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Nos 100 anos de Paulo Freire

Imagem: manuscrito raro de Paulo Freire



2021-09-19

Mais do que ler e escrever em português, era importante apreender a experiência de que ler o mundo é condição para se fazer o mundo, e de que fazer o mundo coincidia com escrever o mundo.

 

Aprender é uma espécie de jogo entre o mundo que você conhecia e outro que se anuncia. Não é que o que foi aprendido te traga um mundo que você não tinha. O mundo que você tinha, agora tem uma coisa nova – digamos, uma planta. Ela criará raízes nesse solo e se nutrirá dele. Dessa forma, o que foi aprendido por cada um de nós terá um crescimento diferente em cada mundo. E exigirá, em cada caso, um cuidado específico. Educadores e educadoras sabem bem disso: podem ver com nitidez como as plantas do conhecimento tomam aspectos variados entre seus educandos e educandas. O modo como se curvam seus caules, como as folhas procuram a luz, e a cor que tomam suas flores, depende inteiramente da especificidade do mundo em que crescem. O conhecimento não se funda numa tábula rasa, mas em distintas terras, onde cria raízes, e a partir das quais cresce de formas variadas.

Esse é um dos legados de Paulo Freire. E uma das experiências mais impressionantes nesse sentido é aquilo que ficou conhecido como a “experiência de Angicos”, ou as “40 horas de Angicos”. Entre 1963 e 1964, Freire pôs em ação um plano para alfabetizar populações inteiras em até 40 horas de trabalho. Seu método era o da imanência: exigia a compreensão de que o sujeito da educação é quem aprende, e não quem ensina. Quem ensina media um processo no qual o sujeito é o educando e a educanda.

A história é conhecida, mas vale a pena ser recontada. Aconteceu na pequena cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, em uma região predominantemente rural e com suas lavouras de algodão. Muitos analfabetos e poucos recursos entre os cerca de 9500 habitantes. Mas com apoio dos governos federal e local, através da SECERN. Assim acontecia a primeira aplicação do Método Paulo Freire, que coletava, junto à comunidade, às suas formas de vida e trabalho, junto ao mundo material dessa população, temas geradores que serviam de base para a elaboração de exercícios de alfabetização – e politização.

Mais do que ler e escrever em português, era importante apreender a experiência de que ler o mundo é condição para se fazer o mundo, e de que fazer o mundo coincidia com escrever o mundo.

E tanto quanto alfabetizar, quem educava no Método Paulo Freire deveria aprender. Aprender o que? Seus educandos e educandas. Seu mundo, seus costumes, suas necessidades, seus interesses políticos, sua história e seu cotidiano. Suas formas de trabalho e lazer. Seus desejos e medos. Seus saberes – principalmente seus saberes. Conhecê-los.

 


Quadro explicativo das teorias da ação antidialogica e da ação revolucionária no quarto capítulo da Pedagogia do Oprimido (originalmente deixado de fora das edições do livro no Brasil). Fonte: "A gênese da Pedagogia do Oprimido", dissertação de mestrado de Camila Téo da Silva, defendida na USP em 2017.

 

Agora imagine. Essas 40 horas de Angicos incluíam: 1. uma aula sobre o conceito de cultura; 2. uma aplicação de cartilhas de decomposição e recomposição minimalista das palavras a partir das palavras que pertenciam ao universo material dos educandos e educandas; 3. leituras individuais e coletivas; 4. aulas de política a partir das palavras inventariadas no mundo dos educandos e educandas – isto é, uma investigação não apenas da leitura e da escrita da palavra, como também o modo pelo qual essa palavra é atravessada, onde ela foi colhida, por relações de força e de dominação de grupos sobre outros (pense na palavra algodão em Angicos, cheia de trabalhadores nas lavouras de algodão); 5. aulas sobre o funcionamento político do país, o significado do voto e a cidadania na prática; 6. recapitulações e aplicações de testes; e 7. aula de despedida.

O Método depois seria difundido pelo país no âmbito do Plano Nacional de Alfabetização. Foi sancionado pelo governo Goulart. Quando aconteceu o golpe militar e se implementou a ditadura, Paulo Freire foi declarado uma pessoa nociva aos interesses do governo. Os materiais pedagógicos foram enterrados e queimados, as aulas foram proibidas, e Freire foi para o cárcere por setenta dias e depois exilado. De lá foi para a Bolívia, e depois para o Chile. No Chile, juntou-se aos esforços do Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e participou dos programas desenvolvidos pelo Instituto Chileno para a Reforma Agrária. Seu Método também foi aplicado lá, onde ficou por cinco anos. O suficiente para acompanhar o início do governo revolucionário de Salvador Allende – que seria deposto em 1973 pelo general Augusto Pinochet, mais um episódio triste de implementação de ditaduras militares na América Latina no período para barrar movimentos emancipatórios populares.

1968 é lembrado como um ano icônico da revolta estudantil, das revoluções do corpo e do prazer, da retomada dos temas da sexualidade como questões eminentemente políticas e do reconhecimento de outras formas de dominação que não apenas as econômicas. Ao lado dessas coisas, com no mínimo igual importância, 1968 deveria ser lembrado como o ano em que se publicou, durante o exílio no Chile, pela primeira vez, a Pedagogia do oprimido. Sua teoria da ação dialógica como ação revolucionária não foi ainda suficientemente incorporada por nós. Ainda tentamos transferir conteúdos – políticos, por exemplo – crendo numa educação que confia suas forças a um líder educador, cheio de “capital” na sua “conta bancária” dos saberes. Essa ação é antidialógica, ela postula um líder que nos salvará, e por isso é reacionária, porque toma o outro como objeto do saber, e como objeto da ação política. O Método Paulo Freire nos convida a conceber o outro como sujeito de sua própria educação e sujeito de sua própria libertação. E é somente quando o outro é sujeito de sua educação e libertação que eu posso me conceber como sujeito da minha educação e da minha libertação, e como o outro pode contribuir com elas.

Como dizia Freire, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo: as pessoas se educam entre si, mediatizadas pelo mundo.

 



Rafael Zacca

Rafael Zacca é poeta e crítico. É co-articulador da Oficina Experimental de Poesia, no Rio de Janeiro. Doutor em Filosofia na PUC-Rio, onde pesquisou a obra de Walter Benjamin. Colaborador do do Jornal Rascunho e da revista Escamandro. Autor de Kraft | Poemas (2015), Mini Marx (2017), Mega Mao (2018) e de A estreita artéria das coisas (no prelo). É um dos autores do livro de oficinas literárias Almanaque Rebolado, escrito a 20 mãos (2017).

 

 




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