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Um beijo

Imagem: Laysa Elias



2022-07-23

Curadoria de Micheliny Verunschk

 

Berenice procurou entre as almofadas do sofá, laranja bordado em flores cetim, amarelo e rosa, para que tanta almofada? Enrolou o tapete, remexeu os travesseiros, um a um, quatro travesseiros, para quê. Não achava o celular. Atrás da cama, sobre a pia, ao lado das chaves. Nada. Sinal: sinal claro que o devido mesmo a fazer agora era mesmo sentar e continuar a correção das provas, Sétimo B. Computador. Leu o e-mail pela terceira vez. Fosse carta, o papel já teria amassado. Onde ficaram os óculos? Pegou o reserva. Cruzou as pernas sobre a cadeira e trouxe os pés para perto. Fosse carta, levaria aos lábios para sentir o perfume até fechar o arrepio.

Isso era bom de morar sozinha. Podia-se estar no meio da sala, abrir um e-mail sacana, e olhar de lado virando um pouco o rosto e pedir assim para o vento, o nariz aberto: vem, e até morder um pouco os lábios e sentir o sangue prender e fechar os olhos até sentir a vontadinha de xixi. Arrepiou outra vez, as mãos no teclado, o que responder? Sentada, as pernas cruzadas, a pele inteira, a mesa da cozinha, cadeira de madeira e palha, sentiu a bunda, o peso esparramado, aberta na cadeira e era gostoso, nem linho nem seda, jérsey e tinha uma costurinha que se você apertasse a barriga e inclinasse um pouco os peitos para frente, dava para sentir. A coceirinha ali perto do cu. Um pouco antes. E nascia dos pés.

Ajeitou-se virilha, coxas e a musculatura em nó. Cobra espiral, início do mundo, as aulas de dança. Sente o peso, os pés, o lado, sente os pés. Respirar era montar o quebra cabeça. Ele era bonito, os olhos enormes bola de gude preta. Conheceram-se na livraria do bairro.

Toda a vitrine engraçada, quem fazia a disposição dos livros? Livros de labirinto, livros com jardins, livros para o sexo bom, livros comédia-romântica-só-que-melhor. Eu que invento, ele falou enquanto fazia contas na calculadora. Podia dizer que foi aí que se apaixonou. Só que não.

Leu novamente, em voz alta: um beijo, e até mais. Nossa, e tudo o que havia a mais que um beijo? Era de imaginar que, nossa, era muita coisa. Estendeu os braços e a cabeça pendeu para trás, deu para sentir os estalos, os ossos se abrindo.  

Mudou o tom, a velocidade, sempre obedecendo à vírgula. Visualizou. Leu em looping. A cada leitura a cabeça para lá e para cá. Procurava objetividade. Um beijo. Pausa. E até mais, lia devagar, a voz rouca, a boca empinada. E até mais.

Apertou uma coxa na outra.

 

***

 

Será?

Nunca esqueceu a professora de português.

 

***

 

Vestido, colar vermelho, sapato antigo. A professora. Peitões.

Explicava não por exemplo, mas por situação:

Quando a gente tá conversando e uma pessoa séria aparece e diz, fechando os olhos: mas se o mundo fosse outro.

 Quando alguém faz a piadinha: tem, mas acabou.  

E a pior das situações, dizia a professora e percorria o tablado inteiro em seis passos, ponta a ponta, a gente contava, a gente apostou, o tablado era maior que a casa. Olhava para a gente como quem desafia o touro, o braço erguido, a capa na mão e se a gente parasse e olhasse bem, dava para ver o ar entrando pelas narinas, o touro éramos nós e nós sabíamos. Restava arranhar nossas patas no chão, baixar os olhos e ouvir. A pior das situações, dizia a professora em pausa. E a gente concordava. Mesmo antes dela começar. A gente prendia a respiração. Ela parava no sétimo passo, revolteava, e ficava olhando para a gente sem dizer qual era, a pior situação. Os cabelos presos em coque grande e alto, muito pretos, grudados ao crânio. Alguém tentava adivinhar, comentar, e a gente falava shhhhh e a professora, a voz suave, a pior das situações, e se inclinava em nossa direção, as narinas abertas a voz inteira: quando a pessoa vem

e diz

eu te amo,

mas

 

Íamos para casa, as pernas trêmulas.

Olhou novamente a tela do computador.

Aquele mais era outro.

Aquele mais era soma.

Adição.

Futuro babado em óleos de cera e vela.

Um beijo,

e até mais.

 

***

.

Leu de novo o e-mail inteiro. Aqui está o artigo que te falei. Teoria do conto. Que você não conhecia. Foi assim: me manda? Claro. Puxa, eu vou adorar ler. Os olhos inteiros. Te mando. Me fala o teu e-mail. 

Mandou no mesmo dia. Aqui está o artigo que te falei. Um beijo, e até mais.

 

***

 

Sorriu infinita.  

O professor do cursinho. Marcos. Tão lindo o Marcos. Quando o Marcos casou, ela chorou muito uma noite inteira. Eles pegavam o mesmo ônibus que subia a Angélica e ficavam conversando, quando dava sorte ela sentava ao lado dele e ele elogiava o que ela tinha dito sobre o surrealismo.

E na quinta série: o professor casou também.

Casou e foi pro Chile, lua de mel. Ele contou toda a história das pessoas que caíram do avião e comeram umas às outras. Elas caíram na Cordilheira e não havia comunicação, comida ou caminho e toda a noite faziam assembleias para decidir quem ia morrer primeiro e como. Ele mostrou para a classe por onde o avião ia passar porque a gente tinha feito a maquete da Cordilheira dos Andes. Papel machê. Ficamos medindo as escalas. Precisou de bastante papel. E ele olhou, apontou para as montanhas, e falou: nosso avião vai passar por cima disso aqui.

Foi uma assombração. Até mais. O que há depois da assombração?  

Ela era representante da classe, quinta série, e organizou uma vaquinha e todo mundo colaborou e compraram um presente de casamento, um multiprocessador walita três funções. Ele agradeceu e falou: esse foi o único presente que eu ganhei que foi dado para mim. Os outros foram todos mandados para a minha mulher, ou para nós dois juntos. Ele ficou emocionado, deu pra ver.  

Ela a Penélope e a Mariana foram ao casamento. Foi numa igreja e elas choraram muito.

 

***

 

O professor do cursinho leu O memorial do convento. Caía na fuvest. E o professor leu a última página. E no final a última palavra do livro é

sim.

E o professor dava uma pausa. Olhava para a classe. Olhava para ela. E perguntava:

e tem mais coisa bonita do que terminar com sim?

E ela respondia, na cabeça, não, não tem palavra mais bonita no mundo do que a palavra sim.  E os dois sorriram.

Transaram.

Um beijo e até mais.

Sim.

 

***

 

Começou a fazer lista, a roupa, o banho, calcinha preta de renda, esfoliação, e o café da manhã, a blusa grande solta para usar depois, chinelos, os dois, almofadas aromáticas, as coxas, ele tem clavículas, dá para pousar a mão dentro, a bunda, as costas, lençóis, trocar os lençóis, ovos mexidos, café e precisava de um jeans, balde e creme hidratante.  Era uma coisa que ela tinha. Gostava de listas.

 

* * *

 

- mordida

- chupão

- morder a orelha.

Não parava quieto, o arrepio. Safado, o moço. Nossa. Achou ousado. Terminar assim: um beijo, e até mais.

- beijo na boca

- nariz, olhos e as pontas dos dedos

- beijo de língua

- massagem

- sussurro

- pedido

 pescoço a mão a bunda e nas coxas e até mais, a boca, onde mais, virilha, joelho, pé, o cu o pau, até mais, onde mais, cotovelo boceta, até mais e quem sabe quantos orgasmos.

 

***

 

Encantou para o resto do dia inteiro.  

Arrumou a casa, olhou no espelho, escolheu roupa, apontou o lápis, corrigiu redação. De vez em quando apertava assim uma coxa na outra e respirava fundo de sentir por dentro.

Corou no espelho, amassou o cabelo enquanto secava com secador e creme, virou o pescoço, fez bico, fotografou. As mãos em concha, rodopiou. Escreveu. Cantou.  

À noite, ligou para Carmela: e você não sabe, olha como ele terminou o e-mail: um beijo, e até mais.

Esperou resposta. Repetiu.

Assim: um beijo, e até mais.

Ela não aguentava e ria a cada leitura. Sempre e de novo. Olha que safado, falou, o riso preso na boca inteira.    

A amiga não respondeu.

Cam?  

Berenice

Ai credo, não me chama de Berenice, fica estranho,

Escuta, Berê

Parece bronca

                    Berê olha só, eu-acho-que-até-mais-pode-ser-outra-coisa

como assim?

Até mais, tipo,

Que coisa?

Assim a gente se vê

Como assim?

Quem sabe a gente se vê por aí  

Oh não, Carmela

Berê

mas aí teria que ser acompanhado de um tudo de bom. Combinaram um café. Ele de moto. Vem ver o apartamento. Faz tempo, tinha dezoito anos. Ele tinha acabado de comprar. Contou que o moço da imobiliária falou que seja o primeiro de muitos. Sorriu orgulhoso, ela pensava se iam transar ou não. Me trouxe até aqui. Tá mostrando o quarto.

Não rolou.

Nem beijo na boca.

Na porta, ele falou:

até mais,

tudo de bom.

Nunca mais se viram.

Ah, Carmella, jura? Não é possível.

É Bê, olha, um beijo e até mais quer dizer a gente se vê por aí. Um dia desses.

 

***

 

Desligou o telefone e olhou a tela preta escura jaboticaba presa na mão. Tinha achado o celular. Agora que reparou.  Zero mensagens.

Ligou para o amigo homem hétero. Ex.

Virou monge.

Budista.

Se você escrevesse um beijo e até mais para uma mulher no final de um e-mail o que você ia estar querendo dizer? Assim, me responde com honestidade.

Ele ria de engasgar.

Era noite. As redações na mesa, sem nota, sem correção.

Na frente do espelho, deu um suspiro triste, Cabíria. Lavou o rosto, hidratante, fio dental. Olhou os olhos no espelho. Quis retomar a lista.

Ficou sem jeito.

Foi deitar, camisola. Algodão velho e bom. Feito galinha.

Na quinta série tinha star fix e você colava estrelas no teto. Estrelas amarelas, invisíveis à luz do dia, mas quando era de noite a mãe apagava a luz e a gente via o céu.

Você comprava estrelas e fazia a constelação.

No aniversário ela ganhou um pacote, era importado, mas de cabeça para baixo fica difícil e ficar mexendo a escada e colou as estrelas muito próximas uma da outra e não ficou legal.

Legal mesmo era o teto da Paula. Preenchia o mundo inteiro. Ela sabia o espaço certo e Berenice esperava em agonia a mãe da Paula apagar a luz para poder contar as estrelas e procurar o cometa. Adesivos fosforescentes. Por que não vendem mais star fix?

Puxa.

Escreveu uma resposta sem jeito. Muito obrigada pelo envio do artigo.

Até mais.

Não escreveu um beijo.

Sem dormir, contou, sem querer, as estrelas do teto da Paula.

 



Luana Chnaiderman

Nascida em São Paulo, é formada em Letras pela USP onde também fez Mestrado. É professora de Português e dá cursos de escrita criativa na Escrevedeira, São Paulo. Escritora, publicou, entre outros, os seguintes livros: Minhocas, (Cosac e Naif, 2014); Fuga (FTD, 2017); Os animais domésticos e outras receitas. (Perspectiva, 2018, finalista do prêmio Jabuti, 2019).




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