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Baixo relevo

Desenho: João Sobral



2022-07-28

Trabalho final da segunda edição do curso "Na primeira pessoa", ministrado pela escritora Susana Moreira Marques na Casa Mombak. A jornalista e escritota lança novo curso no segundo semestre.

 

É muito bonita esta fronha. Parece bordado da Madeira, mas não é. Ainda assim é coisa antiga, de enxoval, herança de uma tia longínqua cujo nome não conheço, e cujo rosto não existe sequer num retrato de família, dos que se encontram por vezes soltos numa gaveta. Gosto de pensar que preferiu bordar a encontrar marido, e assim este conjunto ficou a apanhar mofo até ser descoberto num baú de cedro na casa da avó, aberto depois da sua morte quando se fizeram as partilhas. Os lençóis e fronhas em casa da avó eram sempre ou de flanela ou de algodão, lisos ou às riscas, escondidos debaixo de pesados cobertores de lã e colchas de renda, que foram dando lugar a edredons floridos e cobertores eléctricos comprados na feira; as peças finas ficaram guardadas para o enxoval de uma filha ou neta, e passaram de enxoval em enxoval sem nunca serem usadas, até que agora, órfãs de autora e história, vieram parar às minha mãos. Sem intenção de casar, uso estes lençóis quando me apetece.

Parte do encanto dos bordados é o branco sobre branco, o ar imaculado que têm, de quem nunca foi estendido sobre uma cama e viveu toda a vida dobrado, ocasionalmente transferido de um baú para o seguinte. Áreas definidas por bastidores, que se preencheram de folhas e flores desenhadas com linha segundo regras precisas, contam a história do aperfeiçoamento da técnica, da mão que se tornou mais rápida, mais exacta, mais perfeita. O único sangue aqui derramado teria sido o de um dedo furado pela agulha, logo neutralizado pelo cuspo, segredo de bordadeira que devolve a brancura ao pano e à linha. Os lençóis são macios e virgens como eram as mãos que os trabalharam. O tempo que as esculpiu de calos e rugas, manteve-os a eles bem vincados, incorruptos, anos a fio na escuridão de arrumos. Dão-se agora à luz do sol a partir da minha cama, ou do estendal. As fronhas devem ter levado meses a acabar, com algodão fininho, quase da espessura de um cabelo, a fazer o ponto de cetim, o ponto pé-de-flor, os nós franceses. Têm tanto relevo que se tem que virar o travesseiro para o lado de baixo ao dormir, para não marcar a cara; e é este o lado que serve de decoração quando a cama está feita.

 

De repente, dois braços emergiram debaixo do travesseiro e duas mãos agarraram os meus pulsos - ele estava quase sem ar. Levantei a almofada devagar e disse

“Estás bem?”

e ele acenou que sim, os lábios a ganhar côr. Pousou as mãos nas minhas ancas, e eu, que estava sentada no esterno dele, olhei para trás e reparei na modesta erecção. Virei-me para ele, confusa.

“Estavas a asfixiar-me, o que esperavas?”

Pois. Já tínhamos experimentado mãos à volta do pescoço, mas isto da almofada tinha sido um impulso meu, sem o avisar.

Bebíamos chá de camomila quando ele me abraçou pela primeira vez, timidamente; eu tinha-me queixado do frio, e a solução que ele encontrou foi tornar-se edredom, depois cobertor pesado. A forma delicada como segurava primeiro na chávena e em seguida em mim, em nada traía a revelação feita dias depois, quando colocou as minhas mãos à volta do pescoço dele e se rendeu com um “aperta”. Passada a hesitação inicial, obedeci à instrução por curiosidade, observando-o atentamente para aprender este processo, e a quem pertencia o controlo da situação. Se era meu, quais os factores a ter em conta para apertar mais ou parar: a pulsação da carótida sob o meu polegar, a boca entreaberta a tentar aspirar o ar permitido, os olhos que por vezes fechava para me dificultar a tarefa. Procurava então perceber a motivação e o efeito, tentar entrar naquela cabeça e saber como é que se consegue fazer uma associação tão natural entre prazer e sofrimento.

Agora, quando o sugere, aceito sem relutância. É preciso menos força do que eu julgava para restringir a respiração: basta um bocadinho de pressão de cada lado da laringe, por baixo da mandíbula, e manter a mão firme e constante acima da maçã de Adão. O objectivo não é causar dor, só privar o cérebro de oxigénio, aumentar a pressão arterial, pôr o organismo num estado de alerta que depois o inunda de endorfinas. Para ele, a euforia da hipóxia exponencia o orgasmo; para mim, os orgasmos dele são todos idênticos: o mesmo esgar, o mesmo suspiro e o corpo tenso e depois frouxo no final, o suor a colá-lo ao meu, a respiração sincopada a regressar ao normal. Pouca diferença faz se as minhas mãos lhe apertam a garganta ou se lhe acariciam os ombros.

Uma vez pediu-me que eu lhe cuspisse na cara - assim, durante o sexo - e que lhe desse um murro. Não fui capaz.

O cuspo é inofensivo, e um murro meu também não causaria grande mossa. O risco é bem maior quando se interrompe o fôlego e a circulação. Mas um murro, uma cuspidela, são golpes finitos. Partem o tempo num antes e um depois. A asfixia estende-se no tempo, é gradual. A sua duração é uma variável de entre muitas; eu podia apertar-lhe o pescoço cuidadosamente durante horas, semanas, meses e nunca chegar ao fim. Se lhe cuspisse não haveria como voltar atrás, recolher de novo a saliva. Mas as minhas mãos não mudam, voltam a ser como eram antes de lhe envolverem o pescoço.

À medida que o tempo passa, estes pedidos instalam-se como rotina nas tardes de sol em que, juntos, encorrilhamos o enxoval. E a distinção entre eles vai-se tornando mais ténue, como a atracção que julgava sentir por ele.

É um homem bonito, podia ser manequim profissional se fosse um bocado mais novo, um bocado mais alto. Achava-lhe mais piada antes de dormirmos juntos pela primeira vez. Tem um corpo que é melhor vestido: nu parece feito de cortiça, cede à pressão, como um alvo que tem de absorver o impacto de dardos. Os dardos são murros, são cuspo, são mãos à volta do pescoço. Há homens assim, que perdem o encanto ao tirar a roupa, ao darem-se à intimidade. A vulnerabilidade por vezes só serve para mostrar aquilo que está em falta.

 

A fronha nunca conheceu outra cama como conhece a minha, nem outros corpos como conhece o meu. Desdobrada de vez em quando por gerações de mãos reverentes, para apreciar detalhes ou copiar o modelo, foi até agora um objecto sem outra função que não simbólica. De um futuro aguardado. Os lençóis eram folhas onde se assinaria a sangue um contrato de trabalho e de propriedade. Se tivesse havido marido, se a consumação nupcial tivesse tido lugar, receberiam prova de virtude. Hoje, ao esticá-los sobre a cama, ao fazer minuciosamente os cantos, ao passar a minha mão sobre o relevo bordado para alisar a dobra, dou-lhes propósito mas dispo-os de semiótica. Agora são só lençóis.

 

Voltei a tapar-lhe a cara com a almofada, com menos pressão. Sei que ainda respirava porque as mãos dele agarraram o meu rabo, forçaram-me a erguer-me sobre os joelhos - num duelo de poder permanente. O prazer é o espólio desta luta, resgatado aos corpos através de golpes que podem ser suaves ou ásperos e ter resultados comparáveis. Passar-lhe a mão pelas costas, como uma garra, tem eco na forma como ele me penetra com o indicador e o médio, e com a outra mão me aperta uma mama e se senta, forçando-me a aterrar no seu colo, a boca a morder-me o trapézio. As mãos longas, bonitas, são aquilo que tem de mais sensual; por isso, prefiro que use os dedos. Quando o rosto dele desaparece debaixo do travesseiro fico livre das amarras da comunicação: dos olhares, dos sons, das palavras que não significam nada e estão presentes só para encher o espaço vazio que cada vez mais se expande.

Há um domingo em que me fala de uma enfermeira com quem dormiu em tempos, que usava um bisturi para o cortar. Que foi então que percebeu que se estava a aproximar de um extremo que o assustava, e resolveu pôr freio aos instintos mais reptilianos. É só a partir desse dia que reparo que as estrias que eu julgava que lhe salpicavam o corpo são cicatrizes. Num momento de maior entusiasmo tenho de o puxar pelos cabelos para que pare de me morder a coxa, que fica pisada durante quase um mês, em que não sinto vontade de o voltar a ver.

 

Os lençóis brancos e de enxoval, poupados a noites de núpcias, mancharam-se de sangue uma manhã em que um período me surpreendeu, dias antes do que estava previsto. O acidental baptismo de sangue assinala mais um ciclo por concretizar. “Faça-se em mim segundo a minha palavra”, digo em voz alta para uma casa vazia, para a linhagem que me escorreu pela perna e impregnou o lençol de vermelho. Mais depressa cuspiria nos lençóis do que na cara dele. Uso água fria para me livrar da mancha maior, e depois perborato, água oxigenada, bicarbonato, tudo o que tenho em casa para desmaiar o contorno. Quando os estendo ao sol para corar, não se percebe já a nódoa. Depois de secos e passados a ferro, quando chega na rotação a vez de voltarem à minha cama, noto um fio solto numa das fronhas. Ao puxá-lo, há um acanto que se descose, num zigue-zague que revela os furos do seu contorno e me sobressalta. Depois, observando a linha a libertar-se  do pano, continuo a puxá-la até ao fim, ao nó de remate; ao desfazer o trabalho de mulheres que vieram antes de mim, pergunto-me se será essa a minha marca no contínuo matriarcal. Se as minhas mãos são instrumentos de violência quando lavam, estendem, passam, vincam, dobram tecidos tão delicados. Já não sei se estes lençóis foram feitos para ser usados ou só para testemunhar a passagem do tempo, se realmente me pertencem ou se sou só mais um par de mãos que os transforma. Se o sangue de quem os bordou se misturou com o meu, ou se é o mesmo sangue a escrever a mesma história.

Pergunto-me se as mãos que fizeram estes bordados alguma vez se encontraram à volta de um pescoço ou fechadas num punho, apontado à cara de um amante. Se o fizeram por amor. Se calhar, se gostasse mais dele, dava-lhe um soco, cuspia-lhe na cara. Se calhar, se gostasse mais dele, não levantava a almofada, deixava o bordado imprimir na pele dele o que mãos de outrora aplicaram com tanto empenho. O lençol do enxoval, feito por fim mortalha.



Isabel Branco

Arquitecta portuense, vive em Londres desde 2008.




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