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Efeito Ernaux, por Dominique Viart

ETIENNE GIRARDET



2023-07-22

Annie Ernaux, ética da restituição

Dominique Viart

 

Tradução de Gabriel Martins da Silva

Revisão de Ana Kiffer

 

Verbete “Annie Ernaux”, de Dominique Viart, publicado originalmente na Encyclopaedia Universalia 2023 (p. 392).

 

A obra de Annie Ernaux está profundamente engajada em seu século, atenta às grandes problemáticas sociais: diferenças de classes, distinções socioculturais, reivindicações femininas, questões da memória, pessoal e coletiva, da doença e do cotidiano. Em 2011, ao reunir seus livros então publicados, ela intitula o volume Escrever a vida[1] e não escrever minha vida, uma diferença determinante que exibe uma ambição mais ampla do que a simples autobiografia. A escritora não se contenta em representar a experiência individual, mas se propõe a questioná-la, concebendo para isso formas literárias por vezes inéditas. "Desde meu primeiro livro", declara ela, "concebi minha abordagem como uma pesquisa"[2]. Ao longo da obra, essa pesquisa transforma a literatura em uma ferramenta de investigação, numa relação de proximidade e distância reflexiva que coloca a escritora na posição de observadora e até mesmo de analista da vida comum para além da sua própria, com uma exigência ética tanto quanto estética.

 

Do monólogo interior ao Relato de filiação

 

Publicados em uma época marcada pelo desenvolvimento das escritas femininas, seus primeiros livros (Les armoires vides, 1974; Ce qu'ils disent ou rien, 1977; La femme gelée, 1981) adotam o monólogo interior valorizado pelo nouveau roman, porém para colocar essa forma romanesca a serviço de uma raiva silenciosa. Os temas centrais da obra já estão presentes: uma estudante dilacerada durante seu aborto clandestino, entre a vergonha sentida por sua origem social e o desejo mal consentido em relação àquele a que aspira; os tormentos de uma adolescente; a carga mental de uma mulher que se considerava igual ao seu marido e precisa enfrentar a divisão desigual das tarefas conjugais. No entanto, a intensidade dessas problemáticas logo transborda o romanesco que supostamente as recebe, o que prejudica a autenticidade da mensagem e a possibilidade de desenvolver sua análise. Ernaux adota então uma escrita mais propícia para abrigar suas preocupações sociais e críticas. Dois conjuntos se formam gradualmente: um que questiona a origem familiar e aprofunda a experiência íntima, o outro que se dedica à observação do mundo exterior.

O lugar (1983) é a virada decisiva na obra. Após a morte de seu pai, Ernaux decide escrever “sua vida e essa distância que surgiu na adolescência entre ele e [ela]. Uma distância de classe, mas particular, que não tem nome. Como um amor separado”. Nascida em um ambiente modesto de pequenos comerciantes normandos, a escritora, que se tornou professora de letras, percebe-se como uma trânsfuga de classe. Restituir a trajetória de seus pais se torna o desvio necessário para se compreender: "Terminei de expor a herança que tive que deixar à porta do mundo burguês e culto quando entrei nele", escreve ela no final de O lugar. Ao desviar a investigação da interioridade para a ancestralidade, a escritora inventa o Relato de filiação, que se tornará uma forma literária importante na literatura contemporânea.

Assim, Ernaux estabelece uma ética de restituição, que rejeita não a literatura em si, mas suas artimanhas: "Comecei um romance no qual ele [seu pai] era o personagem principal. Sensação de repugnância no meio da narrativa. Recentemente, descobri que o romance é impossível. Para dar conta de uma vida submetida à necessidade, não tenho o direito de priorizar a arte, nem de tentar criar algo 'empolgante' ou 'emocionante'". Isso "não é uma biografia, nem um romance naturalmente, talvez algo entre a literatura, a sociologia e a história", esclarece ela na última página de Une femme (1987), dedicado à sua mãe: "O que espero escrever de forma mais precisa está, sem dúvida, na junção do familiar e do social, do mito e da história. Meu projeto é de natureza literária, pois se trata de buscar uma verdade sobre minha mãe que só pode ser alcançada por meio de palavras. (Ou seja, nem as fotos, nem minhas memórias, nem os testemunhos da família podem me dar essa verdade.) Mas, de certa forma, desejo permanecer abaixo da literatura". Mais um conjunto do que uma narrativa cronológica, o relato de filiação reúne "biografemas", como diz Roland Barthes, na desordem de sua ocorrência ou rememoração, e recusa qualquer "narrativa que produza uma realidade em vez de buscá-la" (A vergonha, 1997).

 

O “choque ontológico” da sociologia

 

Fiel à língua compartilhada com seus pais, a escritora reivindica uma "escrita plana". Esteticamente audaz, essa escolha, pela qual foi criticada, surge de uma decisão ética: a escritora presta atenção às expressões de um universo socialmente determinado, do qual toma conhecimento através da leitura de Pierre Bourdieu. Em um artigo publicado após a morte do sociólogo[3], ela relembra o "choque ontológico" que a leitura de Os herdeiros e A Distinção representou, para ela, no início dos anos 70: "Foi uma irrupção", escreve ela, "de uma tomada de consciência irreversível sobre a estrutura do mundo social": "[...] para aqueles de nós que vêm das classes sociais dominadas, o acordo intelectual que damos às análises rigorosas de Bourdieu se soma ao sentimento de evidência vivida, à verdade da teoria de certa forma garantida pela experiência: não se pode, por exemplo, negar a realidade da violência simbólica quando nós mesmos e nossos entes queridos a sofremos." Ela chama isso de "prova pelo corpo", essa lucidez experimental, experimentada antes de ser pensada.

Ela se dedica a explorar essa violência no que agora chama de "auto-sócio-biográfico", reconstituindo o habitus e o ethos de um meio que foi o seu. Em A vergonha, quando falha em reencontrar, apenas pelo trabalho da memória, a menina que foi, Ernaux coloca a sociologia a serviço da reconstituição literária. É ela quem chama a atenção para as expressões, gestos socialmente marcados, leituras, músicas e programas de rádio preferidos: "Para alcançar minha realidade da época, não tenho outro meio seguro senão buscar os costumes e rituais, crenças e valores que definiam os ambientes, a escola, a família, a província em que estava inserida e que dirigiam, sem que eu percebesse, as contradições da minha vida. Revelar as linguagens que me constituíam, as palavras da religião, aquelas dos meus pais ligadas aos gestos e às coisas". Inicialmente analítica, a busca sociológica acaba produzindo tanto uma memória quanto uma intelecção. Alguns anos depois, o relato de filiação revela em  L’autre fille (2011) o silêncio familiar sobre uma irmã mais velha, falecida aos seis anos de difteria, da qual os pais não falavam para a escritora. Ele acompanha, finalmente, a dolorosa descrição do final da vida materna, em uma escrita clínica que evoca sem rodeios a degeneração física e cerebral causada pela doença de Alzheimer, sobre a qual Annie Ernaux é uma das primeiras a escrever ("Je ne suis pas sortie de ma nuit", 1997).

 

Obras íntimas, obras êxtimas

 

A mesma exigência analítica e formal se coloca a serviço da escrita íntima e se dedica ao encontro do desejo (Paixão simples, 1991), do ciúme (L’Occupation, 2002) ou relata, em O acontecimento (2000), a dolorosa experiência de um aborto clandestino e, em L’Usage de la photo (2005), a pulsão de sensualidade em luta contra o câncer. Mémoire de fille (2016) aborda a violência psíquica de uma primeira relação sexual: Ernaux chama de "a garota de 58" a jovem monitora de acampamento que ela foi naquele ano, entregue pela primeira vez à predação do desejo masculino, cujas decepções e sofrimentos somáticos ela relata. Essa fórmula, que constitui a jovem como objeto de rememoração e análise, também expressa uma época histórica, caracterizada por costumes, práticas e uma cultura social das quais a adolescente foi vítima, assim como foi vítima do garoto que abusou de sua ingenuidade. Sua abordagem, informada por dados sociológicos, restitui os afetos vivenciados e os considera em uma linguagem acessível àqueles que são capazes de viver ou ter vivido as mesmas experiências, convidados a se compreender espelhados na autora. O "eu transpessoal" que Ernaux reivindica se torna assim o receptáculo de experiências comuns, compartilhadas por outros engajados nas mesmas ações, tensões, modos de ser, confrontados com as mesmas dificuldades e trabalhados por desejos semelhantes.

O segundo campo explorado por Annie Ernaux consagra outra tendência da literatura atual: uma atenção benevolente ao que Georges Perec chama de "infraordinário", a observação do mundo exterior. Essas obras, que ela chama de "êxtimas" ― Journal du dehors (1993), La Vie extérieure (2000), Regarde les lumières mon amour (2014) ― reúnem cenas cotidianas, observadas no metrô, no trem suburbano, nos supermercados, adolescências, mendicâncias, misérias e fadigas que se escondem ou se revelam... Em vez de serem contadas, todas são relatadas "com precisão, em sua brutalidade, seu caráter instantâneo, fora de qualquer relato”. Ernaux anota como escritora e caracteriza como socióloga, e até mesmo como política: "Eu tenho consciência imediata de que existem mundos inimigos, das classes sociais, que há liberdade de um lado e alienação do outro. Sim, eu ousaria usar esse termo marxista"[4], confessa em uma entrevista.

A sociologia bourdieusiana fornece a matriz de seu olhar empático sobre o mundo ao seu redor. Em L’écriture comme un couteau, ela explica: "Como criança que vivia em um ambiente dominado, tive uma experiência precoce e contínua da realidade das lutas de classes. Bourdieu menciona em algum lugar 'o excesso de memória do estigmatizado', uma memória indelével. Eu a tenho para sempre. É ela que está em ação no meu olhar para as pessoas". A escritora se reconhece naqueles que ela vê. "Encontrei gestos e frases da minha mãe em uma mulher esperando na fila do supermercado. Portanto, é fora, nos passageiros do metrô ou do RER [...] que minha existência passada é depositada. Em indivíduos anônimos que não suspeitam que detêm uma parte da minha história, em rostos, corpos que nunca mais vejo. Sem dúvida, eu mesma, na multidão das ruas e das lojas, sou portadora da vida dos outros". Assim, é muito natural para ela aceitar, ao publicar Regarde les lumières mon amour (2014), participar do "parlamento dos invisíveis", imaginado pelo filósofo Pierre Rosanvallon, que deseja estabelecer um espaço editorial onde cada um, mesmo desconhecido, possa adquirir uma representação social.

 

Escrever a memória comum: Os anos

 

Os anos (2008) é a grande obra de Annie Ernaux, na qual ela trabalhou desde O lugar. Este livro, cujo título ela procurou por muito tempo, deveria conter toda a sua vida, porém os elementos mais pessoais se separaram dele, dando origem aos livros anteriores. A escritora questiona a forma a ser dada ao livro, transpondo nas últimas páginas as reflexões de seu diário de escrita (L'Atelier noir, 2011) à maneira de O tempo redescoberto, de Marcel Proust: "A forma de seu livro só pode surgir através de uma imersão nas imagens de sua memória para detalhar os signos específicos da época, [...], esse rumor que traz incessantemente as formulações incessantes do que somos e devemos ser, pensar, acreditar, temer, esperar". Daí o título inicialmente considerado por Ernaux, “autobiografia vazia”, convencida de que "nosso verdadeiro eu não está inteiramente em nós", segundo a fórmula que ela toma emprestado de Rousseau. Em seguida, retoma o conceito de memória coletiva do sociólogo Maurice Halbwachs, buscando "encontrar a memória da memória coletiva em uma memória individual, [para] transmitir a dimensão vivida da História" (Os anos). Renunciando à primeira pessoa em favor da terceira, contrabalança-a com a enunciação plural: "não há 'eu' no que ela vê como uma autobiografia impessoal, mas 'nós' e 'a gente' ― como se, por sua vez, ela estivesse contando a história dos dias passados" (id).

O livro, que abrange meio século de existência, torna-se assim atento à vida comum, aos objetos em uso, desde a escassez dos anos do pós-guerra até a profusão da sociedade de consumo. Nele, a escritora se torna etnóloga (O lugar foi por muito tempo intitulada "Elementos para uma etnologia familiar"[5]), ecoando os trabalhos realizados por pensadores como Roland Barthes (Mitologias, 1957), Henri Lefebvre (Critique de la vie quotidienne, 1958) ou Michel de Certeau (A invenção do cotidiano, 1980). Agora, trata-se menos de estabelecer divisões sociais e mais de mostrar como os objetos, usados por todos, desenham uma época, enquanto as conversas durante as refeições em família, que pontuam a narrativa, mostram o progressivo apagamento das questões históricas e dos assuntos políticos: "No curso da existência pessoal, a História não significava nada"[6] e "As pessoas se agarravam ainda mais a uma existência melhor graças às coisas"[7]. Esses objetos são como "lugares de memória", mas mais triviais do que os selecionados por Pierre Nora[8], eles estão fundidos no século e destinados a desaparecer nele. Portanto, um dos desafios do livro é resgatá-los do esquecimento: "Salvar algo do tempo em que nunca mais estaremos"[9]. A escrita então se entrega a um lirismo contido, expressão de uma melancolia que confere ao livro sua tonalidade crepuscular.

Annie Ernaux não apenas representou o determinismo, mas também mediu seu impacto sobre si mesma, interrogando o esforço contraditório para se libertar dele e a humildade em consentir, a reivindicação de se reconhecer nele e o sofrimento que isso induz. Ela inventa formas de capturá-lo da maneira mais precisa possível: "Uma escrita sem julgamento, sem metáfora, sem comparação romanesca, uma espécie de escrita objetiva que não valoriza nem desvaloriza os fatos narrados", escreveu ela em O lugar. No entanto, não se trata apenas de uma objetivação pura de si: a experiência vivida permanece demasiado carnal, demasiado presente emocionalmente para ser lida apenas enquanto fruto da  distância crítica. Muitas escritoras testemunharam sua dívida para com essa forma de deontologia literária, mas também homens (Philippe Vilain, Patrice Robin, Didier Eribon, Edouard Louis, Nicolas Mathieu, Eric Vuillard...), porque essa obra, amplamente adaptada para o teatro e várias vezes levada ao cinema (L'autre, baseado em L'Occupation por Pierre Trividic e Patrick Mario Bernard, 2008; Passion simple por Danièle Arbid, 2020; L'Événement por Audrey Diwan, 2021), não fala apenas às mulheres: ela é universal. É isso que lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura, concedido em 2022.

Referências

[1] Annie Ernaux, Écrire la vie, Gallimard, coll. « Quarto », 2011.

[2] Annie Ernaux, «Annie Ernaux ou l’autobiographie en question» (Entretien avec Philippe Villain), Roman 20-50, n°24, 1997, p.143.

[3] Annie Ernaux, « Bourdieu, le chagrin », Le Monde, Janvier 2002.

[4] Annie Ernaux, entretien, « Passion amoureuse et révolte politique, cela va de pair » Rue 89, 10 décembre 2011.

[5] Annie Ernaux, «Raisons d’écrire», in Dubois J., Durand P., Winkin Y., La Réception internationale de Pierre Bourdieu, Presses universitaires de Liège, 2005, p. 345.

[6] Les Années, p.95

[7] Id., p.71.

[8] Pierre Nora (ed.), Lieux de mémoire, Gallimard, 1984.

[9] Les Années, p.254



Ana Kiffer

É Professora da Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, Cientista do Estado pela FAPERJ e Bolsista de Produtividade no CNPq. Curadora convidada da Bienal de SP 2021. É escritora, autora dos livros Tiráspola e Desaparecimentos, Editora Garupa, 2016, A punhalada, 7Letras, 2016, Todo Mar, Urutau, 2018; colunista da Revista Literária Pessoa, pesquisadora da obra do escritor francês Antonin Artaud, vem desenvolvendo há muitos anos uma investigação sobre os diversos modos de relação entre os corpos e a escrita. Autora do livro Antonin Artaud, EDUERJ, 2016, e com Gabriel Giorgi, Ódios Políticos e Politica do Ódio, RJ: Bazar do Tempo, 2019 e Las Vueltas del ódio, BA: Eterna Cadência, 2020. Organizadora do livro A Perda de Si – cartas de A. Artaud, Rocco, 2017; e das coletâneas: Sobre o Corpo, 7Letras, 2016, Expansões Contemporâneas: literatura e outras formas, com Florência Garramuno, UFMG, 2014, entre outros artigos e ensaios.  Foi curadora, em 2020, da exposição Corte/Relação dos cadernos de Antonin Artaud e de Édouard Glissant. Para a 34ª Bienal de São Paulo. Em 2021, estreou seu primeiro romance O Canto Dela, pela editora Patuá. Fotografada por Dani Neves.




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