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"Não perderíamos nada em parar mais vezes para pensar e valorizar que incrível é comunicarmos"

Joana Bértholo. Divulgação



2022-07-28

 

Em entrevista concedida por e-mail, a premiada escritora Joana Bértholo abordou, além do seu último romance Ecologia, seu processo de escrita, sua trajetória literária e, claro, como foi a sua primeira passagem pelo Brasil. 

 

Joana Bértholo esteve este mês no Brasil para participar da 26 Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que homenageou à literatura em língua portuguesa como forma de celebrar os 200 anos da Independência do Brasil. A comitiva portuguesa contou com mais de 30 autores.

Na infância, Bértholo pensava que seria pintora, fotógrafa ou realizadora. Inicialmente trilhou o caminho das Artes Visuais, formou-se em Design de Comunicação, no entanto, queria escrever, e teve a sorte de ter um professor que a incentivou na empreitada. E continuou.

Além de romances, publicou vários gêneros literários como ensaios, peças de teatro, contos, histórias infantis e não ficção. É considerada uma das escritoras mais inventivas e talentosas da sua geração. A escritora e dramaturga portuguesa é também doutora em Estudos Culturais na Alemanha. Por mais de dez anos viajou pelo mundo e viveu longos períodos em Gent, Berlim e Buenos Aires. Atualmente vive em Portugal.

Seu terceiro romance, Ecologia, publicado em 2018 em Portugal pela Caminho, acaba de chegar ao Brasil pela Editora Dublinense. Uma narrativa fragmentária e original, que mostra como numa sociedade dominada pela lógica capitalista das megacorporações, a linguagem pode se tornar objeto de consumo. No geral, a sociedade que retrato em «Ecologia» aplaude e celebra a nova forma de consumo, de gratificação e de status, afirma a escritora.

Ao entrarmos em contato com a ambição desenfreada de Darla Walsh, uma jovem diretora-executiva de uma multinacional, os dilemas de Ana, a Mulher-Eco, e os questionamentos da jovem Candela, nos defrontamos com questões pertinentes hoje como as questões éticas e morais envolvendo a visão pragmática e utilitária do mundo, a mercantilização, de certa forma, da vida humana.

 

Penélope Salles – No romance Ecologia, através de um olhar crítico e irônico, você aborda a problemática relação entre os seres vivos e o meio ambiente. Você poderia comentar a escolha do título do livro?

Joana Bértholo –  Não é um título descritivo da acção, de facto, nem da história ou do conteúdo. Mas é uma força motora, no fundo a motivação inicial para sentar e pensar o mundo actual, a relação do homem com o seu entorno, neste caso através da linguagem, da tecnologia e dos mecanismos do mercado — três grandes dimensões presentes no livro. Existem muitos factores culturais e económicos a determinar o destino da nossa relação com o planeta e com os outros seres que nele habitam. Todas as discussões sobre a crise climática que tive nos últimos anos desembocam na questão do lucro, da economia, do progresso — não me pareceu, portanto, descabido que um livro que é uma reflexão sobre o mercado, pudesse ter este título.

 

Penélope Salles – Na epígrafe, há a relação entre a ecologia e a linguagem. Você diria que ela é uma chave de leitura possível para compreender o romance?

Joana Bértholo Sim, essa epígrafe foi a forma mais curta que encontrei para resumir o coração do livro, e acho-a muito importante. Só não sei se é o tipo de romance que busque ser compreendido.

 


Penélope Salles – Você poderia nos dizer qual foi a gênese da criação desse livro?

Joana Bértholo Tudo começou quando a problemática da privatização das sementes agrícolas esteve presente na imprensa. Vários movimentos de activismo climático se organizaram para que não fosse possível passar a pagar por algo que a natureza nos fornece gratuitamente; e também pelo perigo que seria ter grandes multinacionais a controlar a cadeia de produção de comida desde esse começo. Está visto que o que estava a acontecer às sementes é o que acontece à linguagem no livro, é o mesmo mecanismo. A mesma forma de pensar. Foi isso que me fascinou por uns tempos, e me levou a estudar as diferentes formas como o mercado gera novos mercados. Alguns são altamente positivos, é o que chamamos de inovação. Mas como não estamos sempre a criar novos produtos, e as necessidades humanas não são infinitas, a estratégia de pegar numa coisa que é grátis e tentar torná-la um produto é essencial para uma ideia de mercado que não pode parar de crescer.

 


Penélope Salles – Ecologia não segue uma ordem tradicional de narrativa. É composto de fragmentos de textos como cartas, poemas, listas, códigos etc. Como foi o processo de construção narrativo dessa obra?

Joana Bértholo Foi moroso e nem sempre fácil de deslindar. Fui escrevendo tudo ao mesmo tempo, avançando em todas as direcções, e os últimos anos foram quase só passados a testar possíveis alinhamentos. Apesar de desenhar mapas e construir tabelas, para me convencer que estou em controlo da situação, o facto é que não estou, e avançar é sempre muito intuitivo. Neste tipo de processos, o tempo é um fator essencial. Levei muitos anos em torno deste livro, não é um edifício que fosse capaz de erguer num ano ou dois.

 

Ninguém nesta sociedade tem uma voz a não ser que pague bem por ela, ou que ela gere muito dinheiro a terceiros. (Ecologia - Joana Bértholo)

 


Penélope Salles – Quando lemos seu romance é inevitável pensar numa distopia. No entanto, em uma entrevista, você disse que nunca viu a sua obra dessa forma, nunca imaginou assim porque estava a pensar na realidade. Em que medida a realidade tem superado a ficção e se mostrado mais absurda e caótica? Em que medida estamos vivendo essa realidade agora?

Joana Bértholo Eu sei que pode parecer estranho que o género distópico não me tenha ocorrido, mas o facto é que eu estava tão embrenhada a escrever sobre o que eu já via acontecer em meu redor, dinâmicas já em curso, que não tive a sensação dominante de estar a escrever sobre o futuro. Claro que isso muda na recta final do livro, que remete para gadgets e cenários de ficção científica. O pormenor que talvez ajude a explicar é que para mim, na altura, as distopias clássicas (que eu tanto gostei de ler) eram narrativas de resistência a um poder totalitário, e eu achei que o meu texto não tinha isso. Há um pequeno nicho de pessoas que, na recta final, se isolam do resto da sociedade, mas é um número residual. No geral, a sociedade que retrato em Ecologia aplaude e celebra a nova forma de consumo, de gratificação e de status. Isso, na minha cabeça, distanciava este livro das distopias que eu conheço — mas admito que estava a raciocinar em cima de uma definição muito curta de distopia

 


Penélope Salles – Numa sociedade em que o uso da linguagem é monitorado e as palavras são pagas, podemos dizer que o silêncio seria uma última forma de resistência?

Joana BértholoÉ isso mesmo que digo, na recta final. A questão mais interessante é que não há silêncio. Se fizéssemos silêncio da nossa constante verborreia humana, talvez ficasse mais claro que, em nosso redor, há sistemas de comunicação constantes. A experiência do mundo é simbiótica, interdependente, comunicante. As coisas falam entre si. O não-humano fala entre si. É por isso que o silêncio joga um papel fulcral na recta final do livro, porque não só é um último reduto de um grupo de refractários mas também, e a partir do momento em que se calam, começam a poder “falar” os animais, os outros seres, outras entidades.

 

Penélope Salles – Por avareza ou insubordinação, por curiosidade ou movimento coletivo, nasce a figura do Filologista de Café, a Lexicógrafa Doméstica, o Dicionarista do Metro e um batalhão de Fiscais da Linguagem. De repente toda a gente tem uma teoria singular sobre as palavras, a sua origem, o seu valor. Nisso, o Plano está a funcionar em pleno. Será que apenas ao pagar pelas palavras, poderemos atribuir-lhes o devido valor?

Joana Bértholo O livro propõe isso, sim; mas não sei se concordo em absoluto com o meu próprio texto. Ou seja, damos outro valor às coisas que perdemos, ou deixamos de ter de forma fácil, ou grátis. Se pagássemos pelas palavras certamente ponderaríamos melhor a forma como as usamos, isso seria inevitável, mas não sei se lhes daríamos mais valor.

Não é preciso uma experiência tão limite para que possamos pausar um instante e apercebermo-nos do fantástico que é eu estar neste momento a alinhar letras numa frase, numa folha, que alguém irá ler daqui a uns tempos, quem sabe alguns anos, e ter acesso ao meu pensamento, à minha intenção, emoção ou sonho; tudo isto através deste dispositivo tão incrível que é a linguagem. Parece-me que não perderíamos nada em parar mais vezes para pensar e valorizar que incrível é comunicarmos. Mesmo que sejam inevitáveis os equívocos.

 

Penélope Salles – Uma das características mais interessantes e fascinantes do seu livro é o trabalho com a linguagem. Como foi esse processo de (des)construção e investigação?

Joana Bértholo Foi justamente a partir do espanto e do fascínio de que falo na resposta anterior. Foi lendo, escutando, estudando. O tempo desempenhou um papel importante neste processo de escrita, visto que estive vários anos a trabalhar sobre o texto.

 

Penélope Salles – Em certa passagem do romance, você cita Huxley em Admirável Mundo Novo: Um estado totalitário realmente eficiente seria aquele em que o todo-poderoso executivo de chefes políticos e seu exército de gerentes controlam uma população de escravos que não precisa ser coagida, porque ama a sua servidão. Então, nesse sentido, seria justificado silenciar a humanidade que ama a sua servidão?

Joana Bértholo Nunca é justificado o silenciamento absoluto característico dos estados totalitários, aquele que anula qualquer expressão divergente, o diálogo, a variedade de perspectivas, e como tudo isso enfraquece a vida pública. A actualidade da citação de Huxley, para mim, passa pela força que tem o capitalismo de nos fazer acreditar que este sistema é a única forma do mundo ser, que não há alternativas. É um paradigma tão eficaz — e perverso — que provoca um colapso da imaginação. Enquanto sociedades, servimos o paradigma cegamente, como se acreditássemos que não há onde ir, que qualquer mudança iria ser para pior. E vamos acreditar nisso até as condições serem tão críticas que não nos restará alternativa se não mudar.

 

Penélope Salles –  Você acredita que o uso da linguagem neutra seria uma forma de compensar/atenuar as diferenças entre os gêneros?

Joana Bértholo - Eu falo disso na parte final do livro. Acho válidas essas experiências, sobretudo enquanto houver grupos de pessoas que se identificam e preferem um determinado emprego da linguagem, elas devem poder usá-lo, mesmo que seja entre si. Isso é válido, eu acho que a plasticidade dos sistemas linguisticos nos permite isso.

Mas acho que digo tudo o que penso neste parágrafo do livro: No entanto, a problematizar a ideia de que a neutralidade aumentaria a liberdade estavam os dados: por um lado, muitas das línguas sem género gramatical ou de género neutro eram justamente as línguas faladas em lugares onde a opressão sobre a mulher estava mais intrincadamente tecida na cultura: Irão, Indonésia, Bangladeche, várias regiões da Índia, Sudão; do outro lado, no topo da lista de países com maior igualdade entre géneros estava a Finlândia, que só possui pronomes neutros («hän» é tanto «ele» quan- to é «ela») e cuja gramática não comporta a diferenciação. A nível estatístico, era caso para dizer «uma no cravo outra na ferradura», e acrescentar: o cravo é masculino e a ferradura é feminino. E não sairmos disto.

 

Penélope Salles – Um livro é o leitor que o completa - como o traz, como o leva; como o lê, como o esquece - e o leitor deste tempo mudou muito. Mudou, sobretudo, a linguagem. Na sua opinião, o ciclo de vida de uma obra se completa na leitura do leitor?

Joana Bértholo Sim, sem dúvida. Mas não sei se a imagem é a de um ciclo de etapas, tipo cadeia de produção, em que na etapa da leitura a obra fica mais completa. Eu acho que o leitor muda mesmo a natureza da obra e, nesse sentido, cria uma obra diferente. Pelo menos eu gosto de pensar que os textos deixam de ser meus.

 

Penélope Salles – Você poderia nos contar um pouco da sua trajetória artística e como foi a transição do Design de Comunicação para a sua carreira como escritora?

Joana Bértholo O curso de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa era um espaço muito livre e aberto, onde o aluno era instigado a pensar de forma crítica sobre os objetos gráficos, e a desenhar o seu próprio percurso. Eu queria escrever, e tive a sorte de ter um professor que incentivou isso. Na altura, tinha medo que escrever não fosse “design”, eu própria me limitei. É crucial que o nosso caminho se cruze com o de  pessoas que derrubem esses limites artificiais. Os textos que produzi nesse ano acabaram por ser finalistas na categoria de Literatura de uma mostra importante, de Jovens Criadores, e então foi como uma revelação: aquilo que eu escrevia fazia sentido para mais alguém. Deu vontade de continuar.

 

Penélope Salles – Você poderia falar um pouco sobre o seu novo romance?

Joana Bértholo A História de Roma, é como se chama, é muito diferente do Ecologia, na forma e no temperamento. Passei anos a ler e a estudar para poder escrever o Ecologia, e isso foi um processo que me deixou satisfeita. Mesmo assim, quando me propus um livro novo, quis desafiar-me. A ideia era um pouco na linha de: que romance escreverias se não pudessemos ler nem consultar qualquer fonte? Foi um ponto de partida. Isso fez com que tivesse de mergulhar em mim, nos meus lugares, em histórias que conheço, na minha imaginação. Saiu essa história de um casal que se reúne passados 10 anos de se ter separado, e cujas memórias do que lhes aconteceu quase não coincidem. Além disso, a curva de vida dela encontra-a no arco entre os 27 e os 37 anos, um período da vida de uma mulher em que a decisão de ser mãe se afunila e agudiza. Uma luta contra o tempo e a pressão social, é assim que ela o sente.

Ainda não sei bem como os leitores vão ler este livro, que aspectos dele vão realçar, mas para mim neste momento é essa a dinâmica dele: uma história muito voltada ao passado, naquilo que a memória faz de nós; mas também voltado ao futuro, naquilo que decidimos prolongar além de nós, na decisão de pôr ou não um filho neste mundo em estado crítico.

 

Penélope Salles – Você poderia nos dizer como foi a experiência de vir ao Brasil pela primeira vez? 

Joana Bértholo Foi excelente. O balanço é muito positivo, a única nota menos boa é ter sido tão pouco tempo. Claro que me impressionou muito o contraste entre a extrema riqueza e a miséria nas ruas de São Paulo, e dei-me conta, ainda que de forma superficial, do esforço da pessoa comum, na rua, para se manter à tona. Não deu tempo para aprofundar, tenho pena. O que de mais forte levo é a sensação de uma exuberante simpatia com que era recebida onde quer que fosse.

 

 

 



Penélope Salles

Penélope Eiko Aragaki Salles possui bacharelado e licenciatura em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), especializou em Linguagens das Artes pela mesma universidade. Tem mestrado em Letras na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa também pela USP. Atualmente é professora de português e integra o grupo de pesquisa “Colonialismo e Pós-Colonialismo em Português” (USP). 

 




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