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Leia trecho de Agonia



2014-11-13

O romance é sobre a morte de Rimbaud, cujo aniversário de morte foi na última segunda, 10 de novembro. A pretexto do regresso de Rimbaud ao seu país natal, depois de 10 anos de exílio, motivado pela doença que o levaria à morte - um doloroso câncer ósseo. Durante essa viagem, Lúcia imagina os delírios que a dor e a febre lhe provocaram, e também dá voz a um pesquisador/leitor. Abaixo segue um fragmento desses delírios e outro desse leitor.

AGONIA  

Quantas vezes morri? Pois é um erro pensar que só se morre uma vez.  A morte é recorrente, a cada dia um pedaço de nós se apaga, mas, a impressão que temos é que, enquanto morremos, os seres odiosos que nos rodeiam se perpetuam, imortais. Toda uma corja de hipócritas, de enfatuados, de nulidades, assumem posições de destaque; estatuescamente se imobilizam nos nichos e impedem que os ares da modernidade arejem as mentes e os corações.  Todos se acorrentam em suas posições. Um é mestre, outro é bibliotecário, uma é mãe, outra é  vendedora, um é dono, outro é policial e todos eles exercem poderes incompreensíveis, pois se chocam com a humanidade e com os ideais. Liberdade, igualdade e fraternidade. Mentiras! Enganos! Na verdade só o que se conhece na prática são os pequenos poderes que esses seres acorrentados usam como uma consolação pela sua própria falta de liberdade.

Pensei que os escritores, que os poetas, fossem seres acima dessas mesquinharias. Na minha ilusão, julguei que o talento que encharcava cada célula do meu corpo ainda franzino, seria reconhecido por aqueles a quem acreditei serem irmãos. Julguei que os proscritos seriam perdoados através de seus versos. E que eu seria amado e respeitado porque, dentro de mim, Apolo havia feito sua morada. Eu me sentia um vate. Aquele que pode prever o futuro, um sacerdote da Verdade e da Liberdade. A morte deste ser que um dia fui me fez passar pela pior das minhas agonias. Entre uivos de dor e de desespero fui capaz de descrevê-la, com uma lucidez que até a mim mesmo me assombrou. E renasci.

É intrigante pensar que, enquanto morria, eu podia escrever. Escrevia porque o ser que eu havia sido ainda respirava e sentia. Nos seus delírios de moribundo julgava que as palavras ainda significavam coisas mais preciosas do que a posição social, o trabalho, a posse e o poder. As palavras eram nosso alento divino, nosso único liame com Deus, mas não com esse deus de catecismo, irado e rabugento como um nobre ameaçado. Não o “senhor” que nos quer prostrados e cordatos como ovelhas. Mas o Deus que nos colocou acima do natural e nos permitiu reconhecer o sublime. O Deus poeta e criador, talentoso e perdulário, que esbanjou belezas e perfeições em feras e até em flocos de neve, esquecendo-se de aperfeiçoar nossas sensibilidades. Olhando para nuvens e céus mutantes, eu me admirava de um espírito capaz de fazer tanta beleza para que um capricho de vento, um apagar de luzes viessem desmanchar. E depois entendi que era assim mesmo que devia ser a Arte. Livre. Arte é liberdade livre. Generosa, para todos e para ninguém. Pois a beleza dos céus e das nuvens existe mesmo que não haja ninguém para apreciá-la. E daqui a pouco essa beleza terá se transformado e desaparecido para sempre, sem deixar traços. Sobretudo sem deixar traços. Uma vaga lembrança nos olhos que um dia a contemplaram. E, quando esses olhos se fecharem, nem mesmo isso. Mas a obra foi grandiosa. E não precisou de críticos, de amigos, de protetores, de editores e de seguidores. Ela existiu livre de tudo, acima de tudo, apesar de tudo.

Nos meus primeiros anos a arte me sustentou. A beleza me alimentou. A imaginação me embalou. A poesia me fortaleceu. Eu morria de fome e de frio, e continuava insistindo, acreditando. Aqueles que deveriam me reconhecer como poeta, me ignoraram. E seguiram cultuando seus versinhos medíocres, estampados em revistinhas autocongratulatórias. Sentindo-se superiores a mim quando, em verdade me digo, eles foram piores que as hienas que um dia vim a conhecer. Estas prestavam um serviço, se atirando às carcaças malcheirosas, e evitando que as doenças e os ratos invadissem o lugar. Eu precisei viver sob o domínio dos ratos. Mas me rebelei. Lutei. E sucumbi, sem glória, sem compreensão. Um vencido, moribundo enlouquecido de dor e mesmo de medo. Batendo nas paredes com os punhos fechados, com a testa onde o conhecimento da morte torturava minhas certezas. Mas, na dor, meus gritos foram de beleza, e permanecem.

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X

Dizem que seu único irmão, quando ele já estava morto e enterrado há um mês, respondeu a uma pergunta sobre o paradeiro de Jean Nicolas, dizendo que ele estava comerciando no Harrar, ou Horror, algum lugar distante.

Dizem que alguns conhecidos o julgavam burguês, enriquecido e próspero, e o desprezavam por seu abandono da poesia. Dizem que outros o julgavam um eterno viajante, “explorador” de atitudes românticas que cada vez o levavam mais longe da França. Ora achavam que ele estava morto, ora supunham-no vivo.

Mas todos o sabiam calado. E todos estranhavam seu silêncio, e esse silêncio era mais acusador que poemas e diatribes. Esse silêncio era o que os fazia acordar no meio da noite, suados, gelados de pavor, assustados com sua enormidade.  As palavras ausentes feriam com gumes insuspeitados, e provocavam soluços no meio de versos imperfeitos.

Dizem que alguns escreviam para ele, tentando aproximar-se, isso quando ele já estava morto há mais de dois anos, quando de suas carnes, outrora brancas, já não restava mais nada, e quando já era impossível distinguir, entre os habitantes do túmulo escavado logo à entrada do cemitério, que lembrança pertencia ao avô, à irmã Vitalie ou a ele mesmo, finalmente apagado.

Dizem que a notícia de sua morte saiu na La Plume, no dia primeiro de dezembro de 1891. Dizia: “lamentamos informar ao mundo literário a morte de Arthur Rimbaud”. Não informava o dia, talvez nem sequer o soubesse. Dizia: “uns dias atrás”. Mas sabia que seu corpo tinha sido transladado de Marselha. E fazia questão de ressaltar que o cortejo fúnebre tinha sido acompanhado APENAS por sua mãe e sua irmã. Era uma nota de pé de página, tão diminuta que quase ninguém a notou. Principalmente porque já o julgavam morto, há tanto tempo. Porque sabiam que o tinham matado, há tanto tempo. Porque sabiam que a ferida que lhe provocaram era fatal. Quando não o leram, quando ignoraram seu último grito, quando preferiram seus pensamentos acomodados e auto-indulgentes, eles tinham se arvorado em carrascos. Eram eles os assassinos.

O poeta, no entanto, não era uma vítima. Ele nunca foi vítima, mesmo quando sofria além da possibilidade do sofrimento. Ele era o herói, o símbolo vivo, redivivo. Ele estava morto. Ele se tornara imortal.    



Revista Pessoa
 



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