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Identificação e memória

Marilene Felinto. Divulgação



2022-11-21

 

Personagens que de repente tomam consciência de si, se identificam com os outros e resgatam a partir daí a própria memória povoam as tramas afiadas, muitas protagonizadas por mulheres, de Mulher feita e outros contos, de Marilene Felinto (Fósforo, 2022). As discussões levantadas por Felinto são sempre atuais, principalmente em um país onde se costuma esquecer sua história e desconsiderar sua complexidade social e geográfica.

Em “Segunda classe”, um dos contos mais contundentes do livro, a narradora, uma brasileira, senta-se diante de uma alemã em um trem que vai de Berlim a Munique. A estrangeira, embora “branca e loira”, como destaca a narradora, “não era bonita -- tinha cara de melancolia e era pobre, o que se via pelo casacão surrado que vestia, pelo ovo que trazia como lanche para a viagem de mais de oito horas”. Aos poucos, ela passa a enxergar a sua própria pobreza naquela mulher. Talvez a recíproca seja verdadeira, pois ambas se empenham em um diálogo numa “língua universal”, “aquela das segundas classes, dos vagões que transportavam os surrados, os mais pobres, os secundários, os medianos, os desclassificados, os sem-dente, os caolhos como meu pai e minha mãe”. Essas “mulheres de segunda classe” não precisam de nenhum idioma oficial para se entenderem, a consciência de classe é o idioma comum a ambas.

 Mas a identificação pode se dar também quando se ouve um sotaque particular ou se fala de uma culinária específica. Em “Formiga moderna”, duas gerações se aproximam e se identificam a partir de uma pergunta inusitada feita por uma moça a uma senhora: “Tu come tanajuras?”. Essa “pergunta em sotaque e conteúdo antigo, que vinha dos confins de seus tempos e da terra onde nascera”, desencadeia uma série de recordações e a cumplicidade entre a moça moderna, “com fome somente de vida”, e “a senhora, cheia de antiquada nostalgia e lembranças dos imorríveis sabores da fome”.

Vale destacar que em alguns contos a narradora se enxerga nos olhos hostis do pai, para quem era “feia” e “tinha cara de fuinha”. A figura paterna é tão forte que qualquer opinião divergente dela é vista como uma afronta, cujo objetivo seria apenas desestabilizar um fato consolidado. Mas, no conto “Hipertexto a lápis”, a professora de desenho faz com que a narradora entre “forçosamente em contato com aquele insuportável, que nem era dor de barriga nem ardência de corte – era pior, era a perspectiva mesma de sua própria beleza”. 

Em “Mulher feita”, a narradora reflete sobre o que é ser mulher ao observar seu próprio corpo: “ter peito era como estar para fora ou para além de si mesma”, ter peito era ser vista como mulher com todos os clichês relacionados ao gênero. Os peitos também a impediam, fisicamente, de agir como os garotos. Em uma briga com um colega, contudo, a narradora descobre que seus peitos poderiam ser “sua primeira resistência”: “—E olha que eu esfrego meus peitos na tua cara, e você vai ver só o que é gosto de leite de peito na tua boca”. Mas, “na corrida da vida”, o que ela queria mesmo era só ser gente, “peito aberto e desobediente”.

Essa liberdade de ser gente e não apenas mulher, dentro do padrão estabelecido pela sociedade, reverbera em outro conto, “Ponto-cruz, ponto atrás”. Nele, a narradora decide que não vai costurar nem bordar, vai ser feliz, pois “só sabia que a mãe era infeliz e os homens não costuravam” e que “a mãe na verdade não gostava de costurar”. Não era à toa que a mãe, no momento de manusear a prensa para forrar botões, “imprimia tanta força que era como se jogasse toda a sua amargura naquele movimento mecânico”.

 A propósito de movimentos mecânicos, talvez eles sejam também um refúgio ou uma “primeira morte”, como se lê num dos contos. Nele, o narrador decide parar de escrever para se tornar mecânico automotivo, pois escrever “era um processo vivo, pulsante”, e ele já não sentia “interesse em tudo o que tivesse vida própria e fosse se constituindo como um corpo autônomo, que cede ou resiste a seu bel-prazer, que surpreende, obra inacabada”. Portanto, escolheu lidar somente com coisas que pudesse “controlar mecanicamente como motores e máquinas”.

Felinto faz uso de uma linguagem direta para descrever imagens fortes que desconcertam o leitor. Em “Canja”, a narradora descreve a “matança” de frangos pelas mulheres da família, até que, aos poucos, a cozinha, “o espaço mais doméstico” da casa, foi se tornando um “palco de sujeira, de sal e sangue...”, o que talvez reflita a violência das relações familiares.

 

 



Dirce Waltrick do Amarante

É ensaísta, tradutora e escritora, professora de Artes Cênicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina. Autora, entre outros livros, de Cem encontros ilustrados, Ascensão: contos dramáticos, Para Ler Finnegans Wake de James Joyce e James Joyce e Seus Tradutores. Organizou e cotraduziu Finnegans Rivolta para a editora Iluminuras. 




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