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"Não anularemos o ódio com mais ódio"



2022-05-25

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 25 de maio de 2022

 

Querida Juliana,

Tua convocação ao pensamento reabriu uma velha ferida que levo comigo há anos. Ela vem na forma de uma pergunta que, de maneira teimosa, reaparece em momentos inesperados. Afinal, o amanhã é futuro ou é presente?

No nascimento de meu primeiro filho, esse questionamento me golpeou com força quando, com Pol nos braços, eu entendi com todas as partes do meu corpo que existia naquele momento um risco iminente de que ele jamais abraçaria sua mãe. O destino, um sistema pleno de direitos garantidos a uma minúscula parcela de privilegiados e um helicóptero a salvaram. Nos salvaram. O amanhã era presente. 

Uns anos depois, o cenário era completamente diferente. Mas a pergunta uma vez mais me tomou desprevenido. Eu estava numa rua que dava acesso à praça Tahrir, ainda na parte da cidade que era controlada pela ala que lutava pelo o fim do regime de Hosni Mubarak. O Cairo, naqueles dias, tinha se transformado em palco de um confronto sangrento, com homens montados em camelos abrindo a multidão com chicotes nas mãos, caças que sobrevoavam nossas cabeças e o cheiro da morte. 

A resistência a um dos governos militares mais poderosos da região e amplamente financiado pelos EUA não mantinha sequer um arsenal rudimentar. A sociedade egípcia tinha passado décadas sob o rígido controle de um Exército que, de fato, garantia o monopólio do uso e da posse de armas. 

Mas, num beco, entendi que ali estavam em busca do significado da palavra “amanhã”. Um grupo de homens e garotos havia construído uma catapulta e, orgulhosamente, a usavam para defender aquela nova fronteira entre a liberdade e a ditadura contra tanques blindados e os soldados do ditador. Era uma guerra desigual. Um lado pensava que estava no século 21. O outro, com armas medievais e delírios de liberdade, lutava para que o século 21 chegasse.

Mas quando minha surpresa diante daquela cena foi substituída pela compreensão, me dei conta que a arma era feita com um poste de luz que havia sido tombado e uma cesta de frutas de supermercado numa de suas pontas. A engenhoca lançava pedaços de paralelepípedos que tinham sido arrancados das ruas com as unhas daquelas pessoas. Vitrúvio jamais teria desenhado aquele pedaço de utopia com tanta esperança. 

Ali, lutavam pela democracia. Naquele beco, o amanhã não era o futuro. Era presente. 

Eu, certo de que vinha de uma democracia consolidada e que essa era uma luta de nosso passado, observava e escrevia sobre aqueles atos com uma arrogância indesculpável. 

Como eu imaginaria que, dez anos depois, estaríamos buscando nossas armas para defender o que pensávamos que estava em nossas certidões de nascimento? Naqueles dias no Cairo, a ideia de que nossa democracia seria colocada em risco poderia parecer tão absurda como a de que um defensor da ditadura militar e de torturadores seria um dia eleito presidente. 

Agora, sei que a nossa praça Tahrir está em cada árvore que tomba em silêncio numa floresta, em cada casal que em silêncio solta a mão na rua para evitar a violência, em cada escritora que em silêncio troca de palavra em seu texto para manter a renda de sua família.

Juliana, você me escreveu para me repassar uma tarefa das mais urgentes. Recebi tua carta dias depois de ser alvo de ameaças de morte por parte justamente daqueles grupos que muitos de nossos parentes que nos amam ajudaram a colocar no poder.

Quando eu confrontei alguns deles com essa informação, o que eu fiz foi justamente tentar convidá-los a despertar o afeto, não constrange-los. Tentei trazer para nossas casas, nossa mesa de jantar, o que significa nossas decisões.

Enquanto você começa a colocar suas roupas, presentes, sonhos e medos nas malas de sua família para voltar ao Brasil, eu volto a me fazer a mesma pergunta. O amanhã é futuro ou presente?

Se algo nesses anos ficou claro é que nada é inevitável. Como você disse, princípios humanistas não são irreversíveis. O progresso social está sendo desfeito e a caminhada democrática asfixiada num porão escondido em alguma portaria no diário oficial.

Não sou eu quem digo isso. Um dos principais institutos europeus, o V-Dem na Suécia, nos conta que, entre 2020 e 2022, regredimos em 30 anos no avanço democrático no mundo. Hoje, apenas 6% da população mundial vive o privilégio de se beneficiar de forma integral do sonho da democracia. Uma minoria.   

A democracia não é um título que penduramos na parede uma vez conquistada. É uma construção diária e dolorida. Hoje, ela está ameaçada. E, junto com ela, o nosso futuro. 

No Cairo, aquele sonho também foi sepultado. Sempre me pergunto onde estarão hoje aqueles jovens orgulhosos de sua ousadia?

Mas prefiro responder a essa tua carta com um otimismo de quem acredita que incendiar as mentes é um imperativo. Se nada é inevitável, minha conclusão é de que o nosso próximo passo também está por ser definido. E o nosso destino sequer desenhado no mapa. Temos, portanto, a oportunidade de sermos cartógrafos. Todos os dias.

Essa aventura nos exige a humildade de reconhecer que nossa geração tem o dever moral de reconstruir algo novo. De desmontar o ódio, de se recusar a usar as mesmas táticas. Precisamos construir nossas próprias catapultas. 

Nossas armas para esperançar, e não esperar, não são as que dispõem aqueles que precisamos enfrentar. A luta é desigual. E, justamente por isso, devemos ser otimistas. 

Blindar nossa democracia contra a cegueira exige a expansão de direitos para milhões que, uma vez reconhecidos como cidadãos, lutarão de olhos abertos por ela como se lutassem por seus filhos. Pelo seu futuro. 

Como sequer vamos saber quando uma democracia deixa de existir se milhões de pessoas ainda não sabem o que ela é? Como sabemos se ela ainda sobrevive se para muitos ela nunca chegou? Recrutar, nesse caso, é dar dignidade. Não anularemos o ódio com mais ódio.

No fundo, a democracia é uma promessa. A de que o destino está, em parte, em nossas mãos. Que temos uma voz sobre o nosso futuro. 

O amanhã não é futuro se ele não for, antes, um presente fincado em uma base sólida de justiça e respeito.

Bora me ajudar a montar nossa catapulta?

 

Jamil 

 

Para ler a carta de Juliana Monteiro a Jamil Chade, clique aqui.



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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