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Entre bife e entrecôte



2015-11-13

São Francisco Xavier, 05/04/2014.

Digo que quero um bife.

E pode trazer a cerveja antes, por favor.

Só falta chamar a polícia.

O estabelecimento não serve bife. Muito menos cerveja.

Serve entrecôte.

E em vez de cerveja, diz um nome impronunciável. É de cerveja. Mas alemã.

Fico lá, assassinando a entrecôte, com dúvidas se seria o entrecôte. E vendo meu problema diminuir a cada golpaço da faca, como aliás acontece com problemas assim, filosóficos. Eles diminuem quando esfaqueados.

Diminui também o problema filosófico do garçom que acho nem era o garçom, mas o próprio dono.

Porque eu não era uma pessoa adequada para a/o entrecôte.

Depois fui descobrir por quê.

Depois de muito tempo.

Porque sou assim, burra mesmo.

Foi juntando dois com dois.

Porque fui catar meu bife num dos restaurantes conveniados mais para fora do centrinho, lotado.

Adendo: restaurante conveniado. Restaurantes que aceitavam o tíquete que, nós, os donos da festa (até então eu me fincava no papel de dona da festa) ganhamos ao chegar. O tíquete pagava qualquer refeição, excluída a bebida.

E era isso o que eu pensava camelando de volta na ladeira em direção ao centrinho onde eu devia apresentar meu papel de dona da festa.

Segundo Adendo: papel de dona da festa. Confraternizar com os fãs enlouquecidos que gritariam, meu livro na mão, querendo autógrafo, querendo, querendo, não tenho a menor ideia do que quereriam esses fãs que estariam na praça, onde eu deveria, magnânima, sentar para oferecer um pouco da minha genialidade para todos aqueles - e seriam muitos! - que não a tem.

Pensava eu, então, subindo a ladeira. Nos fãs. E no tíquete. Porque se a refeição era paga com o tíquete, pro dono do restaurante tanto fazia bife ou entrecôte. A diferença de preço inclusa na diferença de idioma estaria de qualquer modo coberta. Correto? Tíquete é tíquete.

Foi só depois de muito tempo que juntei.

Nos restaurantes lotados que davam para a praça do centrinho havia um grupo. Eu não tinha nada pra fazer. Resolvi esperar os fãs enlouquecidos que iam descer dos céus em uma nuvem púrpura entre raios de sol, e que obliterariam, os fãs, tenho certeza, a vaca que pastava bem no cocuruto da montanha ao lado e que era a única coisa que eu conseguia olhar.

Resolvi esperar sentada na sarjeta.

Dito assim, parece ruim. Mas não é. Nem era sarjeta, vai. Está bem, era sarjeta. Mas com tanta gente passando ninguém nem ia notar que era sarjeta. Aí fiquei. Olhando a vaca. E escutando o grupo, que estava bem atrás de mim, na varanda do restaurante mais disputado.

Só o som, primeiro.

E eles diziam que ia ter uma festa logo mais. E alguém do grupo disse que precisava passar na pousada antes porque precisava melhorar o visual. Dar um trato. Ficar com look de artista. Porque sem look de artista não ia rolar nada.

Aí me virei.

O cara tinha um chapéu bossudo, paletó de linho bege. Se tirasse o chapéu e o paletó ia ficar igualzinho a uma pessoa dessas que você nem vê. Assim, como eu. A moça que queria passar na pousada estava com um vestido africano.

Eles já tinham look de artista.

Não tenho a ideia de como ficaram na festa na qual, claro, não fui. Mais look de artista ainda. Mas não sei como se aumenta um look de artista.

E nem me toquei. Foi só depois.

Eles eram entrecôte. Eu era bife.

É por isso que não faço sucesso e nem fiz, naquele dia. Porque não noto quando é para ser entrecôte.

Era para eu ter sido entrecôte. Preciso ser entrecôte. Meu deus, tenho de aprender urgentemente a ser entrecôte.

Quanto a ser dona da festa, às vezes não tem jeito. Não tem outro papel pra fazer. Você sabe que é apenas um laranja, mas é jogado lá, te empurram pra frente e você precisa, não tem outro jeito, a não ser virar ponto turístico em resort.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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