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A poesia de Ana Martins Marques



2015-11-14

O encontro do último dia 29 de outubro do projeto “Literatura Brasileira Hoje”, organizado pelo professor João Cezar de Castro Rocha – projeto que vem se notabilizando pela regularidade, diga-se de passagem, pouco comum em nosso meio acadêmico –, teve uma marca especial: foi a primeira vez que um representante da poesia participou do evento, no caso, a poeta Ana Martins Marques. E a novidade foi lembrada desde o início, na fala da professora Andréa Werkema, com quem a convidada dividiu a mesa, e depois no decorrer da noite, através de algumas intervenções da plateia que reiteravam o feito. A própria autora fez questão de frisar que, apesar de participar de alguns encontros para discutir a sua obra, essa era apenas a segunda vez que ela o fazia em uma faculdade de Letras.

Entretanto, a despeito do possível diagnóstico pouco promissor sobre o estado de saúde da poesia hoje, que o ineditismo do encontro poderia suscitar, o que se viu na noite de quinta-feira foi um debate em que a poesia não precisou pedir licença e se sentiu perfeitamente em casa. Ana Marques falou de sua trajetória literária, inclusive acadêmica (é doutora em Literatura Comparada pela UFMG), dos seus três livros publicados – A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011) e O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015) e sobretudo de poesia. Leu poemas do seu último livro e citou poetas de sua predileção, como Armando Freitas Filho, Carlos Drummond de Andrade, Joan Brossa e Ruy Belo. Comentou sobre as suas opções estéticas, sobre a sua preferência pelos objetos como matéria poética e, especialmente na obra de 2015, sobre o seu interesse pela materialidade do livro, como atestam os poemas da primeira seção, intitulada “Livro”, cuja autorreferencialidade não remete apenas à linguagem mas ao próprio suporte sobre o qual eles se encontram inscritos.

Ao final do encontro, antes que o curso de Letras pudesse porventura se tornar um obstáculo para criação literária, Ana Marques assinalou a importância da formação acadêmica para ampliação do repertório de leitura e desta como fator fundamental para o fazer poético. Nesse momento, como no conto de Cortázar, a casa já estava totalmente tomada.


Breve entrevista
Na FILP de 2013, você participou, juntamente com Alice Sant’Anna e Bruna Beber, de uma mesa sobre poesia na edição cujo escritor homenageado foi o romancista Graciliano Ramos. Considerando o caráter mercadológico da FLIP, logo preponderantemente voltado ao romance, em algum momento você chegou a pensar que a mesa poderia ser tomada como sintoma de uma nova etapa do reconhecimento da poesia pelo mercado editorial brasileiro?

De fato o espaço para a poesia, não apenas na Flip, mas em eventos literários de modo geral tende a ser reduzido, em todo caso sempre menor do que o que se dedica ao romance. A realização dessa mesa em 2013 (e vale lembrar que o livro Rua da padaria, da Bruna Beber, foi um dos mais vendidos na Flip daquele ano), o sucesso de Toda poesia, do Leminski, o relançamento da Ana Cristina Cesar, mas também o crescimento expressivo da publicação de poemas por pequenas editoras e de sites e revistas eletrônicas dedicados à poesia, a repercussão do ótimo Jóquei, da Matilde Campilho, tudo isso pode ser sim indicativo de uma maior atenção do mercado editorial e do público para a poesia.

É importante, no entanto, lembrar que a experiência da literatura, embora obviamente não seja de todo alheia ao circuito do mercado, não pode ser reduzida a ele. Tenho a impressão de que há ainda muitas pessoas que encontram na literatura, e na poesia em particular, modos singulares de lidar com o tempo e com as palavras, formas específicas de relação com o pensamento, a linguagem e o mundo, importantes talvez justamente pelo fato de que não podem ser reduzidos ao tempo e à lógica da produção e do consumo.


Você concorda que O livro das semelhanças é o seu livro mais metalinguístico? Como você entende a metalinguagem na poesia? Trata-se apenas de ingrediente para agradar leitores iniciados ou tarefa necessária de autorreflexão poética?

Meus três livros têm muitos poemas que podem ser chamados de metalinguísticos. O primeiro livro, aliás, abre com uma seção de poemas que têm, todos, algum aspecto de reflexão sobre a linguagem ou a poesia. O que há de um pouco diferente nesse último livro é que há poemas que se voltam não só para o poema ou a linguagem, mas para a materialidade do próprio livro. Os poemas da primeira seção procuram investigar o livro e seus elementos – capa, nome do autor, dedicatória, índice, contracapa, etc.

Como eu disse durante a conversa na UERJ, no entanto, gosto de pensar que meus poemas nunca são exclusivamente metalinguísticos: há poemas de amor “disfarçados” de poemas metalinguísticos, ou poemas metalinguísticos que subitamente se transmudam num poema de amor, ou ainda poemas que parecem tratar de outros temas e de repente desvelam seu caráter de poema, objeto de linguagem... Espero que os poemas não tenham interesse apenas para “iniciados”, mas “agradar o leitor” não é propriamente o que guia a minha escrita (e, com exceção de autores que adotam determinadas fórmulas de mercado, acho que não é o que guia a maioria das pessoas que escrevem literatura), mesmo porque o “leitor” é uma entidade muito misteriosa...


Já faz certo tempo que poetas como Antônio Cícero, Glauco Mattoso e Paulo Henriques Britto vêm retomando a métrica e as formas fixas na escrita de seus poemas. Em “Segundo poema”, por sinal dedicado a Britto, você se vale do soneto decassílabo. Como você encara o eterno retorno desses elementos tradicionais da poesia?

“Segundo poema” é meu primeiro e único soneto, provavelmente também o último (não tenho um interesse específico pela forma soneto e, confesso, tampouco muito talento para isso). Quis fazer uma homenagem ao Paulo Henriques Britto, um poeta que admiro muito e que tem muitos poemas incríveis que adotam a forma do soneto (ou de “quase sonetos”). Lembro da descoberta e da alegria que foi ler os poemas da série “Até segunda ordem” no livro Trovar claro, descoberta e alegria que derivam sobretudo do contraste entre a forma fixa tradicional e a linguagem extremamente coloquial, da tensão entre o universo do soneto (a memória da tradição que ele inevitavelmente carrega) e o universo cotidiano, prosaico e até meio escuso que os textos evocam.

É legal lembrar também que num poema em “versos livres” o corte do verso, embora não seja regular, padronizado, também não é propriamente aleatório. Os cortes produzem efeitos sonoros, visuais, de ritmo, de sentido. O “verso livre” permite variações, jogos, manipulações com esses efeitos. Todo verso opera nessa tensão entre a continuidade e a cesura, a ocupação e o vazio da página, a palavra e o silêncio.

Confesso que não tenho nenhuma opinião forte a respeito do “eterno retorno” das formas tradicionais, em especial do soneto, na poesia brasileira (para quem se interessar pela discussão, há um texto muito interessante e bem fundamentado do Ricardo Domeneck em que ele discute o recurso a essas formas na poesia contemporânea e insiste na importância de historicizar as formas literárias, e também várias reflexões sobre esse aspecto, com perspectiva diferente, em textos do próprio Paulo Henriques Britto). O que acho importante é notar que o emprego das chamadas “formas fixas” pode se dar com efeitos e sentidos muito diferentes em diferentes poemas e poetas, e é importante avaliar esses efeitos caso a caso.


Curadoria de João Cezar de Castro Rocha



Marcus Vinicius Nogueira Soares
Marcus Vinicius Nogueira Soares, doutor em Literatura Comparada pela UERJ, é professor associado de Literatura Brasileira da mesma instituição. É autor do livro A crônica brasileira do século XIX: uma breve história (São Paulo, É Realizações, 2014).  



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