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Guerra

Ilustração: Gretzlak



2021-05-11

 

Ou pelo menos parece uma guerra. Talvez não seja bem isso, ou talvez os dicionários tenham que agregar mais definições para o substantivo. Assim as coisas vividas: de repente o que se diz delas já não casa, e é preciso encontrar novas formas de dizê-las (na falta de novas formas de vivê-las). 

Sair à rua, claro, envolve risco. Não que seja possível deixar de fazê-lo, mas eu estou me limitando à loja de conveniência no posto de gasolina, onde ainda posso encontrar o essencial. Descobri que o melhor momento é assim que a loja abre as portas, às seis da manhã. Pouco movimento na rua, mas céu já clareando. Um ar descansado, viçoso, dando uma sensação de quase liberdade que não importa muito se é real ou não. Uma hesitação em mim diz liberdade coisa nenhuma, você não sabe mais o que é liberdade, liberdade não é isso. Mas eu vou caminhando até o posto de gasolina, deixando que o contentamento pelo extraordinário feito de ter acordado para mais um dia leve a melhor. A guerra. Mas eu aqui, vivo.

O prédio baixo da esquina ainda tem restos da fita de isolamento preta e amarela pendurada nos cantos, meio rasgada. O parquinho infantil em frente é um mar de latas vazias, sacos plásticos, na calçada o eventual preservativo usado. Compro suco de laranja, uma iguaria. E o que mais se aproxime das minhas definições cada vez menos rígidas de comida saudável. Também consigo dois rolos de papel higiênico e um saco de pão de forma. Carboidratos valem ouro.

Na volta, uma criança parada sozinha no parquinho fica me observando passar. Aceno com a mão, ela não responde. Nem sei por que acenei, a gente perdeu o traquejo da comunicação.

Mas em casa eu por ora estou a salvo. O futuro a Deus pertence era a máxima dos tempos da minha avó – agora, diz-se que o dono dele é o Diabo. Ou então que Deus e o Diabo formaram chapa única, e tanto faz acender vela para um ou para o outro, missa negra, Ave Maria, tudo entra para o bucho desse incontornável e sai de lá como essa merda fedorenta que é o destino da gente. E assim fica fácil, não? Responsabilizar o Altíssimo ou o Tentador, Deus-Pai ou o Cão-Tinhoso, dizer que o mal é a serpente. Pronto: um bicho, um do-lado-de-fora-de-mim. De minha parte, sempre tive a impressão de que o Juízo Final seria, ao contrário, uma casa de espelhos. Mas enquanto não chega, na minha casa propriamente dita eu por ora estou a salvo.

A manhã vai avançando com uma ameaça de chuva, as árvores espicaçadas pelo vento. Lembro da criança sozinha no parquinho. Tinha a cara de Deus e a cara do Diabo. Parecia uma criança velha. Ninguém mais no mundo tem direito a uma testa desanuviada, a um sorriso corriqueiro. E as crianças sabem disso, mesmo quando não sabem. Abro uma janela porque gosto de sentir o vento adentrar a casa com a sua força neutra, a sua força de vento. Ele limpa tudo na passagem – até as minhas ideias, até as bobagens que eu fico pensando e depois colocando no caderno porque não tenho mais nada para fazer.

Pego duas fatias de pão. Tenho um pote de margarina onde passo a faca com muito cuidado e parcimônia, espalho depois no pão. Tenho também um finzinho de geleia de goiaba que me alegra como ela só. O café eu aprendi a coar bem fraco, para que dure. Às vezes debato comigo mesmo: seria melhor tomar um café um pouco mais forte a cada dois dias? Ainda não cheguei a uma conclusão.

A criança me observando passar. O que será que ela estava pensando? Será que ela me olhava como quem vê um homem ou uma folha arrancada de uma árvore ou um redemoinho de poeira?

Quando eu era criança, um dia me perdi dos meus pais. Era Carnaval, brincávamos na rua, algum bloco animado, o sol ofuscante. Fiquei perdido por pouco tempo, minutos. Mas o pânico foi o de subitamente não ter mais uma identidade. Eu não era nada nem ninguém no meio daqueles adultos esfuziantes que cantavam e dançavam e pulavam. Tinha me desmanchado. Os segundos iniciais do pânico e do coração disparado foram, então, dando lugar a uma estranha espécie de quietude. O bloco carnavalesco seguia em sua zoeira ao meu redor, mas eu não fazia parte de nada daquilo, eu tinha me emancipado. Eu tinha descolado do mundo. Algum lugar dentro de mim talvez pedisse para ficar assim, perdido, para sempre. Mas naturalmente acabaram me achando, fincado no lugar como uma estátua, com dois olhos do tamanho de dois caroços de abacate.

Passo o braço para limpar a mesa, mais por hábito. Coloco sobre ela o prato com o sanduíche de pão de forma e a xícara com o café ralo. Um golinho de suco de laranja e se completa o meu café da manhã de hotel cinco estrelas. Comer devagar para ajudar a passar o tempo e para aproveitar cada segundo da comida. Depois, a sensação de saciedade, o corpo agradecido por essa pequena prova de afeto.

É simples, no fim das contas. Estar nesta guerra é só ir galgando cada dia, cada hora, cada instante. A proteção das paredes da casa, portas trancadas, ferrolho passado, janelas agora fechadas contra a chuva que começa a cair – chuva de vento chibateando as vidraças. Aqui dentro tenho a minha cama, as minhas cobertas, a minha geladeira, o meu fogão. Um banheiro com água encanada. Aqui dentro a guerra ainda não chegou.

Pego o caderno, mas hoje não sinto vontade de escrever. A criança no parquinho, feia, velha, não me sai da cabeça. Imagino que ela esteja em casa, agora, ou pelo menos ao abrigo da chuva, em algum lugar. Fico sentado em minha cadeira, diante da mesa com os farelos (poucos) do sanduíche, a caneca vazia, o copo de suco vazio, o caderno fechado e o lápis ocioso. Penso na criança e penso naquele distante evento de Carnaval, eu próprio criança. Eu em meio aos adultos extravagantes da folia. A criança em meio às latas e às embalagens usadas e aos sacos plásticos jogados ali no parquinho, há muito que já não se faz mais cerimônia com essas coisas.

Sinto, então, a primeira leve rajada de vento. Alguma fresta desconhecida? O vento parece um cochicho. Um espírito que passa pela sala e me segreda qualquer coisa. Mas intuo que não será segredo por muito tempo. Logo vem outra leve rajada de vento, e mais outra. Diríamos uma travessura de criança. Uma gota de chuva umedece o meu rosto. Olho para cima e vejo o buraco, do tamanho de um punho cerrado, talvez. Eu tinha me desmanchado no meio dos adultos, no bloco de Carnaval. O que será que houve com o telhado? O pensamento é distante. O céu que entra em minha casa pelo buraco é cinzento e frio. E à janela da frente agora falta uma vidraça.

Então era isso. Eu devia ter adivinhado. A porta está pendurada na moldura por um nada, como será que eu não notei antes, como não notei que não adiantava trancar a porta. Uma rajada mais forte de vento a derruba. No teto, o buraco tem agora o tamanho de uma bola de basquete. De duas bolas de basquete. O buraco no teto são dois, três. O vento e a chuva entram em minha casa, meu cabelo vai ficando molhado, minhas roupas vão ficando molhadas.

Entram na sala folhas secas varridas do grande carvalho da esquina, executam alguns passos de balé diante de mim e vão descansar a um canto, coladas umas nas outras. Falta agora parte da parede da esquerda, o reboco solto, os tijolos expostos. As roseiras abanam os braços dali, do canteiro que ficava do lado de fora e que não faz tempo eu me lembrei de podar. Mas é assim, nem mesmo os canteiros com roseiras podadas, nem mesmo eles vão servir de proteção. Nem mesmo a beleza das rosas.

A criança entra pelo vão da porta. Vem andando em minha direção e para bem perto de mim. Seus olhos do tamanho de dois caroços de abacate.

Pergunto o que vai acontecer agora, mas ela não responde. Nem sei por que perguntei – se afinal a gente perdeu o traquejo da comunicação.

A criança balança o corpo para cá e para lá e eu abaixo os olhos porque ela me intimida. Fito as minhas mãos e sei que estou desmanchando. Os segundos iniciais do pânico e do coração disparado vão, então, dando lugar a uma estranha espécie de quietude. A chuvarada segue em sua lida ao meu redor, alagando tudo, invadindo tudo. Não faço mais parte de nada disso. Quando vierem procurar por mim, não sei se vão me reconhecer. Mas sejamos honestos: desta vez, é improvável que venham procurar por mim. Afinal de contas, é uma guerra. Ou pelo menos parece uma guerra.

Não sem alguma tristeza vejo o meu caderno se encharcando sobre a mesa. Não tem problema, digo a mim mesmo. As coisas que escrevi aqui eram só bobagens para ajudar a passar o tempo. O caderno vai virar uma massa disforme de papel, como em algum momento todos os outros cadernos e livros e papeis e documentos e recibos da história, e as palavras vão se fundir umas nas outras já sem a penosa tarefa de tentar construir um significado. E depois vão desaparecer de vez.

 

 



Adriana Lisboa

É autora dos romances Sinfonia em branco (Prêmio José Saramago), Azul corvo, Hanói, Todos os santos, dos poemas de Parte da paisagem, Pequena música (menção honrosa – Prêmio Casa de las Américas) e Deriva e dos contos de O sucesso, entre outros livros, traduzidos em mais de vinte países. Publicou poemas e contos em revistas como Modern Poetry in Translation e Granta. Fotografada por Graça Castanheira.




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