alegremente nas poeiras e nos lamaçais das ruelas esconsas que separam as habitações.

Cães pulguentos executam números de dança pitorescos ao ritmo de coceiras prementes.

Nuvens de moscas varejeiras zumbem concertos de notas graves e esvoaçam na atmofera do campo. Competem nos pratos dos escassos alimentos e beijam os lábios das pessoas.

E água? Essa extraem das torneiras da rede municipal que abastece o cemitério. Em concorrência com os defuntos acarretam-na em baldes, tamboretes e garrafões.

Cada secção destas fileiras tem o seu proprietário. Aquela é o de um residente congolês que merca sonhos, sapatos puídos, colares de contas com cores desbotadas, fósforos, rosas vermelhas artificiais e relógios de pulso estacionados nas bermas do tempo. De um reprodutor de cassetes de áudio evolam-se as notas de uma rumba. Sua alada imaginação viaja pelo espaço etéreo para os vales de Lubengula na pátria distante e sitiada de “dê-érre-cê” (DRC – Congo-Kinshasa).

Quem, com a imaginação, sobrevoasse o campo apreciaria a extensão de uma manta de retalhos multicor, uma bandeira a cobrir a humanidade. Cada retalho é expressão de parte de uma nação. Aqui e ali destacam-se estandardes que definem as fronteiras de um território, símbolos que identificam uma origem: o chapéu Sutho sobre um fundo azul; o galo já rouco dos Ndebheles e Shonas do Zimbabwe; as armas cruzadas num fundo branco dos gloriosos de Moçambique onde os governantes se distraem na roleta da corrupção; escudos tradicionais cruzados dos guerreiros de Mswati com lanças de pontas rombas; do sol rubro nos poentes penumbrosos do Malawi, e doutros mais sem representatividade significativa no meio. São aquelas as marcas de um orgulho por uma nacionalidade distante que se rejeita, não esquecida todavia.

No exterior deste universo multicor e multicultural, a todos os habitantes do Plastic View aguardam os imprevistos da xenofobia.

À distância, nas colinas vizinhas, a imponência das mansões de Kloof Hills e de Woods Park são imagens de contraste entre a opulência de um lado e a miséria doutro. Os aristocratas seus habitantes protestam contra a invasão aos seus territórios, demandam das autoridades a expulsão imediata e incondicional dos residentes do Plastic View que não só conspurcam e poluem o meio ambiente, assim como representam riscos de criminalidade nos seus e noutros bairros adjacentes.

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Essa crônica foi publicada originalmente no portal LCB diplomatique em inglês e alemão e é apresentada na Pessoa em português como parte de uma parceria entre as duas plataformas. Confira as outras versões aqui.  

 



Aldino Muianga

Nasceu em 1950 em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique. É licenciado em Medicina pela Universidade Eduardo Mondlane e especializado em Cirurgia Geral. Publicou reportagens para veículos como o jornal Domingo e a revista Tempo. A sua extensa obra literária (contos, ensaios, romances), a partir de 1987, foi publicada em Moçambique, Portugal, Brasil (pela editora Kapulana), Suíça e França entre outros países. Coordenou a página literária da revista SAPES, publicada no Zimbabué, de 1991 a 1992, na qual escreveu sobre literatura africana escrita em português. É membro da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) e membro fundador da AMEAM (Associação dos Escritores e Artistas Médicos de Moçambique). É professor da Escola de Medicina da Universidade de Pretória, África do Sul, onde mora. O seu romance mais recente Asas Quebradas (Asas Quebradas) foi publicado em 2017, em Maputo. Fotografado por Carolina de Sousa Muianga.




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