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"Convidar ao pensamento, despertar afeto"

Foto JOANNA KOSINSKA



2022-05-24

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Roma, 24 de maio de 2022

Querido Jamil,

 

A ajuda que te peço hoje tem demanda de urgência. No próximo mês, vou com minha família ao Brasil e temo que a alegria dos encontros e o calor da nossa terra já não possam disfarçar o rancor que nos divide. Não sei como explicar para meus filhos que algumas das pessoas que eles mais amam e admiram - seus avós, tios, primos, assim como tantos amigos - são partidários do que mais nos revolta, ameaça e deprime. Como justificar que gente boa apoie um homem mau. O que falta entender para que eu possa explicar.

Uma vez escutei Saramago contar que estava sozinho em um restaurante de Lisboa quando pensou “e se nós fôssemos todos cegos?”. No minuto seguinte, ele mesmo respondeu, “mas nós estamos todos cegos”. Sabemos o que o mestre fez com a tese e hoje me encontro diante da mesma elucubração. Por isso, com a confiança que tenho em tuas lentes, escrevo para pedir: me ajuda a olhar?

É verdade que a história não nos autoriza o otimismo da inteligência, mas a realidade brasileira tem se mostrado tão desalentada que tem comprometido também aquele da vontade. Não faz tanto tempo, acreditei que os princípios humanistas fossem irresistíveis por serem agradáveis à razão. Que o respeito a alteridade fosse a mais sedutora, por democrática, das utopias. Que as violências, barbaridades e preconceitos não resistiriam à sofisticação da nossa inteligência. Mas parece que não.

Penso em Hannah Arendt que, depois de cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, provocou controvérsia ao considerar que o oficial nazista, responsável direto pela deportação e morte de centenas de milhares de judeus, não passava de um homem banal, “nem demoníaco, nem monstruoso”, um burocrata, nada extraordinário, o tipo que hoje se autointitula “gente de bem”, como tantos que nos assombram no Brasil. Um funcionário que, durante o julgamento, negou qualquer culpa, argumentando que era um mero cumpridor de ordens.

Mas outro personagem da Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler, membro do partido Nazi, funcionário do serviço de informação alemão, também tinha ordens para cumprir. No entanto, desobedeceu e, correndo todos os riscos, salvou da morte 1200 judeus. O que diferenciava os dois homens?

Segundo a filósofa, o que impeliu o primeiro foi a mediocridade do não pensar e não exatamente o desejo ou a premeditação da maldade. A banalidade do mal, termo cunhado por ela, apareceria como postura política e histórica, e não ontológica, que se instala por encontrar o espaço institucional criado no vácuo produzido pela ausência do pensamento.

Lembro que por volta dos 15 anos, todo o conhecimento parecia guardado nos volumes da enciclopédia Barsa que meus pais compraram, como investimento, para garantir que não fôssemos ignorantes. Mas acumular informação ainda não é pensar, os verbetes não davam conta de tudo e, por isso, eu procurava em uma Brasília pouco mais que interiorana respostas para minhas inquietações.

Foi assim que, em um fim de tarde, fui parar no anfiteatro 9, da UNB, debate com Jorge Mautner, Jards Macalé e Cassiano, sala lotada de estudantes, eu sentada no chão. Nesse dia, escutei um punhado de coisas pela primeira vez, dessas que tomam o corpo pela comichão que só o pensamento, quando vivo, provoca.  Não lembro a pergunta do jovem, nem de que boca saiu a resposta, mas escutei que "enquanto Michael Jackson puder mudar de cor e Madonna puder performar sexo no palco a tua liberdade e a minha também estarão garantidas". Para a garota que eu era, esse pensamento iluminou tudo o que veio depois. Entendi que liberdade é sempre a liberdade do outro ou tampouco será a minha. E o moralismo e certa ideia acabada de ordem, que hoje parecem tão prestigiados, tornaram-se uma bobagem quando não uma ameaça. “A mente não é um recipiente a ser preenchido, mas uma fogueira a ser acesa”, quem escreveu isso foi Plutarco, há dois mil anos. Pensar não é apenas um imperativo humanista, mas também uma tarefa política.

No mês passado, a porquinha da índia que foi nossa reserva de ternura durante a pandemia morreu, depois de três dias internada. E minha filha de sete anos disse, desolada, que já não sabia se deus existia. Afinal, ela tinha rezado tanto. E se deus é tão poderoso e gosta tanto dela, como aprendeu na escola católica onde estuda, por que permitiria a morte prematura de um bichinho que não fazia mal a ninguém? Fiquei admirada com sua coragem de questionar uma ideia tão estabelecida, principalmente aqui na Itália, quanto a ideia de deus. Enquanto tantos adultos admitem, sem crítica alguma, que um deus tão absoluto se ocupe e se escandalize com a prática sexual do vizinho.

Eu era bem pequena quando, depois de fazer alguma besteira, justifiquei com “mas foi você que mandou”. Lembro que meu pai respondeu que ordem burra não se cumpria, mesmo que fosse a dele. Guardei como uma lição de conduta e também como chancela para o pensamento vivo. A transgressão, muitas vezes, é o que protege e corrige nossa rota. Penso que estamos obedientes demais, meu amigo.

Arendt questionou: “será que a natureza da atividade de pensar, o hábito de examinar, refletir sobre qualquer acontecimento, poderia condicionar as pessoas a não fazer o mal? Estará entre os atributos da atividade do pensar, em sua natureza intrínseca, a possibilidade de evitar que se faça o mal? Ou será que podemos detectar uma das expressões do mal, qual seja, o mal banal, como fruto do não-exercício do pensar?”

O que você acha, Jamil? Essas perguntas parecem boas, mas serão suficientes para explicar a adesão de tanta gente ao bolsonarismo? Poderíamos adicionar a perversidade das redes e seus algoritmos que, se não impedem, têm o poder de nos dirigir o pensamento. Mas, antes delas, muita gente que se pretendia boa tomou o partido do mal. A propaganda de Hitler não passou pelo WhatsApp. Mussolini não fez campanha pelo Twitter. Peço tua ajuda porque algo me escapa, não termino de entender. Todas as teorias e análises produzidas não são capazes de nos orientar uma prática que sirva de vacina contra o mal.

Quando se esgotam os verbetes, recorro à arte. Volto a Saramago e à epidemia de cegueira que ele narrou em seu romance fabuloso. Uma cegueira particular porque branca. Contagiosa, como a covid-19. Passada de uma pessoa a outra, como as mensagens do WhatsApp. Gradativamente, os membros daquela comunidade param de enxergar, não como uma luz que se apaga, mas como uma luz que se acende, conforme explicou o primeiro cego ao médico. São assim os cooptados pelos fanatismos. Acreditam-se detentores da verdade e, em nome dela, são capazes de monstruosidades que lhes horrorizariam se pudessem enxergar.

No caso do bolsonarismo, a visão é eclipsada pelo que chamam, sem nenhum rigor, de comunismo, transmutado em ameaça às suas famílias e valores, depositário de suas frustrações e ressentimentos, perdoador de seus preconceitos e ódios. E seu líder e redentor seria o único capaz de protegê-los. Mesmo que este tenha como inspiração um torturador que levava crianças para assistir a martírio das próprias mães.

Não importa que nunca tenham presenciado orgias nas faculdades onde estudaram. Não importa que jamais tenha sido ensinado nas escolas qualquer conteúdo de incentivo ao sexo e que as denúncias mais comuns desse tipo de aliciamento venham justamente dos maiores moralistas e de tantos religiosos quando não da própria família. Não importa que o Brasil não tenha tido um só governo socialista. Não importa que as religiões (ditas) cristãs, em tempo algum, tenham sofrido perseguição no Brasil. Não importa o que denunciam a imprensa, os tribunais, os intelectuais, os artistas, os estudiosos; não importam sequer os fatos, a inflação, o desemprego, os mais de seiscentos mil mortos pela pandemia, o aparelhamento das instituições, o sucateamento dos serviços públicos e da cultura, a precarização acelerada do trabalho, o perverso aumento do custo de vida, a desvalorização da moeda, o preço impeditivo dos combustíveis, a perda de prestígio internacional, o alinhamento do Brasil com países violadores dos direitos humanos. Não importa a imposição de sigilo imposta pelo governo às informações de interesse público, a ligação com as milícias, os ataques e ameaças diários à jornalistas e à democracia. Não importam as declarações homofobias, eugenistas, misóginas, racistas, autoritárias, violentas. Não importam os slogans flagrantemente anticristãos, os crimes ambientais, o massacre dos povos indígenas. Não importa não sabermos até hoje quem mandou o vizinho do presidente matar Marielle Franco.

Em seu Ensaio sobre a cegueira, apenas uma mulher não perde a visão. É a única que pode ver o horror de que os outros são capazes. Testemunha assassinatos, estupros, roubos, todo tipo de maldade, vê a imundice e deterioração em volta, seus semelhantes convertidos em animais egoístas e cruéis. O que ela assiste é tão terrível que, durante a leitura difícil, diante da narrativa crua e escatológica do gênio português, desejei que ela também ficasse cega. Sofreria menos. Tantas vezes me sinto como ela testemunhando o comportamento de pessoas que me são (ou foram) caras, nosso país se arruinando enquanto a propaganda que corre pelas redes sociais serve como tapume inacreditavelmente eficiente para esses escombros.

Mas são desses escombros que o novo deve nascer e é nessa construção que devemos concentrar nossa energia. Esperançar, ao invés de esperar, outubro chegar.

No romance, Saramago, que também tinha compromisso com o porvir, nos consola com um desfecho que foge do padrão clássico das distopias. “A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. Tal como veio, o mal branco vai embora. A mulher que testemunha a barbárie é a memória sem a qual nenhuma reconstrução ou aprendizado é possível. E talvez seja essa nossa tentativa com essa correspondência. Em tempos de desespero, é preciso deixar registro, criar memória, convidar ao pensamento, despertar afeto, construir linguagem: é assim que as civilizações se recuperam.

Termino essa carta esperançada por tua resposta, com o pensamento sempre vivo de Galeano: “há um único lugar / onde ontem e hoje / se encontram / e se reconhecem / e se abraçam. / Esse lugar é amanhã.”

É lá que nos encontraremos para festar.

Um abraço apertado,

Juliana

 

Para ler a carta de Jamil Chade a Juliana Monteiro, clique aqui.



Juliana Monteiro

É jornalista e escritora, tem dois filhos e mora em Roma.




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