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O fim do medo

IMAGEM: John William Waterhouse



2022-11-17

As ondas afogaram minha boca, que gritava o teu nome. Não é duvidoso o mensageiro que isto te anuncia. Não é por vagos rumores que isto sabes. Naufragado, eu mesmo em pessoa te comunico o meu destino. Anda, levanta-te. Pranteia-me e veste-te de dor.

Ovídio

 

De repente, naquela noite, alguma coisa me acordou. Quando olhei para o lado, Juliana se debatia durante o sono, presa em algum pesadelo. Ela puxava o lençol como se quisesse rasgá-lo, unhava o próprio rosto, parecia prestes a arrancar os cabelos. Eu deveria acordá-la? Ela sempre se levanta tão cedo; queria deixá-la descansar. Descansava? Fiquei sem saber o que fazer.

Não demorou para que eu a ouvisse gemendo baixinho, as lágrimas já brotando dos olhos. Quando me dei conta, minha mulher chorava dormindo, sofrendo, e eu sem saber como ajudá-la — como de praxe, eu pesava a vida sem um fiel para a balança, como ao cabo é o que parece nos restar a todos, neste mundo cada vez mais privado de ponderação.

Mas nada poderia me preparar para o que ela diria em seguida, dos confins do seu sono. De repente, como se fosse imperativo dizer, sua voz me alcançava inteira, gutural, sofrida, proferida não como se dissesse palavra, mas como se prefigurasse a realidade — naquela noite, enquanto dormia, Juliana me disse de um modo decisivo, sonora como num filme de terror: “MEDO.” Ao ouvi-la, meu corpo estremeceu inteiro.

Dita daquela forma, a palavra pareceu saltar diretamente do inconsciente para os lábios: foi como se Juliana comunicasse o seu medo não por meio de um significado, o sentido atribuído à sua palavra correspondente, mas pela palavra em si mesma, o corpo da palavra, a sua forma, o significante em seu estado de enunciação. Ali, naquela cama, o som da palavra medo era em si mesmo o medo que ela parecia sentir — e, de alguma forma, ao ouvir o seu medo, eu também pude senti-lo.

Assustado, abracei Juliana e disse algo como calma, eu estou aqui, mas disse como se falasse a mim mesmo, reagindo ao terror. “Você está segura”, eu ainda falei, mas sem pensar no que dizia: eu apenas respondia ao medo que me tomava, o medo que de repente inundava o nosso quarto, como letras terríveis que se esgueirassem vivas nos cantos do escuro.

Ao me ouvir, Juliana gemeu uma última vez, transitando entre as realidades, mas logo me abraçou e, em seguida, distensionou o corpo, restando finalmente num torpor calmo, desimpedido. No fim da manhã, depois de acordar, conversamos abismados sobre o episódio, ainda na cama.

Juliana se lembrava de ter falado comigo durante a noite, mas garantiu não ter despertado: o seu desespero era justamente porque tentava de todo modo acordar, mas não conseguia. Ela me disse que se lembrava de ter sonhado o pior pesadelo da sua vida, mas já naquela hora era incapaz de dar a ele qualquer sentido narrativo, estabelecê-lo por meio de qualquer imagem.

Sem se lembrar daquilo com o que havia sonhado, Juliana se lembrava de temê-lo mais do que à própria morte. Seguimos por todo o dia atravessados por essa experiência, o medo ainda ressonando em nossos corpos.

Naquele dia, mais tarde, acabei me lembrando que, durante a noite, depois de Juliana se acalmar, o canto de um pássaro atravessou a janela do nosso quarto. Incapaz de superar o impacto do que havia ocorrido, fiquei ouvindo-o cantar. Só adormeci algumas horas depois, quando vi que finalmente amanhecia, o canto do pássaro ainda preenchendo nosso espaço sonoro.

Naquela manhã, perdido entre dois pesadelos, derrotado pelo sono fora de hora, sonhei com um campo de papoulas vermelhas espalhadas pela vastidão.



Ewerton Martins Ribeiro

Nasceu em 1981 em Belo Horizonte, Minas Gerais, no Brasil, onde vive. Além de escritor de ficção, é jornalista e servidor da Universidade Federal de Minas Gerais. É mestre (2015) e doutor (2021) em literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Parte da pesquisa de seu doutorado, que resultou em uma tese sobre autoficção que é simultaneamente uma obra de autoficção, foi realizada na Universidade de Coimbra, em Portugal, entre 2018 e 2019, subsidiada por bolsa oferecida pela Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou A Grande Marcha (editoras Circuito e e-galáxia, 2014), novela que tem como pano de fundo os protestos políticos brasileiros de junho de 2013, e o infantojuvenil Ficções do minidicionário ou A Guerra Secreta dos Insetos (editora Urutau, 2022), além de contos em revistas e suplementos literários. Venceu a edição de 2018 do Prêmio Literário Cidade de Manaus na categoria Ensaio sobre literatura.




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