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Ousadia é a marca de antologia que será lançada em Paris



2015-03-09

A edição especial da Pessoa – Salão do Livro de Paris 2015 reúne 27 autores  brasileiros (prosa, poesia, infantojuvenil e teatro), de diversas regiões do país.

A antologia abarca as múltiplas vozes da literatura brasileira, com trechos de obras de escritores com sólido reconhecimento no Brasil, mas pouca visibilidade no cenário francófono. São eles: Evandro Affondo Ferreira, Elvira Vigna, Alexandre Vidal Porto, Andrea Del Fuego, Jacques Fux, Tércia Montenegro, Alexandre Staut, Luisa Geisler, Amilcar Bettega, Luci Collin, Ana Martins Marques, Eucanaã Ferraz, Alice Sant’Anna, Nuno Ramos, Mariana Ianelli, Heitor Ferraz Melo, Dora Ribeiro, Moacir Amâncio, Ana Elisa Ribeiro, Alberto Bresciani, Daniel Munduruku, Cintia Moscovich, Lúcia Hiratsuka, Maria Valéria Rezende, Fernando Vilela, Paula Autran e Leo Lama.

Para o organizador, Leonardo Tonus, o que mais o impressionou ao ler os textos que compõem esta antologia é a sua ousadia, tanto no que diz respeito à busca de novas formas de expressão como nos  temas abordados. Em sua opinião, a marca registrada de nossa literatura contemporânea já descomplexada repousa justamente em sua capacidade de romper com aquilo que é esperado.  Confira abaixo entrevista de Leonardo Tonus à revista Pessoa.

Pessoa - Como nasceu o projeto desta antologia?
Leonardo Tonus - Conheço o  belíssimo trabalho realizado por Mirna Queiroz desde o lançamento do primeiro número da Revista Pessoa em 2010. Na altura tornamo-nos amigos no facebook e mantivemos (e ainda mantemos) um diálogo intenso, aberto e franco sobre nossa paixão comum: a literatura.  Em vista do próximo Salão do Livro de Paris em 2015, lembro-me ter evocado a Mirna, em uma de minhas mensagens, a situação da literatura brasileira na França. Apesar do acréscimo significativo de obras brasileiras traduzidas para o francês, constatava (e ainda constato) certa carência de títulos,  autores e gêneros de nossa literatura no mercado editorial francês. O teatro brasileiro é praticamente inexistente na França, sem mencionar a poesia, a literatura infantojuvenil  e até as ciências humanas,  como se o Brasil  não fosse capaz de produzir pensadores. Deste bate-papo virtual surgiu em 2013, entre curtidas, comentários e mensagens, a idéia de publicarmos uma antologia de autores contemporâneos nacionais traduzidos para o francês. Idéia maluca, pois na altura não dispúnhamos de subsídios (e ainda dispomos de poucos) para a realização do projeto. Que importância! O que contava  (e ainda continua a contar)  era a nossa paixão comum e maluca pela literatura e o desejo de divulgá-la fora do país.  Em junho de 2014 tive a felicidade e a honra de ter sido nomeado Conselheiro Literário pelo Conseil National du Livre na França para o próximo Salão do Livro de Paris de 2015. O projeto da antologia, já em andamento, ganhou então sentido e percebo hoje  que ambos os trabalhos de curadoria tornaram-se complementares.

Pessoa - Quais os seus critérios para a escolha dos autores?
Leonardo Tonus - Critérios, critérios, that is the question! Lembro-me sempre de uma grande amiga escritora que brinca com minha obstinação por querer estabelecer critérios. Sim, eles existem e foram primordiais na elaboração desta antologia, como o são aliás em minhas atividades de pesquisador, pedagogo, professor universitário ou simples cidadão. A literatura brasileira conhece hoje um período fasto de sua história. Nunca se publicou tanto como nos últimos tempos. Mas a velha pergunta ressurge: como separar o joio do trigo? Aliás, será esta a função de um curador que, também pesquisador e professor de Literatura, tenta manter-se isento às forças que caracterizam o campo literário ? Os critérios estabelecidos na escolha dos autores desta antologia não são valorativos. Pelo contrário, eles  respondem antes à pluralidade de uma produção que, como afirma meu colega Ricardo Barbera (PUC RS), é e busca cada vez mais ser constelatória. Em suma, critérios sim, sempre, mas somente se conduzirem a uma postura ética que leve em conta as pluralidades  de gênero (também literários) e as constelações editoriais, geográficas e etnoculturais que caracterizam as nossas letras.

Pessoa - Que você encontrou nesse time de autores que pode interessar o mercado editorial francês?
Leonardo Tonus - Todos os  autores desta antologia podem interessar o mercado editorial francês que parece começar a querer desconstruir  os  preconceitos exotizantes de que a literatura brasileira sofria (e por vezes ainda continua a sofrer) fora do país.  O que mais me impressiona ao ler os textos dos autores quem compõem esta antologia é a sua ousadia tanto no que diz respeito à busca de novas formas de expressão como nos  temas abordados. Em minha opinião, a marca registrada de nossa literatura contemporânea já descomplexada repousa justamente em sua capacidade de romper com aquilo que é esperado.  Sua ousadia é também o seu principal trunfo para penetrar o mercado editorial estrangeiro e ir ao encontro de novos leitores. Mas para isso ela necessita de traduções e trabalhos ousados  como este que estamos publicando.

Pessoa - Como você avalia a produção literária brasileira contemporânea?
Leonardo Tonus - Excelente, boa, mediana, ruim e péssima. Volto ao meu joio, que nem imagino como seja por nunca ter vivido no campo. Trigo é bom? Sim. O Joio é ruim? Sim. Mas sem joio, o trigo não existe.  Sem joio, o mundo  é de um tédio avassalador.  Por outro lado, afirmar que a literatura brasileira conhece atualmente um momento fenomenal reitera, em minha opinião, um lugar-comum de grande repercussão na mídia atual que, por meio de um discurso eufórico (e ideológico), tende a vincular a produção literária nacional à vitalidade econômica que o país (ou parte dele) conheceu. Produz-se muita literatura no Brasil. Publica-se muita literatura no Brasil. Literatura-trigo. Literatura-joio. Todavia, tomar como parâmetros, indicadores valorativos, quantitativos e mercadológicos, sem analisar a situação real da produção e da circulação da literatura brasileira no país e no estrangeiro é uma falácia. Como explicar que num país com mais de cem milhões de leitores potenciais, as tiragens de autores nacionais raramente ultrapassem três mil exemplares? Como entender a pouca visibilidade dos escritores situados fora dos eixos da agitação cultural e de suas redes de influência? Como compreender, finalmente, o pouco interesse na divulgação da literatura contemporânea brasileira no exterior? Sim, muita coisa mudou: nos últimos anos a taxa de analfabetismo no Brasil diminuiu drasticamente, o número de editoras multiplicou-se no país, uma parte da literatura nacional concedeu voz aos afásicos sociais, as feiras de livros nacionais e internacionais têm transformado os escritores em novos produtos de consumo. O que me leva a concluir que, de fato, a literatura brasileira está num momento muito bom, muito bom mesmo, sobretudo por expor publicamente suas velhas e incuráveis mazelas, o seu joio sem o qual o trigo não sobreviveria.

Pessoa - Por último, com o trabalho que você já vem desenvolvendo há anos de divulgação da literatura brasileira na França, você acredita que iniciativa como a dessa antologia tem espaço para se tornar contínua, não ficando presa a um evento isolado?
Leonardo Tonus - Resido na França desde 1988 e atuo como professor de Literatura Brasileira na Sorbonne há mais de 14 anos. Nestes já quase 27 anos de casamento com a França (bodas de prata lavrada?)  presenciei, entre outras, a homenagem do Brasil no Salão do Livro de Paris em 1998, o ano da França em 2005, a Copa do Mundo de 2014, a crise do ensino de português na França ao longo da década de 1990, os imigrantes brasileiros clandestinos em Paris,  o seu retorno após o plano Real, a abertura e o fechamento dos Departamentos de Estudos Lusófonos em várias universidades francesas, o Honoris Causa de Jorge Amado na Sorbonne, o aumento de traduções para o francês de obras brasileiras. Tantas e tantas aventuras franco-brasileiras epifânicas, trágicas, maravilhosas mas sempre incapazes de amenizar as crises matrimôniais entre nossos dois países e entre nossas  culturas. O Salão do Livro de Paris de 2015 constituirá um momento mágico na promoção de nossa literatura na França e do casamento franco-brasileiro. Mas, como toda magia, ele corre o risco de se limitar ao seu aspecto performático entretendo o público e dando-lhe a ilusão de que algo impossível ou sobrenatural ocorreu.  Que pena! que desencontro! que perda!, como diria o poema Meu Assassino, de Alice Sant’Anna presente neste antologia. Felizmente iniciativas ousadas como esta lançada pela Revista Pessoa  continuarão a existir! Então, que a magia continue!

Além de presente no Salão do Livro de Paris, que este ano homenageia o Brasil, a antologia terá uma festa de lançamento, encerrando o Printemps Littéraire Brésilien (Université Paris-Sorbonne), no espaço cultural Lusofolies (Viaduc des Arts), em Paris, no dia 1 de abril.
Pessoa – edição especial Salão do Livro de Paris 2015.
Lançamentos:
Domingo, 22 de Março, às 10h30, no stand 2 do Pavilhão do Brasil no Salão do Livro - Porte de Versailles
Quarta-feira, 1 de abril, às 18h00, no Espaço Lusofolies,  57, Avenue Daumesnil



Revista Pessoa
 



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