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As mulheres não têm paz

Foto: Joanna Kosinska



2021-11-08

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Roma, 8 de novembro de 2021

 

Sabe, Jamil

Quando fiquei menstruada pela primeira vez, guardei segredo. Eu sabia o que era o sangue na minha calcinha, fui bem orientada. No entanto, não contei para ninguém. Improvisei com papel higiênico não só naquele, mas também no outro mês e no outro. Precisei de tempo para assumir aquela nova condição: não era mais uma menina, era uma “mocinha”, parecia uma grave desvantagem. Sempre que escutava esse veredicto sobre outra menina, era como advertência, continha alguma restrição ou um julgamento. Eu tinha 12 anos.

Meu primeiro compromisso do dia é também levar as crianças na escola. Não temos a vista do Mont Blanc para distrair do frio dessas primeiras horas da manhã, mas o afamado trânsito romano. Aqui, o outono se prova nas folhas por um fio, que se deixam levar por qualquer sopro. Anita gosta de chamá-las de “amarelo-alegre”, e é bonita uma parte do caminho porque, no calor do carro, escutamos música e vemos o sol procrastinado de outubro filtrado pela chuvinha das folhas que rolam pelo capô e se espalham pelo asfalto e pelas calçadas. Em comum, querido Jamil, temos, sentadas no banco traseiro, crianças privilegiadas. Mas, no meu caso, uma é mais privilegiada que a outra.

Sua carta me fez pensar que a criança, embora esteja entre as minorias políticas mais vulneráveis e silenciadas, ainda conta com o ECA  e o engajamento de adultos para protegê-la. No entanto, se “já é uma mocinha”, assiste suas prerrogativas, não só de criança, mas de cidadã e, finalmente, de sujeito, derreterem conforme seu corpo ganha as propriedades de um corpo-de-mulher. Por isso, quando perguntam como virei feminista, respondo que desde que me reconheci num corpo-de-mulher. E quanto mais de-mulher sinto meu corpo, mas feminista me faço.

Fechar as pernas, esconder os seios, esconder o sangue, a cólica, o tesão, as variações hormonais e seus efeitos no humor, os filhos, a celulite, as rugas, o aborto. Disfarçar o peso, a altura, baixar o tom de voz, passar calor, passar constrangimento, ter o corpo observado, julgado, criticado, adequado, ter cuidado com os becos e com os descampados, com a gravidez, ter cuidado com quem “só quer te comer”. Sobretudo, jamais querer só comer alguém, isso é muito importante para todos dormirem tranquilos.

Um corpo-de-mulher deve ser fértil, belo, discreto, passivo e subordinado. Deve estar a serviço dos homens, dos filhos e, claro, do capital. Silvia Federici defende que a caça às bruxas (“a herege, a curandeira, a esposa desobediente, a mulher que ousa viver só, a mulher obeah que envenenava a comida do senhor e incitava os escravos à rebelião”, coloque aqui sua bruxa preferida) foi tão importante para o desenvolvimento do capitalismo quanto a colonização ou a expropriação do campesinato europeu de suas terras. O controle sobre nossos corpos é um dos pilares do sistema. E muitos dos direitos que conquistamos foram manobrados para perpetuar nossa condição subalterna.

Por exemplo, a revolução sexual do final da década de 1960. Sem destituir sua importância, tenho um olhar desanimado para os resultados práticos. Reivindicávamos liberdade e autonomia. E, se formos honestos, nossa autonomia é uma quimera e a liberdade conquistada foi dada ao homem. Se antes as mulheres penhoravam a exclusividade sobre seus corpos, seu único ativo, em troca de estabilidade e segurança, depois da revolução sexual esse produto ficou barato. Foram os homens que ganharam acesso inédito ao corpo feminino sem que, com isso, tivessem que se comprometer legalmente, afetivamente ou financeiramente.

As mulheres ficaram com a má fama, com os segredos, com toda a responsabilidade em relação a concepção, com filhos sem pais, com os abortos clandestinos, com as múltiplas jornadas de trabalho, com a sobrecarga mental, com os efeitos colaterais e os riscos das pílulas anticoncepcionais. Você sabia que os hormônios contidos nos anticoncepcionais diminuem dramaticamente a libido de grande parte das mulheres? Para transarmos sem o risco de engravidar, tomamos uma droga que reduz nossa vontade de transar. O que te parece? Os homens tomariam algo assim?

Isso é uma sacanagem, Jamil.

Como você escreveu, não somos atores de direitos, não vivemos em uma democracia. O aborto continua sendo uma concessão que os homens fazem ou não fazem. Assim como a paternidade que ainda escolhem exercer ou não, sem maiores prejuízos. O direito ao voto, ao trabalho, o direito de consentir, nada nos está assegurado. Simone de Beauvoir nos alerta, desde o século passado, que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. As mulheres não têm paz. Como no título do livro de Juliet Mitchell, “women are the longest revolution”. Espero que a menininha sentada no banco de trás do meu carro tenha coragem, companhia e força no seu devir mulher.

Ano passado, a turma de Gael encenou "O Magico de Oz". Foi inevitável reparar que, tirando dois ou três meninos com evidente talento artístico, as garotas pareciam mais articuladas, espertas, atentas, mais conscientes e extrovertidas. Fiquei fascinada por elas e pensei em que momento aquelas meninas de nove anos, explodindo de potencial e segurança, começariam a baixar a cabeça ao atravessar uma roda masculina qualquer. Puxar o vestido para baixo. Fraquejar na autoconfiança. Considerar seus projetos maiores que elas. Quando começariam a ter vergonha? Em 1822, Stendhal escrevia, no seu estudo sobre o amor, “concede-se que uma menina de dez anos seja vinte vezes mais esperta que um moleque da mesma idade. E por que ela se transforma, aos vinte, numa grande idiota, desajeitada, tímida, com medo de aranhas, enquanto o menino se torna um homem espirituoso e inteligente?”

Acho que começa quando nos apartam do corpo. Algo está muito errado se, no momento em que ganhamos o superpoder feminino, que contém a explosão do início de tudo, sentimos medo e sentimos vergonha. Chimamanda Ngozi Adichie marca que, em todo mundo, a sexualidade feminina diz respeito à vergonha. Mesmo em culturas que esperam que as mulheres sejam sexy, não esperam que sejamos sexuais. Não garantir absorventes para quem não pode comprar é expressão do desprezo por nossas existências como mulheres.

Porque as mulheres sangram e sangram a vida inteira, os homens podem não ver, não saber, não sentir, não perceber, não se haver. Mas é assim que existem todas as mulheres a sua volta, a maioria dos seres humanos sobre a terra. Sangrando. Ninguém fica neutro diante do sangue, mesmo que escape do talho invisível que a borda de uma folha de papel faz no dedo. O patriarcado não está preocupado com família, pecados ou fetos. O centro da disputa é o controle sobre o corpo da mulher cuja prerrogativa biológica é justamente ser rebelde e insubordinado: quando sangra, quando gera, quando pare, quando produz o alimento suficiente para suas crias.

Pensei na sua questão sobre como educar os meninos para atuar na construção da nossa utopia de justiça e confesso que não sei.

Talvez você possa contar sobre seu percurso, explicar como chegou à opinião que tem. Preste atenção no que diz e também no que escuta deles, no machismo que se infiltra pela linguagem e encharca tudo em volta. E os corrija. E se corrija. Aprenda enquanto ensina, com eles e para eles, a falar das mulheres e com as mulheres com o respeito que devemos ao outro. Não ensine a seus meninos que eles devem tratar bem uma mulher por ser mulher, mas porque é assim que agimos com outro ser humano. Sobretudo, não os deixe acreditar na artimanha machista de que o bem estar das mulheres depende da condescendência dos homens.  

Seja radical, Jamil. Ou você reconhece a alteridade e acredita na plena igualdade de valor e direitos entre homens e mulheres, ou não. Espero que Gael e os dois garotinhos sentados no banco de trás do seu carro encontrem essa trilha desbravada quando puderem ser, de fato, agentes da revolução que sonhamos. Por hora, essa missão ainda é nossa. E é muito bom contar com um aliado como você.

 

Com esperança e carinho,

 

Juliana



Juliana Monteiro

É jornalista e escritora, tem dois filhos e mora em Roma.




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