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Jaime Brasil traz sua antipoesia a São Paulo



2014-11-26

O poeta Jaime Brasil inicia a caravana de lançamentos da sua coletânea de poemas Não (Editora da Casa) na próxima segunda-feira, dia 1º de dezembro, em São Paulo Os poemas, escritos nos últimos dez anos, são uma boa mostra da ácida produção do autor.

A Revista Pessoa traz com e exclusividade a orelha de Luiz Roberto Guedes, e quatro poemas do livro.

“Bem-vindo ao big bang verbal de Jaime Brasil Filho, leitor. Com seu título peremptório e sua recusa programática do lirismo institucional — em que certa poesia ainda teima em se escrever “flores” —, o poeta de “Não” recolhe os  estilhaços do mundo, ciente de que “estão com defeito todos os fechos da realidade”, e descrente de alumbramentos. Irmanando-se à antipoesia de Nicanor Parra, Brasil Filho procede também pelo método eliotino da montagem, disparando imagens e espraiando seu delírio progressivo numa profusão de poemas sem título, brindando “ao mais ou menos que temos/antes que eu me dê por satisfeito”. Porém, o poeta cético não corre esse risco: “nunca tive uma fase de oásis”, afirma, “pois tudo na areia é caminho”; no entanto, prefere, “de grão em grão, fabricar meu próprio deserto”. Esse verso axiomático bem poderia definir a ars poetica de JBF, cuja práxis se compraz também na orquestração de células sonoras ou de palavras contíguas, bebendo de um “oceano abissal de absinto”, num
“absoluto luto diário, que soluça sem solução”.
Girando sem cessar na constelação de signos, “mordendo a carne de utopias recém-abatidas”, o poeta percorre o “caos cotidiano que parece natural e civilizado”, e nos adverte que “é do curtume que saem os meus mais caros perfumes”. A cada passo, relances da realidade vão rompendo o véu de Maya, e o poema dá conta de que “a fé move montanhas de dinheiro / e exércitos marcham sobre cadáveres de crianças”. Nessa litania laica, em que a poesia passa por ”sussurro rouco reverberando no oco de um coco / mas é o que tenho a oferecer”. o poeta recusa ainda qualquer conciliação: “pensar se depois do fim vai ser legal? / quero não, querubim”.

No entanto, ao fim e ao cabo, “cada um se mostra conforme se esconde”, e ela, poesia, aflora sempre: “ara o ar, esculpe a água, fluidifica a terra”; assim como “uma nuvem grávida dá à luz um arco-íris”.

Sim, a criação é contínua no universo negativista de Jaime Brasil Filho.

 Luiz Roberto Guedes.

Quatro poemas de Jaime Brasil
ninguém possui o impossível, mas há contratos de leasing para nos acalmar
entre nós, tudo é eterno, e é por isso que minha filha disse:
-não somos passarinhos, não é, pai? mas somos gente pra escorregar no escorregador
assim, deslizamos a nossa ignorância sobre a imobilidade aderente
sobre os dentes do tempo que insistem em nos marcar
pulando corda, plantando bananeira, dançando ciranda
fingimos ser a orquestra sinfônica na banda dos pobres coitados
fugimos do desbaste dos tons que nos desbotam
e pintamos a alma com os corantes dos doces confeitados
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já não ligo se algo dói no peito
as pessoas só gritam porque o medo é mudo
e se envaidecem porque a beleza é cega
a morte não é meio de transporte confiável
não respeita horário nem ponto de parada
sabemos que os anjos não usam capacete
mas não é por isso que devemos nos submeter aos cassetetes
as forças da ordem nos dominam porque são medíocres
nem de longe lembram o sabor daqueles chocolates crocantes
os negros diamantes de antigamente
e nem de perto parecem com os nossos olhares amantes
aqueles de pôr-do-sol, vermelhos celestes

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as peças do quebra-cabeça de Catarina são sementes
ela as deixa em qualquer lugar, mas não as abandona
inventa seu próprio modo de montá-las, sendo o mundo montaria
deixa espaços, encaixa à força, mas não conclui o caos nem as somas
sem domínios nem redomas, rema rumo ao rio cósmico de todas as formas
segue o fluxo das flechas lançadas ao infinito alvo de todas as essências
ara o ar, esculpe a água, fluidifica a terra
observa calmamente o germinar das pedras
que coleciona em sua caixinha colorida


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sangue nos olhos e fogo na alma
não me afogo na calma nem me apresso na cama
faço moldes de gesso dos pensamentos improváveis
para fundi-los em bronze depois das onze de sexta-feira
descemos a ladeira sem perder o rebolado
nos guiam as estrelas dos úmidos astrolábios
mas não escolhemos caminhos
tropeçamos no cimento, abraçamos os postes, beijamos o chão
por tapetes de nuvens, corrimãos de ventos e degraus no céu
queremos aos montes o véu das planícies, arrecifes de felicidade
já não temos idade, somos o capricho do mato, bichos na multidão

Não
Jaime Brasil
Lançamento:  Mercearia São Pedro, Vila Madalena, a partir das 19 horas.



Revista Pessoa
 



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