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"O encantamento do divino sem as bobagens do sagrado"

Foto: Joanna Kosinska



2022-01-20

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Roma, 20 de janeiro de 2022

Oi, Jamil

 

Lembrei de uma coisa besta, dessas aleatórias, de quando os fatos trombam com certos sentimentos desencapados e cicatrizam na linha do tempo daquela memória que conta a história da gente. Bem pequena, eu costumava me benzer quando não tinha ninguém olhando para me sentir aterrada em um tipo de proteção e de amor. Era um ritual secreto, íntimo e muito verdadeiro como são as coisas que inventamos para nos consolar. Um dia, fui flagrada pela família, tinha me machucado e fiz minha mandinga desatenta, no meio da sala da casa da minha avó, em Irajá, e lembro das minhas tias, talvez uns primos, rindo e comentando por toda a eternidade daquelas férias, “que gracinha, ela se benze”. Claro que nunca mais me benzi. Saber que você tem orado baixinho iluminou essa lembrança.

Eu perdi o hábito. Primeiro parei de me benzer, depois de rezar, depois, mesmo nascida em uma grande família católica, de praticar e, por fim, de acreditar no deus que aprendi. Lia os evangelhos e concordava com tudo que Jesus dizia. Tinha a ver com liberdade, respeito, solidariedade, reconhecimento do valor e importância de todos e de qualquer um. E também com desobediência, rebeldia, sobretudo, amor. Não compreendia esse ideal revolucionário, possível porque humano, aprisionado em um deus voluntarioso, criado à imagem e semelhança da nossa arrogância e indiferença, que tudo vê, tudo sabe, tudo pode e nada faz. Ou faz só para alguns. Ou cobra no débito e no crédito. Não me parecia relevante (nem razoável) acreditar que Jesus foi concebido sem sexo ou que não respondia às leis da física. O mais carismático e inspirador dos insurgentes transformado em marco temporal e liturgia. Inofensivo, pois.

Parece que os direitos humanos não podem ser persuadidos pelo sentido, pela empatia nem pela justiça. Nem por deus. Foi preciso documentar o óbvio da vida como um direito, como você escreveu, e nem assim, Jamil. No fim da adolescência já concordava com Nietzsche, não era possível acreditar em um deus que queria ser louvado o tempo todo com tanta dor por aí. Ofende nossa inteligência recorrer ao livre arbítrio para explicar as desgraças enquanto não pudermos determinar nossa posição em relação ao equador, nascer homem ou mulher, branco ou preto, herdeiro ou miserável num mundo onde essas variáveis determinam a dignidade que o sujeito pode almejar. Gente de fé viva, como o arcebispo Tutu e o Pe. Júlio, que você citou, orienta a oração para a ação. Quem disse isso foi Tiago, está na bíblia, “crês que há um só Deus? Estás muito certo. Mas lembra-te que os demónios também creem e tremem! És uma pessoa bem insensata se não conseguires compreender que a fé sem obras não vale de nada.”

Gente de fé viva compreende a urgência da ação porque se preocupa com a vida dos outros, não com o que os outros fazem da própria vida.

Lembro de um trecho de Anna Karenina, em que Lievin comenta com o sogro, no processo de sua conversão, que não saberia educar o filho apenas com a força de sua própria palavra e conduta, era preciso recorrer à autoridade de deus. É curioso porque esse deus único e uno, masculino, infalível, total e viciado em obediência é fiador histórico das maiores barbaridade, de guerras e fogueiras ao bolsonarismo. Jamais uma associação de ateus fez tanto estrago e maldade. Talvez por exercitar mais a ética que se dá ‘entre’, sem o acolchoado da moral que vigia ‘sobre’ e fatalmente transforma todo moralista em hipócrita.

Deixei deus pra lá, Jamil, como poemou Leminski, ele que cuide dos seus assuntos, eu fui cuidar dos meus. Podia até admitir que esse terrível deus da bíblia (e de vigaristas em geral), severo e chegado numa carnificina, fosse pai de Jesus e criador de todos nós, isso explicaria muita coisa, mas se Jesus se confundia com aquele deus sádico, por quem Abraão quase sacrificou o filho como prova de obediência, então melhor ser comunista.

No entanto,

ah, no entanto.

Se a crença no deus transcendente constrange minha intuição e discernimento, a ideia de uma imanência divina restitui a boniteza que preciso colocar nas coisas para que façam sentido. É possível admitir o encantamento do divino sem as bobagens do sagrado.

Não gosto das doutrinas que rebaixam o corpo a um lugar onde o pecado pode acontecer e que afirmam que o sofrimento e a privação do corpo são virtudes agradáveis a deus. A vida como uma via crucis, que chamamos, morbidamente, de “sacra”. Deleuze, em um texto sobre Spinoza, levantando a questão do filósofo sobre ‘o que pode um corpo’, nos diz que o poder tem interesse em nos comunicar afetos tristes, aqueles que diminuem nossa potência de agir. “O tirano, o padre, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar (...). A longa lamentação universal sobre a vida: a falta-de-ser que é a vida...”

Acho que a hierarquia da mente sobre o corpo humilha a potência da vida. Daí que as questões que você coloca na sua carta, sobre a intromissão da tecnologia no que nos é mais íntimo, no nosso desejo, nos nossos afetos, nas nossas crenças, me perturbam. Estamos cada vez mais sentados. Nossos olhos jamais puderam ver tão longe, mas olham sempre para o mesmo lugar, esse, onde você me lê agora. Ah, Jamil, o corpo pode mais. Eu assino com Eduardo Galeano que escreveu que, enquanto a igreja diz que o corpo é uma culpa, a ciência diz que é uma máquina e a publicidade diz que o corpo é um negócio, “el cuerpo dice: yo soy una fiesta”.

Eu acredito na fé. Talvez porque fé em nada hospede uma tristeza, não a que vem do desgosto, mas aquela das coisas desprovidas de mistério. Uma tristeza simplória, que não dói, mas enfeia. E acredito nos milagres. Gosto de pensar no sentido da origem dessa palavra bonita. Milagre. Do latim, miraculum. Do verbo mirare, que quer dizer "maravilhar-se": sentir o peito enchendo-se de leite ao escutar o choro do filho, escapar por pouco, salvar uma vida, se apaixonar perdidamente são coisas que podem ser explicadas pela ciência e pela cultura e também são milagres, pode reparar.

Achei bonito o que você escreveu sobre usar sua fé como instrumento. E pensei que, talvez, o destinatário da oração seja menos importante do que a fé que investimos nela. Você escreve, você cria, você sabe. O que move as montanhas é o desejo expresso no que criamos. Ritos, orações, laços, textos, pontes, filhos. Escutei o genial Luiz Antônio Simas falando sobre sua vivência no candomblé. Quando perguntado se crê, ele responde: “Eu acredito. Mas eu acredito, sobretudo, porque é bonito. E mesmo que eu não acreditasse, eu continuaria batendo cabeça aos pés do orixá porque é bonito e a gente precisa desse encontro, dessa dimensão da beleza incessante do que a gente pode ser no mundo.”

Termino te oferecendo essa oração, querido amigo: que você não perca a dimensão da beleza incessante do que podemos ser no mundo.

A desesperança é contrarrevolucionária.

Com carinho e o meu melhor abraço,

Juliana

 

Ps.

Eu menti.
Ainda me benzo em uma única situação,
posso estar sentada entre Freud e Marx,
pelo sim, pelo não,
sempre irei me benzer
na decolagem do avião.

 

Para ler a carta de Jamil Chade a Juliana Monteiro, clique aqui.



Juliana Monteiro

É jornalista e escritora, tem dois filhos e mora em Roma.




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