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Uma simples pergunta à queima-roupa



2014-07-18

Convidamos o poeta e romancista Victor Heringer para responder em poucas palavras qual poema para ele é um monumento, um rio e um mar.

Victor Heringer nasceu no Rio de Janeiro, onde vive (apesar de morar em São Paulo). É autor das plaquetes de poesia, “Quando você foi árvore” (2010) e “canção do sumidouro” (2010),  do livro de poemas “automatógrafo” (7Letras, 2010), e do romance “Glória”, segundo colocado no prêmio Jabuti. Também artista visual e sonoro, Heringer usa elementos visuais para suas pesquisas e trabalhos poéticos multimídias. Assina a coluna Milímetros da revista Pessoa.




Na sequência, a justificativa de Heringer e o poema escolhido.



“Não é de hoje que digo que meu poeta mais amado é o nosso maior poeta menor, Manuel Bandeira (Sou poeta menor, perdoai!). Mas eu costumava dizer que o meu preferido era o Poema só para Jayme Ovalle. Nesse o Manuel tinha se superado, eu dizia, esse era o mais luminoso dos poemas menores. Eu tinha uma teoria: atualmente o mito do poeta menor era importantíssimo para nós, gente sem deus, sem pátria e sem rumo cósmico. Gente miúda no melhor dos sentidos. Abaixo as poéticas continentais, sobre-humanas, infalíveis! – era basicamente o que eu queria dizer. Mas hoje não tem teoria, eu quero é ser feliz. Vou de Cantiga: é Cantiga o poema mais importante de todos, porque é o estágio mais denso da alegria, no qual morte e felicidade se fundem. Um poema cravado bem no meio de uma bateria de carnaval em repouso. “



Cantiga

Manuel Bandeira


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.


Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?


Quero a estrela-dalva
Rainha do mar.


Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.



Dois poemas de Victor Heringer indicados pela Revista Pessoa.



Mamãe lia a sorte no açúcar
 




Posições desconfortáveis


cotovelo no asfalto em cotovelo cotovela.
a fila espera. estou na fila. espero também.
a fila dá a volta num quarteirão inteiro
que suspeito não ser um quadrado perfeito.
não sei o que espero. não sei se a fila sabe.
espero. não pergunto. seria ridículo, agora,
depois de tantas horas com a mesma cara
bovina. sei fazer cara bovina. muito bem.
trouxe coisas para me ocupar: um jornal;
um lápis para escrever o Tratado para a
desinvenção da penicilina, opus magnum
romantiquinha; cinco dores (uma moral).
esqueci algumas outras coisas. me ocupo
com as que ficaram longe: o mínimo
necessário (por exemplo) para aterrissar
um aeroplano num rio que parece o mar.


a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.
ouvi dizer que é bom, bonito, barato não sei.
ouvi dizer de esquina, assim, canto de boca,
assim um sussurro que cotovelou o quarteirão
que não é um quadrado perfeito porque aqui
é o Rio de Janeiro. aquele é aquele. olharam
para mim. meu nome deu a volta no cotovelo dobrei meu rosto. tenho que esperar. espero.
não posso ir, agora, bovinamente, falam de mim:
aquele que nem chegou a amar aquela ali
no espaço daquele dia. o que faz logo aqui.


a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.



§  



Carlos Henrique Schroeder
Carlos Henrique Schroeder é autor dos romances A História da chuva (Record), Fantasias eletivas (Record), Ensaio do vazio (7Letras), adaptado para os quadrinhos, e A rosa verde (Editora da Ufsc), adaptado para o teatro, dentre outros. Sua coletânea de contos As certezas e as palavras venceu o Prêmio Clarice Lispector 2010, da Fundação Biblioteca Nacional. Coordena o Festival Nacional do Conto e é editor associado da Revista Pessoa – Revista de Literatura Lusófona.



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