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O destino de milhões de meninas

Foto: Joanna Kosinska



2021-11-07

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 7 de novembro de 2021

 

Querida Juliana,

A luz do outono definitivamente desembarcou aqui aos pés dos Alpes. Pelas manhãs, enquanto levo as crianças para a escola, a vista do Mont Blanc é cada vez mais repleta de tons avermelhados, que transformam os picos nevados em um mosaico surpreendente.

Existe em mim, porém, algo profundamente revoltante quando penso que um mero trajeto para a escola é ainda apenas um sonho para milhões de crianças pelo mundo. Lembro-me como, na fronteira entre o Quênia e a Somália, uma garota me disse que não ia para a escola por conta da falta de luz no caminho. Ela pontuou. “Não tenho medo do escuro. Tenho medo do que ocorre no escuro”.

Revoltante também é a revelação de que essas barreiras até a escola não apenas são enormes, mas ainda são colocadas pelas próprias autoridades.

Uma nova camada dessa campanha contra a educação ficou escancarada quando o governo brasileiro cortou verbas para a distribuição de material para a higiene pessoal de meninas. Em outras palavras: absorventes.

A persistência de privilégios no topo parece cegar quem não quer ou não consegue ver a teimosa pobreza que abala o destino de milhões de meninas. Elas são invisíveis, vultos ou apenas um produto de desejo ou domínio. Não são atores de direitos, não vivem em uma democracia.

A pobreza menstrual não é uma realidade apenas de brasileiras. Na África, uma em cada dez meninas não vai à escola por não ter absorventes ou por não existirem banheiros seguros em seus locais de estudo. No Quênia, 50% das meninas com idade de ir para a escola não contam com esses produtos de higiene. Na Índia, 12% das 355 milhões de mulheres que menstruam não têm dinheiro para absorventes.

De forma ingênua, eu achava que, no futuro, seríamos mais inteligentes, mais esclarecidos e que olharíamos para a nossa própria existência no passado com uma mistura de deboche, vergonha e arrogância: “como é que aquelas pessoas pensavam assim?”.

Mas percorrendo as salas da ONU há 21 anos, tenho ficado cada vez mais preocupado com o que eu escuto nas negociações atuais para a aprovação de resoluções ou decisões. E especialmente quando o debate é a mulher e seu corpo.

Politizado, ele se transforma em um objeto no qual a fé, a ideologia o controle e repressão se encontram.

No caso do Brasil, há um diálogo explícito entre o corte de recursos para absorventes e a postura internacional do país. Há, no fundo, uma ideologia muito maior que apenas o buraco fiscal: a da retirada de direitos.

Nos últimos dois anos e meio, parte da ofensiva diplomática brasileira foi por garantir que nada no direito internacional conduzisse a uma ampliação dos direitos das mulheres, vetando em resoluções termos como acesso à educação sexual ou saúde reprodutiva. Oficialmente, o objetivo é o de não deixar brechas para o debate sobre o aborto. Mas há um movimento muito mais profundo, que é o de reagir à reivindicação por igualdade.

A postura da diplomacia brasileira nos últimos dois anos chocou a ponto de conseguir encontrar eco apenas em governos acusados de violações graves contra as mulheres. Um deles que estendeu a mão à extrema direita no Brasil foi a Arábia Saudita, país que só recentemente autorizou a mulher a dirigir um carro. Foi apenas recentemente que as mulheres sauditas foram autorizadas a ter acesso a seus prontuários médicos. Antes, quem tinha esse direito exclusivo era seu “guardião”. Claro, sempre um homem, inclusive seus filhos.

Até 2019, apenas o homem tinha o direito de receber informações sobre o processo de divórcio. Até 2013, não existia o crime de violência doméstica no código penal. Para se casar, uma mulher precisa da assinatura no certificado não apenas do marido. Mas também do guardião. Trata-se, no fundo, de um repasse de “direitos”. Mas nunca para a mulher. Passaporte? Só com autorização.

Foi, portanto, esse o governo que viu no Brasil um aliado no debate sobre a mulher. Em ambos os casos, as mulheres são coadjuvantes da história, a autonomia do corpo não está assegurada e nem sua liberdade.

Juliana, eu sempre que posso ironizo aqui em Genebra os diplomatas com uma pergunta:

“Em que sala está sendo debatida a resolução sobre medidas para limitar a autonomia do corpo masculino?” Obviamente essa reunião não existe e jamais existiu.

Outro aliado do Brasil é a Hungria, país que passou a dar para mulheres que tenham mais de quatro filhos isenção de impostos e descontos para a compra de carros grandes. Sua função social é procriar.

Em pleno século 21, entender que existem encontros internacionais nos quais governos ainda resistem à ideia de uma maior garantia de direitos para meninas e mulheres é o espelho de uma luta de séculos que não está nem perto ainda de terminar. De fato, o Fórum Econômico Mundial estima que, no atual ritmo do avanço da igualdade entre homens e mulheres, precisaremos de mais 209 anos para atingir salários equivalentes. Estamos prontos a dizer a nossas netas que elas terão de dizer às netas delas que não há garantia de igualdade?

Não consigo evitar um sentimento de profunda frustração quando ouço hipócritas que falam em fé quando destroem sonhos, vidas e liberdades de meninas. De cínicos que colocam o nome “Mulher” na porta de um ministério. Ou de delinquentes que querem decidir seus destinos. O crime? Você certamente sabe muito melhor que eu.

Emprestando e transformando a frase da escritora americana Joyce Carol Oates de que o sangue é a memória sem linguagem, o ato do governo sobre os absorventes permanecerá como um dos momentos reveladores de uma operação deliberada de retirada de direitos.

Mas quero pensar no futuro para permitir a existência de uma nova geração de homens que peça demissão em um governo que ouse agir assim. Por qual motivo pedir demissão apenas quando uma política econômica não condiz com sua ideologia?

Uma geração que não terá medo de compartilhar o espaço, de aceitar a condição de igualdade e de lutar por ela como se fosse sua própria sobrevivência em jogo.

Juliana, como pai de dois meninos, que educação eu devo garantir a eles para não perpetuar a maior injustiça social da humanidade? Para impedir sequer que uma pergunta como essa tenha de ser feita em uma carta? Para que nascer mulher ou homem não defina nossos direitos?

Aguardo tua carta, com aquela sensação que já passou a fazer parte do início de cada mês, onde a ansiedade e se mistura na certeza de que você me ajudará a ler e transformar o mundo.

Pessoa já dizia que a fraternidade tem subtilezas. Uns governam o mundo, outros são o mundo. Sempre que leio isso, me pergunto: será que passou por sua cabeça que essa é também a fronteira entre homens e mulheres em muitas partes do mundo?

Recusando-me a te mandar um beijo fraterno e sem lugar para uma saudação sororal, talvez tenhamos de buscar novas palavras que sirvam de instrumentos para romper com uma realidade. Teu sangue é nosso sangue. Teu sangue é nossa vida.

 

Jamil



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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