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Efeito Ernaux, por Mateus Baldi e Gabriel Martins

ETIENNE GIRARDET



2023-08-05

Cartografia da vergonha

Mateus Baldi e Gabriel Martins da Silva

 

Diferentemente d’Os anos, o livro mais célebre de Annie Ernaux, narrado em terceira pessoa, A vergonha é enunciado desde a primeira pessoa. Se o primeiro desejou fazer uma espécie de retrato de época, um mapa da sociedade francesa, um tipo de biografia coletiva, já o segundo volta-se mais detidamente à subjetividade da autora, atenta às observações próprias da trajetória individual de uma jovem no trânsito entre classes, usufruindo da mobilidade social capitalista e devidamente balizada pelas restrições seculares da sociedade francesa e pelo seu ranço aristocrático incrustado no tecido social. Evidentemente, vemos que o livro é narrado por uma figura madura, texto de escritora experiente, no qual, em pleno domínio do cânone da sociologia francesa do século XX, quer dizer, versada nas noções de distinção, herança, habitus, e todo o rol de categorias bourdiezianas, Ernaux passa a limpo seu próprio percurso social, sublinhando pequenos momentos e situações, a partir do olhar arguto de alguém que sabe o tamanho dos abismos de classe no coração do humanismo ocidental.

 

Seu livro é aberto pelo drama de uma cena violenta: “Meu pai tentou matar minha mãe num domingo de junho, no começo da tarde”. Esta imagem, que assombra o texto ― e provavelmente a própria autora ―, figura como uma espécie de ausência no livro, que calibra e alavanca o resto da narrativa. Assim, nos silêncios próprios de situações limite como essa, a narrativa, ancorada no testemunho pessoal da narradora em primeira pessoa, se expande num arremedo de outros tantos casos de mulheres violentadas ou de filhos e filhas de casais que experimentam o ensurdecedor de relações sem desagravo. Isso porque, apesar de localizada numa forma literária que precisaria limitar-se à dimensão privada, sua escrita acaba por transbordar seus próprios limites de modo a apresentar-se como metonímia das muitas histórias marginalizadas ― sobretudo num país como a França, berço do ideário liberal, da igualdade política, ou ainda, da cartilha que rege parte das relações sociais do Ocidente, mesmo que de fundo ideológico.  

 

A menos de 20 páginas do final do livro, Ernaux presta contas do que acabou de narrar: lançou luz “sobre os códigos e os círculos” nos quais estava encerrada; fez “um repertório das linguagens” que lhe atravessavam e que constituíam a percepção de si mesma e do mundo. Ainda assim, “em nenhum lugar havia espaço para a cena daquele domingo de junho”, quando seu pai, após uma discussão, tentou matar sua mãe – cena essa impossível de ser dita a qualquer pessoa, em nenhum de seus dois mundos, conforme destaca. Ou seja, aquela ruptura proporcionada pela família – como tantas outras – era também uma ruptura dupla, interior e exterior dinamitados pelo fato de terem deixado de pertencer “à categoria das pessoas que não bebem, não batem umas nas outras e se vestem de modo adequado para ir à cidade”. Segundo Ernaux, ela havia entrado “no território da vergonha”.

 

Há algo de sub-reptício em toda essa tessitura, e que vale a pena ser esmiuçado, ainda que em um texto breve como este. A transmissão da vergonha, no gesto do pai contra a mãe que acaba por contaminar a filha que , se dá menos no público que no privado. É importante lembrarmos que se trata de uma época, de uma história social tão fortemente lastreada pela vigilância coletiva que nem mesmo o fato de o assunto desaparecer nas conversas familiares é capaz de demover Ernaux do incômodo provocado. “Vamos lá, chega”, diz seu pai, e os três saem “para andar de bicicleta numa área rural que ficava nos arredores”.

 

Como é próprio dos projetos autobiográficos, a rememoração é enxertada pela imaginação, na medida em que não se trata de um esforço de reconstituição do passado simplesmente, mas num trabalho de memória, que instaura e interrompe a narração dos fragmentos de uma história pessoal, todos devidamente encadeados e entrecortados pela narração consciente das cisões de classe e gênero no interior da França do século XX. Esta última característica ― a intrusão crítica da narradora na própria rememoração ― é algo da ordem do que começa a se chamar “autossociobiografia”, quer dizer, esse misto de autobiografia, sociologia e ensaio, de que Edouard Louis, Didier Eribon e a própria Ernaux são os expoentes mais célebres em solo francês. Assim, a descrição de tom ensaístico serve, no limite, para a mecânica sociológica ― que, por vezes, poderia beirar o didatismo, ou ainda o uso instrumental da narrativa como mera ilustração dos insights de interpretação social, mas que, por sua arguta sofisticação de escritora, passa ao largo desse fraco literário. Porém, se pudéssemos extrair algo da experiência autobiográfica de Ernaux, de modo a dobrar a aposta da própria autora, encontramos, n’A vergonha, um forte e comovente texto sobre as diferenças de gênero e classe e a violência que subjaz às relações que se instalam nos limites dessas distinções sociais.

 

Mas há algo além. Em um perfil publicado na New York Times Magazine em maio de 2023, a escritora Rachel Cusk escreve sobre a vida e a obra de Annie Ernaux. Para Cusk, cujo texto foi publicado no Brasil pela revista QuatroCincoUm em tradução de Mariana Delfini, ela mesma uma autora que se viu no fogo cruzado dos críticos após publicar um livro em que reflete sobre a experiência da maternidade, há na escrita de Ernaux pouquíssima coisa que enfatize uma experiência pessoal, mas sim algo que se aproxima de uma “quase autoviolação”. Para Cusk, Ernaux entendeu que, “como filha da classe operária do interior, o seu ser era o seu único bem autêntico neste mundo, portanto o único lugar onde ela poderia assentar a legitimidade da sua arte”. Ou seja, “havia uma relação muito específica entre quem ela era como escritora e quem era como mulher: ambas habitavam o mesmo corpo. Era a esse corpo que ela estava confinada, concreta e artisticamente — ao seu destino social e econômico, às suas limitações de gênero, de localização geográfica e de tempo”.

 

Em Os anos, essas questões colocadas por Cusk surgem já na primeira frase: “todas as imagens vão desaparecer”. Não se trata de um apontamento estético do juízo de valor das imagens, mas sim de uma deriva que encapsula um projeto literário: todas as memórias sumirão. Por isso é preciso lembrar. Apesar da vergonha, apesar do medo, apesar de tudo. Daí o espanto da crítica francesa quando se depara com o anúncio de um Nobel para uma mulher que só fala de si. Porque para esses homens, ou ao menos essas figuras muito aderidas ao seu tempo, falar de si é produzir memórias nítidas de uma existência, algo que revaloriza e ultrapassa a fronteira da literatura e se torna um problema de psicologia – a grande ópera dos homens, das classes altas, esse reforço em todas as camadas daquilo que se é, daquilo que são. Quando Rachel Cusk aponta a autoviolação de Annie Ernaux, o que entra em jogo não é mais uma memória pessoal, particular, mas sim o território próprio da sociobiografia, em que o auto é menos um apêndice do que um meio. A autossociobiografia de Annie Ernaux é a parábola do descobrimento de um corpo, de uma sexualidade, de uma possibilidade de autogênese. Ou, como escreve Rachel Cusk, “ainda que ela não saiba disso, o seu isolamento — o único resultado tangível, na verdade, de sua excepcionalidade — é imenso. Essa excepcionalidade é o grande tema e o problema da obra de Annie Ernaux, o Outro com quem ela discute livro após livro, e que ora toma a forma da culpa e da vergonha, ora de uma liberdade selvagem e vertiginosa”.

 

Que essa estrutura do Outro, via eu, seja narrada em fragmentos de tamanhos e distâncias desordenados é o toque de mestre. Se existe um Outro, Ernaux parece dizer, e ele nos diz alguma verdade sobre quem somos, então “a vergonha é a outra face da verdade”, conforme aponta Cusk em relação a seu projeto literário: “ela usa a vergonha como um mapa, a sua presença em diversos pontos da história dela a conduz infalivelmente para o ocultamento do eu, enterrado debaixo dessa vergonha”.

 

E se falamos em mapa, podemos recordar a definição do historiador de mapas John Brian Harley, que classifica mapa como “tanto um inventário, um ato de posse que propicia a vigilância e o controle jurídico do território, quanto um panorama que permite a atuação sobre o mesmo”. Não é isso o que Ernaux mobiliza em seus livros, especialmente em A vergonha? Um inventário dos afetos, um ato de posse sobre a origem, um panorama que promove a genealogia da vergonha? Mais: um homem que traça esse mapeamento não seria capaz de alcançar com exatidão os lugares a que Ernaux chega. Pelo menos não a maioria deles. Poderíamos apontar como exceção, mesmo que lateralmente, a figura de Didier Eribon, que descreve um outro tipo de vergonha, também ancorada na figura do pai, margeado pela posição difícil de homossexual em plena “França profunda”, posição social que deixa entrever aquilo que alguns teóricos chamam de “fratura francesa”, ou seja, no meio conservador dos espoliados pelas políticas capitalistas ou ainda no centro do debate moral caro aos processos de globalização.

 

Em Annie Ernaux existe algo de muito próprio em uma mulher romper com esses limites e se transformar na cartógrafa da vergonha, do erótico, do desejo, da longa estrutura patriarcal que se arrasta pelos continentes brandindo o emblema da vergonha diante de quem ousar sair do rumo. Que o fato de ser a primeira autora francesa a ganhar o Nobel mobilize críticas tão rasteiras e misóginas como as veiculadas em pleno 2022 não pode ser lido como algo menor do que um sintoma. Não do desespero, que existe. Mas da mudança. Lentamente, uma vergonha ainda mais ancestral começa a se levantar enquanto luta, inútil, contra o inevitável dos escombros. Uma vergonha que não é feminina ou subalterna; antes, esteve o tempo todo escorada nesta, fingindo-se de morta. Uma vergonha que se acusará e, lançando sobre o abismo o alvo do crepúsculo, o colocará em seu devido lugar.



Ana Kiffer

É Professora da Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, Cientista do Estado pela FAPERJ e Bolsista de Produtividade no CNPq. Curadora convidada da Bienal de SP 2021. É escritora, autora dos livros Tiráspola e Desaparecimentos, Editora Garupa, 2016, A punhalada, 7Letras, 2016, Todo Mar, Urutau, 2018; colunista da Revista Literária Pessoa, pesquisadora da obra do escritor francês Antonin Artaud, vem desenvolvendo há muitos anos uma investigação sobre os diversos modos de relação entre os corpos e a escrita. Autora do livro Antonin Artaud, EDUERJ, 2016, e com Gabriel Giorgi, Ódios Políticos e Politica do Ódio, RJ: Bazar do Tempo, 2019 e Las Vueltas del ódio, BA: Eterna Cadência, 2020. Organizadora do livro A Perda de Si – cartas de A. Artaud, Rocco, 2017; e das coletâneas: Sobre o Corpo, 7Letras, 2016, Expansões Contemporâneas: literatura e outras formas, com Florência Garramuno, UFMG, 2014, entre outros artigos e ensaios.  Foi curadora, em 2020, da exposição Corte/Relação dos cadernos de Antonin Artaud e de Édouard Glissant. Para a 34ª Bienal de São Paulo. Em 2021, estreou seu primeiro romance O Canto Dela, pela editora Patuá. Fotografada por Dani Neves.




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