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"Como vamos explicar no futuro essa pornografia moral?"

Foto: Joanna Kosinska



2022-03-15

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 15 de março de 2022

 

Prezada Juliana,

Olhando para o chão, vejo vários papéis amassados, formando um estranho campo minado de resquícios do meu fracasso. São as outras versões da resposta à tua carta que eu preparei para te mandar. Palavras em folhas contorcidas e que, mesmo antes de serem descartadas, pareciam que não faziam sentido.

Tua ousadia, sensibilidade e coragem em tratar da questão da injustiça me deixaram em silêncio por algumas horas. Como colocar sentido em uma irracionalidade profunda?

Como encontrar respostas racionais para uma questão que desafia nosso traço mais profundo de humanidade?

Tento imaginar como as gerações futuras vão nos olhar, nos julgar e nos condenar. E estou convencido de que um dos aspectos que não vão conseguir explicar é como nós, diante da riqueza que o mundo produz diariamente neste início do século 21, continuávamos a viver uma disparidade obscena de renda e de condições de vida sem nos rebelar.

A desigualdade está em todas nossas esquinas e teimosamente se renova com as primeiras horas de vida de cada grande cidade e suas barulhentas rotinas.

A profana desigualdade é aquela que transforma, para milhões de pessoas, a vida numa prisão perpétua onde a única liberdade que têm é a da morte.   

O que mais me choca, Juliana, é que não se morre de fome por uma fatalidade. Hoje, o planeta produz alimentos para nutrir três mundos. O Brasil se gaba em dizer que alimenta 1 bilhão de pessoas pelo mundo com sua agricultura. Mas e por qual motivo então o padre Júlio Lancellotti precisa agir todos os dias para garantir a vida de pessoas no centro de São Paulo?

Quem morre de fome, em 2022, morre assassinado.

Numa viagem que fiz para o interior da Etiópia, há quase 15 anos, descobri que remédios do coquetel contra a Aids não chegavam a uma cidade que via sua população ter uma expectativa de vida equivalente ao que existia na Europa há 200 anos.

Fui perguntar o motivo da escassez e a resposta era tão cínica quanto criminosa: as pessoas aqui não tem como pagar pelo tratamento, todos sob o controle de patentes registradas por multinacionais. Saí daquela viagem convicto de que não existem doenças negligenciadas, mas sim povos negligenciados.

Em nome do monopólio e de seus lucros, remédios que poderiam ter salvado vidas levaram quase uma década para finalmente desembarcar em solo africano. Nesse período, 9 milhões de pessoas morreram. Será que todas teriam sucumbido se os tratamentos fossem mais acessíveis?

O mais chocante, porém, foi descobrir que, se remédios não chegavam, um produto globalizado não faltava: Coca-cola. 

Em 2021, mais de 10 bilhões de doses de vacinas contra a covid-19 foram produzidas no mundo. “A ciência venceu”, exclamamos com um sentimento de alívio. Mas como explicar que 70% delas ficaram em apenas dez países? Como explicar que, hoje, 3 bilhões de pessoas ainda não tomaram sequer a primeira dose?

Com a mesma força que comemoramos os feitos de nossos cientistas, temos de gritar um “basta” sonoro. Nossa geração tem uma mancha enorme diante do fracasso da distribuição de doses.

Em pleno século 21, 525 mil crianças morrem vítimas da diarreia. A doença pode ser prevenida e é tratável. Ainda assim, a humanidade perde 2 mil menores por dia para ela.

Num mundo que mantém estações espaciais e que ergue monumentos ao desperdício, quem morre vítima da diarreia morre assassinado.

Em muitos aspectos, o mundo vive um Apartheid real. Silencioso? Apenas para os surdos. Ou, como diria Nelson Rodrigues, o pior cego é aquele que não quer ver.

E o mundo opta por não querer ver o déficit de humanidade em zonas que, se estão no mapa, parecem ter desaparecido da consciência coletiva.

E a Ucrânia é apenas mais um capítulo dessa história dramática de um mundo que não olha para o sofrimento humano da mesma forma, dependendo de quem padeça.

Uma vizinha aqui no meu bairro decidiu ir até a fronteira com a Polônia para buscar refugiados ucranianos. Trouxe 15 deles. Sua generosidade é impressionante, comovente mesmo. No conforto de sua mansão e de sua conta bancária capaz de permitir que duas gerações não trabalhem, seu gesto de arregaçar as mangas foi certamente a maior aventura na qual ela já mergulhou.

Mas onde esteve ela e tantos outros quando os sírios, afegãos, eritreus, congoleses e iraquianos naufragavam com seus sonhos e seus filhos na busca por segurança? Por qual motivo a fronteira vale para uns e não existe para outros?

Desde 2014, 24 mil pessoas já morreram tentando cruzar o mar Mediterrâneo, em busca de vida.  

Insisto, Juliana, como vamos explicar no futuro essa pornografia moral?

Quem morre afogado no Mediterrâneo morre assassinado.

Numa das viagens que fiz ao lado de refugiados, senti uma enorme vontade de vomitar quando chegamos na fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Enquanto caminhávamos, helicópteros enviados por Budapeste sobrevoavam nossas cabeças. Abriram as portas dos aparelhos e jogaram dos céus algo que, num primeiro momento, não conseguíamos distinguir.

Para o choque de todos, víamos caindo pelo chão papéis com mensagens do governo húngaro, em árabe e em inglês. “Vocês não são bem-vindos e qualquer um que cruzar a fronteira ilegalmente será detido”. 

Nesta semana, conversei com uma das refugiadas ucranianas que foi acolhida pela família de milionários do meu bairro. Ela me confessou que ainda não aceitou que é uma refugiada. Afinal, completava a anfitriã, eram ricos, artistas, sofisticados e lindos, homens e mulheres.

Enquanto ela falava, fiquei pensando no maestro da orquestra de Bagdá que encontrei na fronteira entre o Iraque e a Jordânia, depois da queda de Saddam Hussein. Ele vivia numa barraca imunda doada pela ONU, num deserto. Naquele dia, ele me contava: a pausa em sua vida já durava quatro anos de compassos de espera.

Juliana, essa não é certamente a carta que gostaria de te enviar, enquanto o sol tenta romper os obstáculos do inverno europeu e nos anuncia que a primavera está chegando. Mas, da mesma forma que nosso poeta chileno já declarou que a primavera não se pode deter, essa revolta que sinto tampouco consigo controlar.

Não haverá paz enquanto não houver justiça social. E não haverá justiça social enquanto não ampliarmos a noção de humanidade para...a humanidade.

Tenho, porém, uma esperança. A de que existem cada vez mais vozes alertando que a era do mundo infinito acabou. Na verdade, nunca existiu. Mas, insuportável, nosso modelo de vida está revelando ser insustentável. Ele nos levará a novos desastres. Sociais, ambientais e morais. A primavera das consciências, regadas por resistência, já dá os primeiros sinais.

Outra esperança permanente que tenho é por uma nova carta tua, com palavras que me servem ao mesmo tempo de binóculo e lupa para decifrar nossa alma.

Te conto um segredo? Meus filhos descobriram um truque para saber quando tuas cartas chegam. Segundo eles, basta reparar nas paredes já capengas da caixa do correio aqui de casa. Diante de teus poemas sinfônicos, aquela pobre caixa ecoa como um teatro Scala, se contendo num frágil equilíbrio de um velho alicerce de cimento para resistir à revolução que tuas palavras causam.  

 

Deixo aqui para você e aos teus um beijo repleto de luta.

 

Para ler a carta de Juliana Monteiro a Jamil Chade, clique aqui.



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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