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Um livro denso sem ser pedante

Luciana Higalgo. Reproduo



2023-07-03

Um tipo de humor que tem sim certa ironia, mas não aquele sarcasmo apocalíptico, niilista, demolidor. Um humor que ainda vislumbra uma vontade de viver e se apoia no amor como elemento fundador, não só do sentimento (o que seria óbvio), mas sobretudo do pensamento. Por isso recorri aos gregos antigos, do contrário a escrita poderia desandar e cair na pieguice.

 

O livro Penélope dos trópicos, de Luciana Hidalgo, veio para ficar. Isso significa que este não é um livro que se lê apenas uma vez porque, entre outras coisas, ele nos induz à busca do conhecimento, à vontade de saber mais, tanto sobre a antiguidade trazida pelas referências à mitologia grega, quanto ao presente, ao mergulhar na densidade e nas contradições do aqui e agora.

Além da originalidade dos personagens e do enredo, no qual a heroína clássica se transforma numa feminista contemporânea que vive entre nós - mas não sabemos onde exatamente, a linguagem é o que mais se destaca. Luciana Hidalgo mostra que é possível recorrer à “alta cultura” driblando todo tipo de pedantismo intelectual. É uma história acessível e sofisticada ao mesmo tempo, com uma narrativa que traz referências arquetípicas da cultura ocidental combinadas a diálogos (interiores ou não) prosaicos, cenas comuns do cotidiano, e analogias entre os dilemas políticos do presente e do passado.

Penélope dos trópicos é o quinto livro de Luciana Hidalgo, jornalista e escritora premiada com o Jabuti pela biografia Arthur Bispo do Rosario – o senhor do labirinto (Rocco, 1996) e o ensaio Literatura da urgência - Lima Barreto no domínio da loucura (Annablume, 2008) que recebeu o mesmo prêmio. Seu romance O passeador (Rocco, 2011) foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Jabuti e Portugal Telecom. Rio-Paris-Rio (Rocco, 2016) é o seu penúltimo romance.

Nesta entrevista, concedida por email com exclusividade à Revista Pessoa, Luciana explica como o livro foi concebido, seu processo de construção de uma linguagem em sintonia com o enredo, suas fontes de inspiração, a ligação entre política e literatura e comenta os personagens masculinos do romance. Confira abaixo.

 

 

A sua protagonista, a Penélope dos trópicos exige um grande conhecimento sobre a mitologia grega e, ao mesmo tempo, é uma antena capaz de captar a direção para a qual o mundo está se movendo neste século XXI. Como surgiu esta ideia e quais os recursos que você usou para construi-la? 

Penélope dos trópicos nasceu do meu assombro diante do Brasil e do mundo contemporâneo, dos caminhos tortuosos e violentos abertos pela extrema direita nos últimos anos. Fiquei perplexa ao entender a natureza humana de uma forma crua, por vezes inumanas. Devido à chamada “polarização política”, percebi uma hostilidade nas relações em geral (com amigos ou mesmo nas ruas), que eu não percebia antes. A História nos ensina, mas nem sempre queremos lembrar: quando o extremismo, com sua estupidez e truculência, sai do armário, tudo pode acontecer. Como se a Harmonia cedesse ao Caos. A extrema direita tem uma capacidade hedionda de destruir com rapidez tudo de Belo e Bom que a humanidade leva séculos para construir.

Quis então escrever um romance que falasse disso tudo. Esse é o grande trunfo da ficção. Serve, sobretudo, para aprofundar temas complexos que a não ficção jamais alcança. Em Penélope dos trópicos, questões políticas e filosóficas se tornam literárias: questões que vão da macropolítica à micropolítica, da violência à barbárie, do corpo ao afeto.

Para tentar compreender essa caótica contemporaneidade, tive de apelar aos gregos antigos. Não que a Grécia antiga, a.C., fosse perfeita, longe disso. Mas, sem dúvida, naquele período a humanidade chegou a um requinte filosófico e a um entendimento muito fino, raro, da importância da cultura (da paideia) para a evolução humana. Aquela civilização atingiu uma situação invejável, unindo filosofia à arte, à poesia, ao Estado. Nela encontro valores muito caros: a educação, a beleza (em seu sentido mais complexo), a pólis, a política (que deriva da pólis), a ética.

Resolvi ler Paideia – A formação do homem grego, de Werner Jaeger, por ser uma leitura fundamental, que eu me devia. E enquanto lia, o Brasil afundava no obscurantismo da extrema direita, a cultura era destruída, a educação esvaziada, a filosofia e a literatura inexistiam. Esse livro de mais de 1.500 páginas me segurou durante o pior momento da minha vida adulta coletiva. Afinal, a mera ideia de que aquela civilização grega pôde um dia existir já me tranquilizava.

Quis então compartilhar esse conhecimento, escrevendo um romance em que a personagem principal também lesse Paideia e tivesse forte ligação com a Grécia antiga (no caso, a mãe dela era professora de mitologia grega). Essa Penélope dos trópicos, contudo, está longe de ser uma intelectual. Ela é arquiteta, adora desenhar, caminha na praia todos os dias, projeta uma pólis grega para ser implantada na favela em frente ao seu apartamento, participa de manifestações contra neofascistas e ainda tem tempo de buscar amores em aplicativos de encontros no celular. Ou seja, no seu dia a dia é apenas mais uma mulher lidando com todas as questões femininas e feministas, políticas e existenciais do seu tempo. Ela decididamente não fica em casa esperando marido algum. Pelo contrário, é uma personagem intensa, carismática, que criei na intenção de estilhaçar o machismo do universo hipermasculino e machista de Homero. Minha Penélope conversa com a Penélope primeira, a fiel e paciente mulher do Ulisses da Odisseia, mas de um outro lugar. Do lugar privilegiado da mulher de hoje, que não vive em relação ao homem, pelo contrário, é a protagonista da própria “Penelopeia”.

 

Seu livro traz uma conexão muito potente entre a protagonista e a linguagem utilizada para expressá-la, ou seja, a linguagem é consoante com as características da protagonista e do enredo. Penélope tem muitas facetas e a sua narrativa incorpora prosa poética, versos, títulos, citações, ensaios. Gostaria que você comentasse esta conexão entre a personagem e a linguagem. 

Fui uma leitora muito curiosa na infância, atenta aos livros que adultos como meu pai liam. Sem que ele notasse, li Servidão humana, de Somerset Maugham, aos 11 anos, e me lembro também de ler “Laços de família”, de Clarice Lispector, na mesma época, na aula de português da Dona Yolanda. Certamente não compreendi esses autores em suas nuances, mas o que me interessava era justamente esse conhecimento que eu desconhecia, e gostaria muito de adquirir. A paixão pela escrita me levou ao jornalismo, depois à literatura: fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado em Letras. Ou seja, quando escrevi meu primeiro romance O passeador, já tinha essa gigantesca bagagem intelectual acumulada, então não foi difícil utilizá-la.

De início cheguei a desconfiar da minha capacidade para criar ficções, mas o processo criativo mostrou que, pelo contrário, eu possuía uma imaginação um tanto exagerada. Àquela altura eu já havia escrito a biografia jornalística Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto e o ensaio Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura, pelos quais fui premiada com o Jabuti. Essas premiações foram um grande estímulo, pois indicaram certa habilidade para trafegar por gêneros diversos. Por isso, pegar o caminho da ficção não foi algo assim tão estranho.

De início temi que a bagagem acadêmica pudesse atrapalhar, mais do que ajudar, e acabei aprendendo, na prática, que a criação é o equilíbrio entre o que se leu e o desprendimento total dessa leitura, na tentativa de se criar algo. E isso se faz pela linguagem. No meu caso, incorporo tudo por que passei: a experiência de vida que o jornalismo me deu, vendo a vida como ela é, estando no meio do tiroteio, da notícia; a vivência acadêmica, que consiste numa visão teórica (quase científica, se é que isso é possível) do corpus literário; e, por fim, a paixão pela literatura, pura e simples, daquela leitora que fui antes disso tudo, na infância, daquela menina que buscava entender o mundo pelos livros, porque o mundo era aquela coisa esquisita, encantadora, assombrosa.

Minha literatura é o resultado dessa miscelânea de vivências, sendo cada livro uma nova experiência. Em Penélope dos trópicos, quis maturar ainda mais essa mistura. O processo de criação da personagem foi sofisticado, até mesmo erudito, eu diria, mas fiz questão de usar minha pesquisa apenas como base, um mero ponto de partida. Quis aplicar todo esse conhecimento sobre a Grécia antiga ao longo do romance de forma simples, sutil e bem-humorada. Para isso inventei um narrador muito irônico, tão ou mais descolado do que a própria personagem que ele narra. Acho que deu certo, porque leitores têm escrito mensagens para dizer que aprendem muito com o livro e ao mesmo tempo se divertem. Não é um romance para “entendidos”, não há citações longas nem pedantismos intelectuais. Não é necessário entender de mitologia grega para ler esse romance. Afinal, trata-se de uma ficção, não uma tese.

Quis, entretanto, trabalhar bastante o texto e, nesse sentido, a prosa poética foi uma potente ferramenta. Há uma frase do filósofo Alain que me guia: “O estilo é a poesia na prosa, ou seja, uma forma de expressão que o pensamento não explica.” É isso. Noto que a minha busca estética, o estilo que vai surgindo a cada página e puxando o fio da narrativa, tudo isso serve muito bem para o que tenho a dizer. Tem prosa, tem poesia, tem citação, tem ensaio – sem excessos. E no final parece que tudo se encaixou perfeitamente, de maneira simples e ao mesmo tempo complexa, de uma forma que o pensamento não explica; e jamais explicará. Ou seja, Penélope dos trópicos é o resultado de tudo que eu penso e também de tudo que nem sei que penso.

 

Seu livro é muito inspirador. Eu abro em qualquer página e lá está uma frase ou uma palavra que me dá uma enorme vontade de escrever, pensar e pesquisar sobre aquilo, fechar os olhos e me deixar levar. Além da mitologia grega e da filosofia grega, duas fontes de inspiração óbvias, o que mais te inspirou? 

O que mais me inspirou: a luta contra o neofascismo e contra a injustiça social num Brasil arrasado; a possibilidade da utopia num mundo pós-utópico; a potência da literatura para dar conta de tantos assuntos; e o humor. Aliás, sem humor nem teria feito essa árdua travessia. Afinal, sofremos um golpe de Estado em 2016, acompanhamos o linchamento e a prisão de um presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) humanista e humanitário, convivemos com neofascistas e até mesmo com neonazistas no nosso dia a dia, enfrentamos uma pandemia de proporções bárbaras, vimos brasileiras e brasileiros morrerem de fome durante um governo autoritário e militarizado que só buscava mais poder e dinheiro... Nossa!

Era tudo tão surreal que a minha forma de autoproteção diante de tudo isso foi o humor. Não um humor tolo, ou cínico, tampouco perverso. Um tipo de humor que tem sim certa ironia, mas não aquele sarcasmo apocalíptico, niilista, demolidor. Um humor que ainda vislumbra uma vontade de viver e se apoia no amor como elemento fundador, não só do sentimento (o que seria óbvio), mas sobretudo do pensamento. Por isso recorri aos gregos antigos, do contrário a escrita poderia desandar e cair na pieguice. Trago em mim dois lados fortes: uma compreensão sensível, simples e comovida do mundo + um entendimento complexo, intelectualizado, racional desse mesmo mundo. “Penélope dos trópicos” é meu romance mais bem-acabado nessa dualidade que de jeito algum é antagônica nem contraditória, e sim complementar.

Inventei essa Penélope justamente para não cair na tentação do “eu, eu, eu”. Não queria que fosse uma autoficção, um romance autorreferente, de acerto de contas. Ao deslocar questões do período político recente para uma personagem com personalidade tão diferente da minha, consegui (acho) um distanciamento. E para acentuar ainda mais essa distância, situei a história em algum lugar dos trópicos, sem em nenhum momento localizá-la no Brasil. Note que o país de Penélope não é explicitamente citado no romance, nem a cidade. Isso ajudou muito no esforço de me desgarrar das alegrias e mazelas brasileiras diárias, mudando meu foco.

A escolha do narrador também foi estratégica: um narrador não exatamente palpável e que, por esse motivo, mantém uma “distância higienicamente segura” da humanidade. Esse recurso me possibilitou tratar do mundo de Penélope com outros olhos, com uma ironia fina, o que foi tornando o texto ao mesmo tempo reflexivo e espirituoso. Quis criar uma história densa e leve. Portanto me surpreendi quando a escritora Micheliny Verunschk elogiou justamente minha forma de “construir personagens, como dar peso e leveza (essas qualidades tão caras a Ítalo Calvino) a uma voz narrativa, como tratar um material denso sem pedantismo”. Fiquei feliz demais, porque a ideia era exatamente essa. É muito bom quando uma intenção se consolida literariamente, notada e avalizada por quem lê.

 

Penélope dos trópicos não espera Ulisses, espera dias melhores para o lugar onde vive. Mas o tear da sua Penelope, segundo o narrador, é o tempo, ou o acaso. Você, Luciana, é otimista em relação ao futuro próximo deste país?

Sou uma pessoa estranhamente otimista em relação à humanidade. Noto que nós, humanos, temos a tendência a ser imediatistas, a pensar apenas no presente, no desconforto da hora. No entanto, o saber, o conhecimento, toda a nossa bagagem de leitura tem de servir para alguma coisa em períodos nebulosos. Enquanto vivíamos, por exemplo, o horror do governo neofascista no Brasil nos últimos anos, para mim foi importantíssimo pensar nos avanços e recuos sucessivos ao longo da História.

Acho que a maturidade traz esse pensamento mais estável sobre a instabilidade dos fatos. Nada é tão sólido no mundo, nada dura, e ainda assim a humanidade sobrevive e procria. Então é isso. Podemos sim recuar, daqui a uns anos avançar de novo, sem tanto drama. E a ficção é o lugar por excelência para esse exercício. Nela consigo trabalhar melhor nuances, emoções, raciocínios. No caso de “Penélope dos trópicos” utilizo recursos dramáticos sem despencar no dramalhão. E isso é bem difícil no país da telenovela, com forte tendência ao dramalhão. Somente o humor é capaz de quebrar tanto drama.

Fiz questão de retratar nesse romance tudo que sei sobre a vida no nosso país tropical: todas as belezas, todas as mazelas. Minha vivência em outro país durante muitos anos (na França, em Paris) me fez ver o Brasil de uma forma mais distanciada, com crítica, mas também com muito carinho. Tenho um amor enorme pelo nosso país, pela nossa gente e também pela nossa língua portuguesa-brasileira. Por isso e pelo meu estranho otimismo, acho que o Brasil voltará a avançar nesse novo governo, que privilegia políticas sociais/direitos humanos e mira no fortalecimento da educação e da cultura. Somente a “paideia” poderá, a longo prazo, frear a bestialização promovida pela extrema direita – uma extrema direita que infelizmente é bastante numerosa e ainda provocará inúmeros estragos.

 

Seu livro tem um teor político solto e sob controle ao mesmo tempo. Solto porque a política está em toda parte e sob controle porque, em nenhum momento, ele é panfletário nem resvala para o dogmatismo. Como você pensa a ligação entre política e literatura no seu projeto literário pessoal? 

Nasci um ano após o Golpe de 1964 e passei a infância inteira sob a ditadura civil-militar no Brasil. Levei muitos anos para entender em que país tinha sido criada e tudo que minha família havia escondido da criança que eu era. A cada horror que descobria, a cada tortura de um militante, a cada estupro de mulheres de esquerda, a cada assassinato de jovens idealistas... uau, eu ficava perplexa. Por isso, quando houve o golpe de 2016, quando vi a grande imprensa linchando Lula de um jeito tão perverso, quando notei amigos de infância e de juventude fazendo o mesmo para derrubar uma presidenta eleita pelo voto democrático, tive a mesma perplexidade da adolescência.

Rapidamente percebi que grande parte da sociedade brasileira caladinha durante a ditadura civil-militar dos anos 1960-70 era a mesma que criminalizava os valores de esquerda em 2016. Olhei em volta e com melancolia percebi a direita flertando com a extrema direita, jornalistas antes de esquerda compactuando com o discurso dos seus patrões nos grandes grupos da mídia brasileira, enfim todos os poderes (executivo, legislativo, judiciário) bastante engajados em armar um grande conluio, isto é, aquele “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”. Foi um período vergonhoso do nosso país e que obviamente representava a continuidade de todos os “valores” lamentáveis do governo militar nos anos 1960-70. Parte da sociedade quis sim retomar aquela “moralidade” atrasada, caduca e militaresca. E eu não poderia me calar diante disso tudo na vida adulta (já bastava ter sido uma criança ingênua).

Usei então minha maior habilidade – a escrita – no combate a esse atraso, às ideias neofascistas e neonazistas, ao machismo, ao racismo, a toda sordidez que emerge quando a extrema direita ganha terreno. Escrevi muito no Facebook, onde tenho dois perfis muitos ativos e milhares de leitores, mas a certa altura achei insuficiente. Afinal, a “polarização política” não é exatamente um conflito entre partidos e sim entre valores éticos. Tratava-se de questões muito complexas que exigiam tratamento ficcional.

Por obra do acaso (ou não), em 2016 eu havia lançado o romance “Rio-Paris-Rio”, sobre dois jovens brasileiros exilados na Paris de 1968, fugidos da ditadura civil-militar no Brasil. Quando comecei a escrever esse livro em 2012, pretendia investigar o impacto da violência do governo militar nos corpos e afetos dos que viveram aquele período. Nem suspeitava do retorno da extrema direita a partir de 2016, mas de alguma forma tive essa intuição ao escolher o tema (aquilo “que o pensamento não explica”). Eu havia passado quatro anos investigando a perversão dos militares durante os anos 1960-70 no Brasil e, em Paris, havia realizado intensa pesquisa sobre a liberdade explosiva do Maio de 68. Tudo isso me ensinou muito sobre os valores fundamentais da esquerda.

Portanto, quando a extrema direita foi eleita em 2018, eu já tinha uma ideia muito sólida sobre a urgência de uma luta constante por justiça social num mundo assolado pela barbárie capitalista. É algo que trago em mim desde os 5 anos, quando vi um sem-teto na Av. Nossa Senhora de Copacabana implorando por comida e, tão pequena, pude entender aquele desespero. Não dá para seguir adiante pelas ruas do Brasil e se sentir confortável com isso. Então na adolescência participei de um grupo que dava comida aos sem-teto, depois virei jornalista, escritora, e essa preocupação com os desfavorecidos se tornou temática recorrente em tudo que escrevo. Não dá para esmorecer. Toda vez que compactuamos com o capitalismo bárbaro, que está intimamente ligado à extrema direita, nos tornamos mais bárbaros, menos humanos.

A travessia das décadas amadureceu em mim a prática de pensar politicamente por meio da literatura. Afinal, a política está em tudo: no manifestante que grita e naquele que cala, no texto mais panfletário e na prosa poética menos óbvia. No meu caso, estética e política andam juntas, às vezes em paz, às vezes em guerra, mas sempre juntas. Meu grande desafio é saber dosá-las, para que a ficção não soe militante, pois a militância crua tiraria sua credibilidade e também sua universalidade. Por isso fico muito feliz em saber que você notou esse esforço em não resvalar no teor panfletário ou dogmático. É um exercício difícil e delicado.

 

Por fim eu gostaria que você comentasse os personagens masculinos do romance, especialmente Lucas e Theo (se possível, de um ponto de vista feminista).

Na “Odisseia” de Homero, é muito aflitiva a situação da personagem Penélope, que espera o marido Ulisses chegar da Guerra de Tróia durante anos e vive cercada, até ameaçada, por pretendentes em sua própria casa. Eles se apoderam de tudo, comem o que querem, transam com suas servas, planejam emboscadas para Ulisses e Telêmaco (o filho do casal). Não há qualquer respeito dos homens por ela; eles querem apenas o poder da rainha de Ítaca.

Por isso fiz questão de criar minha Penélope tropical totalmente independente, com autonomia para escolher quem bem quer. É uma mulher que não vive “par rapport” à vida dos homens que namora. Pelo contrário, tem mais pretendidos do que pretendentes. Nesse contexto, o personagem Lucas, filho de operário, estudante de jornalismo, aparece para mostrar a ela o lado mais combativo da luta política, a necessidade das manifestações contra o neofascismo nas ruas e do corpo a corpo com a polícia. Ela, metida a heroica, se identifica de imediato. Admira Lucas e seu radicalismo, sua ideia de revolução ainda calcada no velho comunismo e na leitura de “O capital”, de Karl Marx.

Lucas é meu personagem-tributo aos militantes de esquerda brasileiros dos anos 1960-70, dispostos a morrer por uma causa: justiça social. Graças a eles tivemos alguma resistência ao terror causado pela ditadura. Hoje um personagem como Lucas pode parecer anacrônico, mas nem tanto. Conheci nos últimos anos alguns jovens representantes de uma esquerda mais combativa, embora sejam poucos e desarticulados.

Quanto ao personagem Theo, trata-se de um professor de grego interessado em pensar o mundo contemporâneo à luz da Grécia antiga. É um humanitário, um homem com sólidos valores de esquerda, que organiza grupos de leitura sobre cultura clássica e acredita revolucionar o país tropical em que vive por meio da filosofia, da educação, da cultura. É do tipo que pensa mais do que age.

Do ponto de vista feminino e feminista, enquanto Lucas faz todo tipo de sacrifício pela causa política e coloca a revolução acima de tudo, inclusive de Penélope, Theo dá todo espaço a ela. Percebe que é ela a heroína, não uma coadjuvante. Ponto para ele.



Ana Cristina Braga Martes

É socióloga e foi professora da Fundação Getulio Vargas até 2019, de onde saiu para se dedicar integralmente à literatura. Nascida em Varginha (MG), passou sua infância e juventude de São Carlos (SP), formou-se em Ciências Sociais pela UNESP/Araraquara, fez mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP) com bolsa sanduíche no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi Pesquisadora Visitante na Universidade de Boston (BU) e fez pós-doutorado na Universidade de Londres (King’s College). Publicou e organizou diversos artigos e livros acadêmicos. A origem da água é seu primeiro livro de ficção. 




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