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O livro das aproximações



2015-10-30

Confira trecho do O livro das aproximações, de João Guilhoto. A obra de estreia do autor lisboeta, de 28 anos, é aposta da Editora Nós na literatura portuguesa e tem lançamento mundial no Brasil.

Segundo o escritor brasileiro Evandro Affonso Ferreira, que assina a quarta capa do livro, Guilhoto costura palavra sob medida à semelhança dos sapateiros, aqueles que faziam sapatos à mão. Sim, as palavras dele são feitas para durar, não se deformam com as puerilidades do efêmero, não caminham subservientes pari passu com a própria época ou moda.

Guilhoto lançou seus primeiros textos literários nas revistas LER e Cult. Com o seu primeiro livro, além do Brasil, vai circular pela Alemanha, onde vive, e Portugal.    

Livro das aproximações  

2.
Todas as páginas são infinitas. Representam a parte do infinito onde incide a luz: onde a mão do escritor actua. Neste infinito de possibilidades, as minhas palavras são obtusas perante a máquina. A linguagem insere-se numa norma processada por computador, e a literatura divide-se por temas. É partilhada como se partilha uma fotografia engraçada ou um clipe de música nas intermitências do trabalho no escritório. Enquanto escrevo este texto apercebo-me da abismal profundidade da página. O programa de processamento de texto no qual redijo informa-me que escrevo na página seis de seis. E o número seis, apresentado desta forma tão precisa, representa automaticamente o seu aprofundamento no infinito. Mesmo que escreva mais a página aumenta sempre. Deverei investir na tentativa de redigir um livro infinito? Não podemos falar, obviamente, de aproximação ao infinito, pois cada passo para a frente ou para trás na matemática é uma forma de sair de um centro para outro centro. O espasmo é por isso grande perante esta enorme página branca que a máquina me confere: o meu rosto como o que Munch pintou, desgraçado pelo súbito reconhecimento de uma situação miserável. Daí que pense que talvez escrever seja apenas um mal necessário, algo a que me imponho fazer para poder continuar. Prossigo, no entanto, consciente desta ideia, talvez imaginada, da desilusão da escrita. Tudo se estende. A página estende-se. As aproximações não terminam.



Revista Pessoa
 



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