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A sintaxe do jogo



2015-04-21

Repetições

Ricardo Lísias apresentou seu livro Concentração e outros contos no ciclo Literatura Brasileira Hoje, organizado pelo ensaísta e professor João Cezar de Castro Rocha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Tenho que escrever uma crônica com reflexões e impressões sobre o que acaba de acontecer. Começo a descer as escadas da UERJ enquanto penso no que vou contar. O Instituto de Letras encontra-se no 11º andar de um edifício modernista. Tenho tempo suficiente para anotar alguns pensamentos.

Se repetição e variação são ideias centrais para pensar a escrita de Lísias, e sobretudo deste novo livro, que “concentra” quinze anos de carreira, posso usá-las para estruturar meu relato. Além disso, descer as escadas da UERJ também é uma experiência de repetição com mínimas variações...

Pois bem, começo a rememorar: o que acaba de acontecer hoje? Um escritor foi convidado por uma universidade para manter um diálogo com os alunos e, logo depois, lançar seu livro novo.

Repetindo (com variações): um escritor paulista foi convidado para dar uma palestra no Rio. Penso: a cidade foi pouco a pouco deixando de ser o centro literário do país, tornando-se cada vez mais ficcional – “Era no tempo do Rio...”.

Mas isso não é novidade.

Repetindo (com outras variações): um escritor foi convidado para dar uma palestra sobre sua obra literária em uma universidade. Penso: tanto nas palestras de escritores quanto nas Faculdades de Letras, costuma-se falar pouco sobre textos literários, pois todos parecem mais interessados na figura do autor, em processos criativos, ou em conceitos pouco produtivos. Mas o realmente inusitado é que nada disso aconteceu. A palestra de Lísias foi um diálogo sobre literatura, linguagem e política, reunindo escritor e alunos, professores e outros escritores que lá estavam presentes numa sala repleta. Um diálogo que traçou o percurso de todos seus livros. Desde O cobertor de estrelas (hoje inexistente nas livrarias, mas que se pode achar por três reais, ou mesmo cinco se alguém quiser comprar junto um pão de queijo, como garante Lísias, que estava bastante à vontade, e fazendo piadas, sobretudo, de si mesmo), passando por Anna O e outras novelas, O céu dos suicidas, O livro dos mandarins e, claro, Divórcio, até o conto mais novo da coletânea que estava sendo apresentada, “Autoficção”. Como já sabemos que a literatura de Lísias está intimamente relacionada com o conceito de “autoficção”, então só resta respirar fundo e… Contudo, o tema já tinha sido esgotado na conversa com os alunos da pós-graduação e, por isso, praticamente não foi repetido na palestra. Alívio. Ainda bem. (“Sinto que o termo autoficção me persegue como o pássaro de Birdman…”, brincou). E ainda bem que naquela conversa com os estudantes o conceito não ficou claro e nem o mesmo Lísias soube explicá-lo, pois isso nos ajuda a seguir pensando a sua literatura. Como estou agora pensando, e já me encontro no nono andar.

Na conversa com os estudantes, falou-se, então, de conceitos. Há um tipo específico de autoficção francesa, alemã, em espanhol... seria ele o representante de uma autoficção à brasileira? Lísias não respondeu, mas deixou claro que o conceito o incomoda enquanto for usado para “despolitizar” a sua literatura, e que se sente mal como autor com esse termo, e com a confusão toda que ele gera. “Detesto confusão, embora não pareça...”. Todos rimos. A confusão é a do autor com o narrador e com o autor de novo falando na imprensa, e com os jornalistas confundindo um e outro, e a crítica literária usando o que os jornalistas escreveram e o autor de novo falando contra jornalistas e críticos que...  Será que ele detesta mesmo?, eu me pergunto e rio agora também. Mais um andar igualzinho ao outro. Cantina, xerox. Os textos de Lísias sempre apontam à ficção. Isso fica bem claro. Quando chegar em casa, vou procurar as citações; de fato, o momento em que a ficção destrói o relato “da verdade” é quase material. Penso em César Aira. A literatura é a rainha das artes, ele disse em uma entrevista. Tudo pode ser feito na literatura. Até tornar personagem ao autor, e tornar real um personagem, penso, como acontece para vários dos seus leitores  com a figura do personagem e do autor Lísias.

Ele reconheceu que não lidou bem com toda aquela polêmica no começo de sua trajetória. Em determinado momento, uma aluna pergunta: “Você precisa mesmo se importar com essa questão?” Ele respondeu que o ideal seria que não. Risos. Silêncio. “Mas eu me importei”. Porém, agora, se apaziguou, mas só depois do que considerou uma quase vingança: “O delegado Tobias”. Junto com a editora e-galáxia fizeram correr o boato nas redes sociais de que um texto seu teria sido proibido, assim como uma discussão com um falso delegado, para o qual criaram um perfil. Os jornais “caíram” e “não fizeram a coisa básica”: pesquisar, consultar advogados. Simplesmente, acreditaram. Então, ele passou a se divertir com certos aspectos da imprensa, sobretudo a de ser “tão primária”.

Lísias não só criticou a imprensa (isso ele fez sarcasticamente, e com evidente prazer), mas também o meio literário brasileiro, dizendo que não é “um meio de resistência”, pois acompanha as características da sociedade brasileira: “é machista e voltado para a economia mais selvagem”. Mais um andar igual. Embora veja que alguns que parecem ser melhores do que o 11º.


Variações

Alguns minutos depois da conversa com os alunos, começou a palestra, e o livro novo passou a ser o foco de atenção. Além de um ou outro romance, os assistentes tinham lido vários contos (ou novelas) do livro, pois os textos tinham circulado com antecedência.

Primeira variação: na sala havia leitores.

Tanto os assistentes quanto o escritor estavam preocupados em falar sobre questões formais, procedimentos literários. As ficções reunidas no livro Concentração mostram uma verdadeira arte combinatória de temas, figuras, lugares. Solidão, dificuldade de comunicação, xadrez, Buenos Aires, quedas, dor física, emocional. O livro é uma boa prova de uma arte narrativa pessoal: não há dúvida de que Lísias conta com um projeto literário particular e é uma voz forte na literatura brasileira.

As perguntas revelam interesse pelo narrador dos seus textos; esse narrador muitas vezes entrecortado. Os narradores geralmente usam a primeira pessoa, um “eu” que se constitui sempre em jogo com pressões externas que buscam desequilibrá-lo, resume Lísias. Penso na mãe e na filha do conto “Dos nervos”, conto que traduzi[i], cuja (re)escrita acompanhei: o processo de queda da personagem da filha, o isolamento, a impossibilidade de se comunicar com o outro – e que ela acaba inventando, ao mesmo tempo que vai desfiando a sua linguagem em repetições e sintaxes delirantes. “A desestruturação está na mesma estrutura do texto”, diz Lísias, “em aspectos do discurso, da gramática do discurso, da coerência. Às vezes os personagens perdem a capacidade de comunicação, e vão para o nonsense, como as nossas sociedades”. Para ele é importante pensar a estrutura (e a desestruturação) dos seus textos em relação com a estrutura (e a desestruturação) da sociedade. Aqui reside um dos gestos políticos da sua literatura – uma relação, um diálogo tecido na mesma estrutura do texto literário.

O “eu” dos contos de Ricardo Lísias (“eu” que às vezes se chama Ricardo Lísias) pode ser, na verdade, um “nós”, diz o autor. Pode ser qualquer um, pois qualquer pessoa pode ser levada a viver essas experiências, como a perda do amigo – em relação com O céu dos suicidas – ou ter dificuldades de constituir uma vida segura no nosso meio desestruturado – como em Divórcio. Mas há um outro “eu”, um sujeito que não tem como se equilibrar, como em “Concentração”, cuja queda é literal. Assim, haveria nos seus contos um jogo de aproximações e de distâncias entre leitor e narrador. Para Lísias, a construção deve estar aberta, mostrar-se como artifício, para que o leitor possa fazer a sua própria construção: o leitor deve ser uma figura ativa nesse jogo.

E como é de jogo que falamos, não posso deixar de mencionar que se falou no jogo de xadrez, praticamente um personagem ou elemento estruturador dos seus textos. (Ah, quase esqueço, junto com o livro foi produzido, como parte da promoção, um jogo de varetas que foi repartido entre os presentes). Concentração e outros jogos, deveria ser talvez o título. João Cezar: “Você consegue transformar o jogo de xadrez em uma forma literária”. E Lísias (numa das frases mais interessantes do encontro): “O jogo de xadrez é uma linguagem muito ligada à linguagem verbal, um embate de planos com recursos reduzidos; assim enxergo a linguagem: dados esses recursos, eu preciso organizá-los, e sei que não necessariamente vai dar certo.” Melhor do que falar em processos criativos! Embora tenha falado de alguma maneira em como elabora seus textos, sobretudo seus romances, a partir de pesquisas. Esse processo de pesquisa é o que ele mais gosta na literatura, pois em sua transformação em texto ficcional se perde muita coisa, o que é angustiante. Para O céu dos suicidas, fez a pesquisa de como a filosofia, a religião, a legislação pensam o suicídio; para O livro dos mandarins estudou o universo bancário e financeiro; os moradores de rua em O cobertor de estrelas. Seu novo livro tem alguma coisa de facebook, youtube e câmeras de vigilância... “Fico procurando o que seria relevante nesse grande mundo das coisas que estão acontecendo”.

Quando presto atenção nas coisas que estão acontecendo, percebo que estou quase no térreo e tomo as últimas notas para não esquecer o que vou escrever. “Mandar por e-mail três perguntas para Lísias”. Vou chegando ao final das escadas da UERJ (vejo que há um esqueleto de dinossauro em frente à biblioteca), e noto, ao rememorar o encontro, que longe de ter ouvido elogios desmedidos ou críticas negativas, falamos em personagens, narradores, leitores e sua potencialidade literária e política. O que não é pouca coisa para uma palestra na academia de um escritor cuja obra adquiriu muita relevância ao lidar (se divertindo o autor ou não) com a imprensa e brincar com sua própria figura de escritor entre a realidade e a ficção. Penso que afinal foi mudada a sintaxe do jogo: houve mais variações do que repetições.


Três perguntas para Ricardo Lísias

1. Pensando a relação entre sua literatura e o jogo, qual é o jogo que você gosta (ou gostaria) de propor ao leitor? Quais são os movimentos que você espera dos leitores (penso, também, nos leitores acadêmicos)? 

Eu gostaria que o leitor fosse independente para construir leituras próximas ao seu mundo, que levasse meus textos para um universo que importa para eles, que fizessem seus próprios planos de leitura, suas propostas e seus caminhos. Enfim, que tivesse a liberdade de tornar meus escritos algo que importe sobretudo para o seu próprio universo. Pensando agora não sei se posso falar de apenas um “leitor acadêmico”. A universidade é muito grande, com muita gente diferente, de tendências muito distintas: acontece de tudo. No geral, meu diálogo com a universidade é muito produtivo. Estive na UERJ há uma semana e ontem fui à USP e nos dois lugares a conversa foi ótima, como já havia sido em outras universidades. Acho apenas que o leitor exigente deve intensificar o que citei anteriormente: os melhores ensaios são os mais criativos!


2. Buenos Aires é um elemento que aparece com frequência nos seus textos. Qual é a produtividade literária dessa cidade? Que leituras da literatura argentina foram importantes para você como leitor e como escritor?

Buenos Aires é a cidade que mais visitei na vida. Tenho uma grande “vontade” de ser latino-americano – e é mais difícil ser latino-americano para um brasileiro do que para os outros habitantes da região... e sinto em Buenos Aires essa pulsação latina que tanto me interessa. Por lá encontro esses resquícios de uma latinidade que não sinto completa em mim.

A literatura argentina por completo é importante para mim. Os contos de Rodolfo Walsh, por exemplo, a obra de Ricardo Piglia, me diverti bastante com os livros tão inusitados de Pablo Katchadjian na última Bienal de Buenos Aires. Li com muito interesse o recém falecido Arnaldo Calveyro. São muitos nomes, por exemplo os contos incríveis de Fogwill, o último romance de Leopoldo Brizuela e por aí vai. Sem dizer que o pensamento de Beatriz Sarlo me parece incontornável.


3. Como organizou a seleção e a sequência dos contos? Essa organização esclarece seu projeto literário? Na palestra você disse que o conto que mais gosta é “Evo Morales” e o que menos gostava é “Autoficção”. Por quê?

A sequência dos contos nesse primeiro livro procurou dar uma coerência tanto temática quanto formal ao trabalho. Acho que a leitura vai mostrando os diferentes narradores e as aproximações distintas aos temas tratados, afinal de contas poucos. O meu projeto é esse e no livro me parece representado, inclusive com tudo que fica nas arestas, que não se conclui e nem se representa com o mínimo de clareza. Quanto aos meus gostos pessoais, minha reserva com “Autoficção” é meramente ocasional, bem como meu gosto por “Evo Morales”, muito intuitivo. Mas afinal de contas sou um leitor como outro qualquer dos meus textos, e talvez não seja, por muitas razões diferentes (por exemplo por ser o autor, por um lado, e por outro por que tenho leitores realmente muito aparelhados, bem melhores que eu – e que me ensinam muito) o mais indicado para falar.

[i] Tradução disponível em Cuentos en tránsito. Buenos Aires: Alfaguara, 2014.

Curadoria de João Cezar de Castro Rocha.



Julia Tomasini
Julia Tomasini é tradutora argentina e estudante de doutorado da UERJ. Traduziu para o espanhol, entre outros autores, Carola Saavedra, José Miguel Wisnik e Vilém Flusser. Edita a página de tradução de literatura brasileira contemporânea brasilpapelessueltos.com e a revista eletrônica Galerias.



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