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Ensino a distância

Foto: Feyissa



2021-04-15

A crônica de Enrique S. Villasis é publicada na revista Pessoa no âmbito de uma parceria com o LCB diplomatique

 

Em apenas mais algumas semanas, o ano letivo da minha filha mais velha terminará. Ela mal pode esperar. Eu a compreendo. Não é fácil estudar em tempos como estes, em que as crianças devem permanecer trancadas em suas casas.

Por causa da pandemia, as escolas nas Filipinas foram forçadas a migrar para o ensino a distância. As escolas - que antes eram animadas pelas risadas e brincadeiras das crianças - tornaram-se resquícios de conhecimento. Classes assíncronas e síncronas entraram em nosso vocabulário, bem como casos sintomáticos e assintomáticos. Seus testes agora são meros links de internet. E seus colegas e professores foram reduzidos a minúsculos rostos enquadrados na tela de um computador.

Na verdade, minha filha tem até sorte, há uma conexão de Internet boa e estável em nossa casa. Em um país com a conexão de internet mais lenta, porém mais cara do Sudeste Asiático, espera-se que os alunos encontrem todos os tipos de problemas em suas aulas online. Há alunos que precisam subir em árvores ou caminhar até montanhas remotas apenas para ter uma conexão decente que lhes permita assistir às aulas ou enviar seus trabalhos de casa. Comprar novos aparelhos e instalar a Internet custa muito às famílias paralisadas pela pandemia e quarentena.

O departamento de educação não planejou adequadamente a implementação do ensino a distância, à semelhança da resposta de outras áreas do governo à pandemia. Há cidades remotas no país onde a tecnologia da internet ainda não chegou. Algumas escolas contam com fichas que, se não forem atualizadas apressadamente, serão ministradas de forma incorreta. Muitas vezes, os próprios professores arcam com os custos da impressão de material escolar. Outro dia, assisti a um vídeo de um grupo de professores que teve que atravessar um mar agitado só para entregar fichas aos seus alunos. Não é muito surpreendente - a educação está sempre em último lugar na prioridade dos políticos.

Em casa, notei mudanças no humor da minha filha. Antes que o ensino a distância a prendesse, ela era sociável e participativa nas aulas. Lembro-me da sua última apresentação teatral na escola, em celebração ao mês do livro. Ela interpretou o pato que deveria entreter o rabugento rei leão. Ela cantou e dançou para fazer o líder carrancudo sorrir. Lembro-me do brilho em seus olhos.

Não era diferente quando ela compartilhava outas vivências na escola: o corte no joelho que ela ganhou ao correr atrás de um amigo, seu novo desenho que ela ensinou a classe a reproduzir e as risadas alegres que ela deu com os seus colegas.

Quando chegou a pandemia, sua energia e alegria desapareceram. Ela ficou irritadiça, mal-humorada. O motivo: ter perdido a interação real com seus amigos e colegas de classe. Minha filha passou a enfrentar apaticamente o computador para ouvir as palestras intermitentes de seus professores durante as manhãs. Para ela, estudar tornou-se apenas uma atividade que ela faz sem prazer.

Uma colega de trabalho contou-me que seu filho também perdeu o interesse em estudar depois que passou a fazer aulas online. Eu comentei em tom de brincadeira que não vamos para a escola só para aprender, mas também para conhecer e interagir com outras pessoas. Agora, devido à pandemia, as crianças também estão impedidas de desenvolver relacionamentos saudáveis ​​com seus pares.

Já se passou um ano de confinamento. O número de casos de coronavirus aumentou repentinamente. Parece que mais uma vez as aulas presenciais serão adiadas. Não posso deixar de sentir tristeza por minha filha. Sinto pena de outras crianças como ela. Sinto pena por toda a sua geração, que não terá nada a dizer sobre suas experiências de aprendizagem além da face estática de professores em aulas interrompidas e trabalhos perdidos pela queda de conexão com a Internet.

 

*

Tradução do inglês: Mirna Queiroz.

 

Essa crônica foi publicada originalmente no portal LCB diplomatique em filipino, inglês e alemão e é apresentada na Pessoa em português como parte de uma parceria entre as duas plataformas. Confira as outras versões aqui.  

 



Enrique S. Villasis

É poeta e roteirista, nascido em Milagros, Masbate, Filipinas. Seu primeiro livro de poemas, “Agua”, contém poemas que ganharam os prêmios Don Carlos Palanca de 2011, 2012 e 2014 e o concurso de poesia Maningning Miclat 2011. Foi finalista do National Book Awards. Actualmente está a trabalhar na sua segunda colecção de poemas a partir das pinturas de Vicente S. Manansala. Seu poema "Birds in Flight, 1965", traduzido por Bernard Capinpin, foi um dos quatro vencedores do Concurso de Poemas em Tradução da Words Without Borders, 2020. Ele atualmente mora em Quezon City e escreve programas de televisão para a ABS-CBN. Em março de 2021, participou no Festival Internacional de Poesia de Leiria, organizado pela Câmara Municipal. Fotografado por Sept Gines.




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