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O coração tem moradas que nem o Google reconhece

Foto: Joanna kosinska



2021-09-02

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Roma, 2 de setembro de 2021

 

 

Querido Jamil,

Hoje Anita perguntou: “mamãe, estamos no Brasil ou em Roma?”

É uma dúvida estranha, ela tem quase sete anos, é alfabetizada e esperta. Respondi segundo a perspectiva geográfica, que moramos em Roma, a cidade onde ela nasceu, pareceu satisfeita e voltou para os unicórnios. Quando sua carta chegou, eu ainda pensava que não é tão simples responder onde estamos, principalmente depois da internet, das redes e tudo o que passamos no último ano e meio. Sobretudo quando vivemos em dois fusos. Quantas vezes por dia você é capaz de responder, honestamente e sem vacilar, onde você está?

Agora mesmo estou dentro da sua carta, situada no verão pós-vacina europeu, olhando daqui a terra arrasada em que se transformou o nosso país, dividindo contigo a indignação e o desejo de encontrar caminhos. Mas, há pouco, estava no Brasil. Recebi a notícia da intubação de um primo querido, por Covid, no Rio. Ele é jovem, apenas 37 anos, forte, nenhuma comorbidade, sem vícios, uma exceção que rompe certa apatia que nos abate nesse interminável luto.

É comprovado cientificamente que ninguém sente tanta saudade da própria terra quanto o brasileiro, talvez eu tenha culpa da confusão de minha filha e o desterro seja um legado inevitável do qual ela vai se queixar ao analista. Vai contar que a mãe estrangeira, como se não bastasse o Belchior, a farofa e a tapioca, torturou sua infância com uma permanente indignação com o presidente genocida destruidor de futuros e o Brasil era distante apenas os dez centímetros azuis que ela pode medir no mapa com o qual tento localizar nossos corpos no mundo, já que o coração tem moradas que nem o Google reconhece.

É verdade que não podemos medir as distâncias como antes.

Lembro que numa quarta-feira, a Lombardia tinha a emergência com um novo coronavírus. Na quinta, meus filhos voltavam da escola romana para ficar em casa pelos próximos seis meses. Duas semanas depois, 850 milhões, metade das crianças do mundo, estavam sem aulas. Não precisamos de mais para entender que estamos conectados e somos interdependentes uns dos outros. Nossa geração terá de fato fracassado se não for capaz de reconhecer que não há saída que não passe pela reconstrução de uma resposta coletiva aos desafios de hoje e àqueles que virão logo ali, quando a Groelândia ficar tão próxima quanto Wuhan.

Gosto quando você escreve que a vida é espetacular, temos que mostrar isso às crianças, para que elas jamais se satisfaçam com a segurança de uma arma sob o travesseiro ou a liberdade de correr de um muro a outro. Espero que a pandemia as tenha ensinado o que nossa geração parece endurecida demais para compreender: liberdade, e seu negativo, a segurança, embora sejam demandas do espírito, não são qualidades do individuo, como gostam de afiançar nossos sistemas reprodutores de desigualdades, mas conquistas instáveis e delicadas da sociedade.

Respondendo sua provocação sobre Darwin, que triste se é esse o entendimento que a inteligência que nos distingue produziu depois de tanta evolução. A competição como premissa, nações sobre nações, indivíduos sobre indivíduos. Eu gostaria de pacificar o conceito de força como aquilo capaz de produzir e suportar elos.

Desculpe se não pareço otimista conforme minha natureza. Há muito ruído, muita fake, muito filtro. A realidade nos autoriza apenas o otimismo da vontade, seguindo a recomendação de Gramsci, mas é preciso cultivar o pessimismo da inteligência, organizar a revolta em torno da evidência de que qualquer mudança somente virá da luta dos que sofrem e dos que se importam. O otimismo do copo meio cheio serve à indiferença, que é o crime odioso dos inocentes. Gente como eu e você, Jamil, é preciso estar sempre em pontas de bailarina para enxergar por cima dos privilégios ou sucumbir à sombra conveniente que nos empurraria a tocar a vida sem elaborar, coletivamente, o terrível dessa experiência.

Estou voltando do litoral. Praias lotadas, comércio sem restrições, aglomeração por todo lado, beijos e abraços, cantoria, o vento da liberdade que você mencionou. Uma vez que a lei virou recomendação, muita gente relaxou os protocolos e festou, como sempre, enquanto eu sigo de mascherina, fugindo de aglomerações e lugares fechados, procurando o ponto mais vazio da praia, o que poderia dar numa amargura imensa. Mas sou sensível à beleza e comovida com o encontro. No segundo dia, já não consentia sustentar a crítica, fui tomada por uma irresistível compaixão. O que pode indenizar os 17 anos daqueles jovens bonitos? Ou os 10 anos de nossos filhos mais velhos? Os nossos quarenta e poucos? Os 90 que a avó completou sem abraço de neto? Escolhi julgar os governos antes de maldizer as pessoas, uma maneira um tanto desajeitada de resolver minhas questões éticas, mas é com os chefes, sobretudo os eleitos, que gasto meu fígado, esse é o trabalho deles.

Uma vez, diante do resignado “cada um tem a sua hora”, a mãe de uma amiga ironizou que, “sim, claro, mas a hora no sertão da Paraíba chega antes daquela dos Jardins”. Como você disse, praticamente todos os adultos estão vacinados na Europa. Meu primo, no Brasil, não. No dia que seria o seu, as doses acabaram. Tentou a xepa, mas tampouco conseguiu e, então, a Covid, depois de um ano e meio de cuidados. A negligência e a ganância dos que não se importam são manufaturadas em doença ou mortes evitáveis. Centenas, milhares, números que rolam já frios pelas manchetes, mas, de vez em quando, é o primo querido de alguém. Lembro de uma enfermeira insuportavelmente desperta que, no começo disso tudo, disse “se morre sua mãe, o percentual de letalidade da Covid é de 100%”.

É verdade que nada voltou ao normal. Talvez não se trate de quando, mas de como seremos normais daqui pra frente.

Reescrevo sua frase e, ao invés de lamentar, sinto o quentinho familiar da esperança, então será com a brasa quase fria do velho otimismo vulgar que encerro essa carta.

Nada voltou ao normal.

Meno male, melhor assim.

 

Um abraço desde Roma,

Juliana

*

Para ler a carta de Jamil Chade a Juliana Monteiro, clique aqui.

 



Juliana Monteiro

É jornalista e escritora, tem dois filhos e mora em Roma.




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