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“Inimigo?”

Foto JOANNA KOSINSKA



2022-04-19

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 19 de abril de 2022

 

Querida Juliana,

 

Você deve já ter percebido como a primavera aqui no Hemisfério Norte trouxe de volta aquelas aves e suas melodias que tinham migrado para regiões mais amenas do planeta. Confesso que por vezes eu as invejo. A inexistência de um passaporte, de um documento no qual o estado diz solenemente ao restante da sociedade que eu sou realmente eu. 

Será que não confiam que eu saiba quem sou?

Esta nossa primavera, porém, apresenta uma trilha sonora diferente. Sinto o chão tremer. São os sons os passos acelerados e tensos de embaixadores e negociadores aqui nos esterilizados corredores da ONU, incertos sobre nossa frágil existência. São os ecos das bombas que estão sendo largadas diariamente sobre famílias aqui ao lado, na Ucrânia. 

São os sons de cadeiras de madeira se contorcendo ao sustentar autoridades que já não conseguem se acomodar ao debater abertamente nas salas de reuniões aqui a opção que silenciaria tudo, a opção nuclear.

Será que sabemos de fato quem somos?

A palavra “guerra” retornou à Europa, que pensava que havia superado a destruição como arma política. A cidade de Maria, Mariupol, se transformou em mais uma mancha de nossa geração e entra para a obscena lista de locais que a humanidade teve o feito de apagar do mapa. 

De Cartago a Aleppo, passando por Stalingrado e Hiroshima, histórias e famílias transformadas em cinzas. 

Mas a guerra não aconteceu num vácuo. Antes dos sons das bombas criminosas e injustificáveis, tivemos por anos o desafinado diálogo entre surdos. 

Ao longo desses mais de 20 anos percorrendo alguns desses campos de batalha, entendi que há um elemento que é destruído antes mesmo do primeiro menino ser transformado em herói póstumo por sua bravura que ele nunca teve: a confiança. 

Em sua ausência, todos são suspeitos. Todos são inimigos. Tudo é justificado. 

E, em todos esses locais, sempre me fiz a mesma pergunta: se uma guerra jamais termina no campo de batalha, como ressuscitar a confiança para permitir que, em luxuosos hotéis de Genebra, Oslo ou Viena, criminosos cheguem a acordos?  

Confiança, que serve de alicerce da utopia da paz, tem sua origem na palavra em latim confidere. O sufixo “fidere” não é outro senão a tradução do conceito da fé. 

Lembro-me de ter parado numa espécie de armazém numa estrada entre a Sérvia e o Kosovo e ter vivido essa “fé” de uma maneira única. 

Quando eu e meus colegas jornalistas entramos no local, o vendedor tinha uma arma sobre o mostruário, como num aviso aos visitantes de que ali a regra era ele quem estabelecia. Não vi em nenhum lugar uma placa com o telefone do serviço de atendimento ao cliente. 

Ao ver que falávamos inglês entre nós, seu semblante foi se fechando. Colocou a mão sobre a arma e não tirou mais. Impossível saber o que ele fez durante aquela guerra que tinha acabado de terminar. Desgastado, surrado e ainda vestindo um velho casaco militar, ele acompanhava cada um de nossos movimentos com olhos atentos. Como se estivesse em uma trincheira protegido por seu balcão.

Num certo momento, ele dispara uma pergunta acusatória e plena de sonoridade em minha direção: “Amerrikan?”. 

Eu sabia o que queria dizer aquela única palavra, num país que até hoje vive uma desilusão diante dos bombardeios de Belgrado pela OTAN. No fundo, ele estava me perguntando: “inimigo?”

Respondi quase com um pedido de desculpas: “No, no. Brazilian”. 

E uma magia aconteceu. O sérvio abriu um enorme sorriso, largou a arma e colocou as mãos ao ar, bradando: “GIULIANA!”

Juliana, se fosse hoje, eu certamente teria pensado que teus incríveis textos já teriam sido traduzidos ao sérvio e chegado a ele, por isso a celebração ao teu nome. Mas, há 20 anos, eu não sabia do que ele falava. 

Vendo que eu estava perdido, ele ampliou seu argumento: “Giuliana, Matteo”, enquanto imitava alguém chorando. Naquele instante, eu acho que passou por sua cabeça que minha declaração de nacionalidade era uma fraude. Inconformado, ele abriu uma cortina que dava para os cômodos da casa e chamou a família inteira para falar comigo.

Sua filha era a única que arranhava inglês e me explicou que o pai se referia à novela Terra Nostra, que naquele mês estava passando na TV sérvia. 

Numa zona de guerra, com o ódio estava estampado em cada esquina e onde as feridas estavam ainda expostas nas paredes repletas de buracos de balas, nos tornamos melhores amigos em questão de minutos. Todos pareciam emocionados, inclusive eu por saber que a arma não seria usada. 

O único contratempo naquele encontro foi quando a mãe decidiu me perguntar o que ocorria no final da novela. Como explicar que eu não tinha a mínima ideia? Será que desconfiariam do meu passaporte?

Mas aquele encontro que poderia ter sido retratado num quadro surreal me colocou uma questão mais ampla do que aquele mero acaso: o que determina a confiança entre as pessoas? Quem tem o poder do diálogo quando as pontes, como de Mostar, foram destruídas?

Anos depois, fui à região de Darfur, no Sudão, teatro do primeiro genocídio do século 21. Tive de ficar hospedado em um local que era controlado pelo governo de Omar Al Bashir, o ditador e que anos depois seria condenado pelo Tribunal Penal Internacional. 

Com alguns sudaneses, sai em um carro para visitar as áreas afetadas pela guerra. A fragilidade daquela paz fictícia exigia que fossemos acompanhados por uma pequena milícia armada. Ao retornar para a base, mais de oito horas depois, um erro do motorista quase foi fatal para todos nós que estávamos naquele carro. 

Enquanto nos aproximávamos do portão, os soldados que guardavam a entrada da área se colocaram rapidamente em posição de ataque, mirando suas armas em nossa direção. E prontos para nos metralhar. 

Eu, sentado ao lado do condutor, fui jogado para baixo do banco por um dos sudaneses que estava no carro, temendo que eu fosse o primeiro a ser baleado.

Por longos segundos, ficamos imóveis, até que o motorista em absoluto pânico e tremendo se lembrou que teria de fazer certos sinais com os faróis do carro ao se aproximar da zona controlada pelo governo, num código para que as forças genocidas entendessem que não se tratava de inimigos. 

Saí daquele dia com uma pergunta: quanto tempo leva para que a confiança seja destruída e para que um sinal errado faça eclodir uma tragédia?

Nesta semana, enquanto estendíamos roupa no varal de casa, eu e meu filho Pol éramos obrigados a falar com força para competir com os sons dos passarinhos sem passaporte. Em um certo momento, ele me fez um apelo: “papai, quando conversarmos sobre a Ucrânia, você poderia usar outra palavra e evitar dizer guerra? Me da muito medo”.

Larguei as pinças e dei um abraço nele para lhe trazer algum tipo de segurança. Mas, em silêncio, eu dizia: eu também estou com medo. 

Depois de uma pandemia que nos extirpou o abraço, a guerra vem prolongar um túnel escuro da destruição. O fim da era da incerteza foi de forma perpétua adiado?  

Numa guerra, independentemente de quem vença, todos saem derrotados. 

A única certeza que temos é que, quando os tanques forem silenciados, a tarefa que será colocada diante de nossa geração é das mais desafiadoras: reconstruir a confiança, profundamente abalada e ampliada ainda por um constante discurso do ódio, pelas redes sociais e pela fratura profunda de sociedades. 

Ao contrário das lágrimas da Giuliana da novela, as nossas são reais. Responsabilizar os criminosos de guerra ou de uma pandemia é um imperativo moral. Isso certamente nos ajudará a secar as lágrimas.  

Mas para apagar as fendas que elas nos deixaram em nossos rostos, teremos de ir além. Não há Justiça que devolva os filhos levados pelos conflitos. Não há vingança que faça renascer os mortos. 

Juliana, a reconstrução de uma paz duradoura baseada num sentimento de fé mútua exigirá de nós a busca por resgatar o projeto de construção do conceito de Humanidade. 

Nos últimos dois anos, essa noção foi enterrada entre os escombros das bombas e do vírus, do nacionalismo e do negacionismo. Ela foi vítima da destruição promovida pela ganância e pela obscenidade do desprezo. 

Recuso as medalhas no caixão como compensações pelo assassinato de utopias intimas. Rejeito a bandeira solenemente entregue a uma mãe órfã do sonho de ver seu filho crescer. 

Não há tempo a perder nessa longa obra do resgate da paz que o destino encomendou para nossa geração. Tenho pressa. 

Vem comigo, Juliana?

Jamil 

 

Para ler a carta de Juliana Monteiro a Jamil Chade, clique aqui.



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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