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A ameaça é muito maior



2022-07-01

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 1 de julho de 2022

 

Prezada Juliana

Li nos jornais espanhóis uma notícia que desfarelou meu coração. A polícia descobriu na casa de um ex-carteiro mais de 20 mil envelopes que jamais foram entregues. As contas de luz, os eternos boletos e alertas judiciais estavam lá, para a sorte daqueles que não as receberam. Mas também estavam naqueles sacos de lixo milhares de cartas de amor, pedidos de perdão, convites para uma nova vida, declarações sinceras de amizade.  

Nenhuma delas jamais entregues. 

Fiquei pensando quantos namoros asfixiados estavam naquelas sacolas imundas de pó. Quantos apaixonados que, diante da falta de uma resposta, fizeram suas malas e deixaram a cidade. Diante do silêncio, mudaram de vida, de amores. 

O senhor que havia cometido o crime foi devidamente denunciado. Se, enquanto eu lia a história uma certa angústia me tomava o espírito, foi a acusação que me obrigou a refletir.  

No documento oficial dos procuradores, o delinquente era denunciado e detido por um crime bárbaro: “a infidelidade na guarda de documentos”. Infidelidade: quantos crimes foram cometidos em seu nome.  

Não é verdade que, depois de dedicar horas em um texto, buscar um papel, selo, envelope e, com o coração batendo forte, buscar uma caixa de correio, entregamos tudo à sorte. Há, entre o remetente e o correio, um pacto de confiança. É verdade que se trata de um pacto com regras, contratos, padrões, um sistema sofisticado de envios e até uma organização internacional com sede na palpitante cidade de Berna.  

Mas, acima de tudo, trata-se de um acordo de confiança mútua. 

Essa mesma relação é o que marca instituições como o dinheiro. As regras existem, com seus bancos centrais e um elaborado sistema financeiro. Mas aquele pedaço de papel apenas tem um valor por existir um pacto na sociedade de que o lastro é aceito por todos.  

O historiador Yuval Noah Harari  usa, de fato, o mesmo conceito para a nação. Em outras palavras, ele preguntava: o que faz alguém suíço, brasileiro ou italiano, se não um pacto? A nação é uma ficção de realidades imaginadas e que, ao longo de séculos, constrói uma história supostamente comum. A nação não é uma entidade física. É uma história. Quem morre numa guerra é um jovem de 18 anos. Não uma nação. 

Em nossas vidas, existe outro acordo: o da democracia. Sim, países contam com constituições, leis, tribunais e uma infraestrutura para garantir que suas regras sejam respeitadas e cumpridas.  

Mas, uma vez mais, nada disso se sustentaria se não houvesse um pacto de sociedade maior.  

Hoje, porém, ele está profundamente ameaçado. Numa aliança espúria entre os desiludidos pelas promessas de uma vida melhor, os frustrados pelo capitalismo, os privilegiados que se recusam a abrir mão de seu poder e charlatães de toda espécie, nutre-se a ideia de que existem caminhos alternativos para uma sociedade.  

Estariam dispostos a operar uma fraude massiva nas urnas? Estariam prontos para uma ruptura?  

Mas, querida Juliana, minha impressão é de que a ameaça é muito maior e a fraude no sistema já está ocorrendo em grandes proporções. Para que o pacto da democracia e das urnas funcione, a base é a de que todos nós votaremos com pleno controle de nossas consciências. Mas qual a legitimidade de um sistema eleitoral se nossas preferências foram hackeadas? Se nossas decisões foram sequestradas? 

Saqueadas sem que soubéssemos. Pior, com nossa ajuda. Ao longo de quase duas décadas, entregamos todos nossos dados a um sistema sobre qual não temos controle algum e sequer sabemos como funciona, onde está e quem são os donos.  

Descobrimos, nos últimos anos, acordos entre essas plataformas e serviços de inteligência. Descobrimos contratos entre essas empresas e a venda de nossas informações, transformando garotos em bilionários. 

Certa vez, em Londres, Julian Assange me recebeu na embaixada do Equador, onde ele fugia da polícia. Num papo longo, ele insistia que as redes sociais poderiam ser chamadas como “o maior roubo da história”. E com a nossa cumplicidade. 

Claro, o roubo de todos nossos dados, nossa privacidade e, talvez, de nossos destinos. 

Para as redes que nos dão a impressão de serem virtuais, contamos quantos filhos temos, o que compramos, quem admiramos, quem são nossos amantes e entregamos as mentiras para proteger um segredo. Postamos nossas alegrias e nossas tristezas. 

Hoje, as redes sabem mais de mim que minha mãe. No fundo, elas me conhecem melhor que eu mesmo. Elas sabem onde eu sugeri um encontro entre a minha casa e a da pessoa pela qual me apaixonei. Ela sabe o que pensei no dia 1 de janeiro de 2016, numa madrugada de insônia, no dia do nascimento do meu primeiro filho ou em qualquer outra data. Está armazenado no sistema quais palavras eu coloquei num buscador e, portanto, o que eu estava pensando. 

Nenhum regime totalitário, com sua ampla rede de espiões e tentativa de controle, jamais sonhou ter em suas mãos tal poder sobre sua população. 

Mas essa, Juliana, não é apenas uma história do confisco de nossos dados, transformado em fortunas inimagináveis. Há, no fundo, uma batalha por nossas consciências. Na verdade, uma guerra total. Se eu posso saber cada uma das preferências daquela pessoa, nada me impede de levá-la a consumir certos produtos. E oferecer exatamente o que ela achou que precisava.   

Nada me impede de apresentar àquele potencial consumidor um novo artista, com base nas preferências que eu sei daquele meu cliente.  

E nada me impede de, eventualmente, direcionar o debate político ou social para favorecer um certo movimento político. Eu posso ensinar o ódio, o nojo e o desprezo. Eu posso erguer um mito. 

O voto consciente, portanto, estaria ameaçado por um sistema capaz de criar uma realidade paralela e deslocada. 

No século 21, nossas consciências estão no centro do debate. Mas, aqui, retomo o questionamento de Yuval Noah Harari.  Sem o controle sobre nossas decisões, o sistema democrático entraria em colapso? Qual legitimidade do voto se minha escolha não é mais minha? 

Eles saberão de nosso futuro antes de nós mesmos? Mas se eu sei o teu futuro antes de você, eu talvez possa moldar esse teu destino, sempre deixando que você acredite que foram tuas as decisões. 

Na Primavera Árabe, um cartunista amigo meu, Patrick Chappatte, rabiscou algo que revelava muito daquele momento e do otimismo que tínhamos sobre as redes sociais. Ele desenhou um encontro fictício entre Hosni Mubarak e outros ditadores da região. Pela janela do local onde os líderes autoritários conversavam, podia-se ver uma multidão que pedia democracia. E um deles questionava aos demais: quantos inimigos vocês têm hoje no Facebook? 

Sim, era ainda um momento de esperança das redes sociais. Hoje, sem controle, são essas mesmas plataformas que podem cancelar a democracia. O pacto foi desfeito? Será que ele chegou a existir?  

Juliana, ao te mandar esta carta, espero que o correio cumpra sua parte do acordo. Se alguém vai definir meu destino, que seja arrombando a porta da minha casa, do meu coração. E que eu esteja com minhas faculdades mentais intactas.  

Há também um lado positivo disso tudo. Se um dia eu não receber mais respostas tuas, já sei que sempre poderei culpar algum carteiro infiel. Dormirei mais conformado.

Saudações sempre leais.  

Jamil  

 

Para ler a carta de Juliana Monteiro a Jamil Chade, clique aqui.



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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