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Em Pirapora, se borda Brasil



2022-07-22

 

Para Antônia Zulma e sua família bordadeira

Rio de Janeiro, 22 de julho de 2022.

 

Estimado Jamil, estimada Juliana,  

Peço licença para entrar, mais uma vez, nessa troca epistolar tão rica no olhar/amar o Brasil. Práticas raras, o olhar amoroso e encantado para o país e escrever cartas em tempo de mensagens flash. Então, considerando concedida a licença, escrevo com boas notícias, que vêm de Pirapora, a cidade que reverbera na voz de Elis Regina: “Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida”. Pois lá, não é Nossa Senhora, é o São Francisco. Rio e fé correm soltos, ainda, e isso, por si só, é um milagre. Milagre também foi o encontro, feito de felicidade, arte, água e ponto miúdo que acabou de acontecer, tem uns 15 dias.   

Não sei bordar, sempre me explico de início e o fiz mais uma vez na abertura do II Encontro do Bordado Brasileiro. Não sei nadar lá muito bem, o que aliás de nada adianta em rio. “Rio não é saber nadar”, me disse uma das irmãs Dumont. Não sei ficar parada com as dores explodindo por aí. Daí, “Partiu Pirapora”! Assim disse Maria para a família no Whats app. Avisava que tínhamos saído de Brasília, Sávia no volante, Paulo Cesar, Maria e eu, atravessando cerrado e destemperos variados, como o que se mostra em Paracatu, onde se prepara algo pior que em Brumadinho. O belo tom de azul turquesa, visível nos morros e em instalações semelhantes a muros e escoras, adverte do perigo – escamoteado ou minimizado pelo poder público – que advém da liberação de arsênio na exploração da maior mina de exploração de ouro a céu aberto do mundo.

Mas havia araras azuis, sempre aos pares, cortando o céu, em prenúncios de resistência. Havia a vereda, os rios e as pontes sobre eles. Plantações de eucaliptos em certos trechos, horizonte limpo em outros, partes de terra arada, partes de solo queimado. E comilança, nas paradas estratégicas dos quinhentos e poucos quilômetros de rota. Empadas mineiras, pamonhas, doces, cafés até o “Chegou, Pirapora!”, anunciado por Maria à família. Pirapora, o rio. Minha unção.

Não sei nadar, já navegar é meu território, com direito a enjoo e tudo. Em 1999, naveguei pelo São Francisco, em uma empreitada cultural da família Dumont. Vivenciei experiências que retomo, neste evento de iniciativa do Instituto de Promoção Cultural Antônia Diniz Dumont (ICAD), do Ateliê Leninha Dumont e do grupo Matizes Dumont. E se pensam em encontro bucólico de senhoras com seus bordados, o equívoco é certo. Muitas senhoras, predominância feminina, mas homens também, e o mapa do Brasil bem representado. Entre oficinas às margens do rio, de um lado e outro, o tempo de cantar e de dançar, de mostrar devoção e ampliar conexões. A brasilidade, Juliana, tão bem explicitada por você lá esteve, de corpo inteiro. 

Alessandra Roscoe, escritora de Brasília, me falou de Eliane Brum, a jornalista ícone da luta contra a espoliação da Amazônia e sua gente, em sua decisão de mudar para Altamira e acompanhar as pessoas molestadas e perseguidas, no “centro do mundo”. Volnei Canônica, escritor e promotor cultural de Caxias do Sul, compartilha com o público o espanto da mãe, “que costurava e bordava tudo o que a gente vestia e que decorava a casa”, pela presença do filho em um encontro de bordado: “Você não sabe nem pregar botão”, dissera ao telefone, pouco antes começar a palestra. Mas ele falava de “Bordado, outras artes e literatura” e, para tal, o ofício de pregar botão não era necessário.

Um pouco antes, Tavinho Moura abriu Minas, na voz e nas cordas de seu violão; Cida Mendes levou humor e crítica, com a incomparável personagem Concessa, mesclando aquecimento e esquecimento global e mostrando o bem que faz o “café coado na cara”, isto é, bem juntinho de quem vai beber. Eu optei por colocar em cena o pioneirismo da mulher de 92 anos, sorriso ainda presente no rosto, que ensinou filhas e filhos a bordar, em fidelidade a uma herança e em atenção a uma bússola interior. “O bordado de Antônia e o Brasil” evoca a ação e o legado da matriarca Diniz, materializados no instituto que permite a muitas mulheres (dezenas, centenas, milhares delas, que sabemos dessa progressão?) alcançar renda própria e dignidade. Quase vinte anos depois da inauguração do ICAD, vejo o quanto cresceram em potência e afirmação as ações em saúde, cultura, educação e ambiente. Posso dizer, Jamil, que isso é parte da descolonização de uma sociedade e da invenção do Brasil?

Essa tomada do que somos em nossos corpos aconteceu no Forrozando, na praça da antiga estação ferroviária, misturadas as gentes que vieram para o encontro, as gentes que são dali mesmo. Rubinho do Vale, com tom e som esquecidos nas grandes cidades, conclamou, com sua viola:

“Vamos seguir a história com a canção brasileira

Pra que nossa memória não se acabe em poeira.”

Um homem nos ofertou o espetáculo de seu corpo-ímã de vida e movimento, semelhantes aos dançarinos do Zabelê, grupo mantido por Mariângela Diniz, que encantou convidados com a força da devoção, a genuinidade do ritmo. Homens belos, mulheres lindas, caboclos, caboclas evocando parentescos inéditos, riquezas ancestrais, que o escritor Rogério Andrade Barbosa pôs em evidência com a canja que nos deu no tambor. A bandeira do Divino mudou de mãos, oferta da família Diniz Dumont para a prima Dadá, que mantém no quintal de casa, em Belo Horizonte, notável folia de Reis.  

Meu marido aniversariava e talvez o melhor presente tenha vindo do Brasil que o abraçou, lá do palco do Forrozando, na voz do locutor Pepé Paraguaçu. Um jovem nos pediu ajuda (que coragem, Juliana, dizer esmola) para comer algo em uma das várias barraquinhas. Foi um pedido simples, que nos veio uma ou duas vezes mais, provavelmente pelo trajeto que fazíamos e que não expunha muito da miséria habitual deste país. Por outro lado, nesse mesmo trajeto, o dono da casa que eu espiava com curiosidade pelo trabalho de estuque em relevo no muro, se apresentou, me fez entrar, e mostrou suas obras. O minúsculo São Francisco, a honrar na pobreza do talhe os votos feitos há mais de oitocentos anos, está agora em minha mesa de trabalho.   

Em suma, Juliana, Pirapora foi vivência de “brasilidade”, “o escudo que construímos contra a opressão colonial”. Como, na voz da sua Anita, “todos os impossíveis acontecem aqui”, aconteceu no Encontro esse encantamento que você quer dar a sua filha e a seu filho, eu, às minhas netas e a meu neto. Esse encanto chegado a mim nos bordados de Antônia, de suas filhas e suas netas, tão bem manifesto na frase com que Ângela me presenteou:

Das aulas de geografia
Guardei dois rios,
só:
o de São Francisco
e o que corre dentro de mim.

 

Em Pirapora, se borda o Brasil do desejo, do ponto miúdo e do possível. Nesse miúdo, a culpa que me cabe e coube, por não agarrar a linha de maneira mais firme, em momentos necessários. Na promessa de mais atenção a tais circunstâncias, aceito as convocações que fazem, oferto por ora, no ponto miúdo de patchword, um trecho do bordado pelo qual ansiamos todes.  

Com carinho, em confiança,

Nilma



Nilma Lacerda

Nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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