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Carta entre amigos



2015-10-30

Foi na leitura de Regras para o parque humano, de Sloterdijk, que encontrei uma afirmação do escritor Jean Paul: livros são como cartas escritas a amigos, só que mais longas.

Para Sloterdjik, a natureza e a função do humanismo, e mesmo sua resistência à morte no correr dos tempos, residem justamente nessa amizade a distância que a escrita propicia. O que há de humano em nós atravessa os séculos em grande parte pela capacidade da escrita de fazer amigos através do texto.

O que escrevo parece, em primeira instância, escrito para mim, e de fato é para mim que escrevo. Na verdade, escrevo para o leitor que há em mim. É esse leitor (eu) que move a minha escrita.  Por outro lado, minha escrita também caminha para fora, para o leitor real. E esse leitor, que quero cativar (capturar, tornar cativo do meu texto) não pode ser outro senão um amigo. Amigo que não conheço e provavelmente jamais vou conhecer, que pode estar noutro país, lendo em outra língua o que escrevi, ou noutro tempo, futuro, mas que evoco como quem de fato procura, e precisa, de um amigo. Como uma espécie de Sherazade, se meu texto funcionar, amigo feito. Se não, morte à espreita.

Foi nisso que pensei enquanto ouvia meu amigo – não um amigo desconhecido, como o do parágrafo anterior, mas de convívio frequente há uns vinte anos – falando sobre seu novo livro, Na dobra do dia.

Eu estava ali, na universidade que é o lugar que mais frequentei na minha vida, uma outra casa, a convite de outro grande amigo, João Cezar de Castro Rocha, diante de amigos queridos, Ana Chiara, Marcus Vinícius, alunos e ex-alunos (parceiros nessa teia, rica e fundamental, da amizade, nos seus diversos desdobramentos). Estava fazendo parte de um bem-sucedido projeto do João, Literatura Brasileira Hoje, desenvolvido na UERJ ao longo de 2015, mediando a conversa do Marcelo Moutinho com o público. Mas não era só isso.

Se livros são cartas escritas a amigos, que conhecemos ou não, e se essas cartas podem tomar várias formas, em gênero não apenas literários, talvez a que mais se ajuste a essa escrita entre amigos seja a crônica. Em especial aquele tipo de crônica em vias de extinção, praticada por Drummond, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, em que o cronista abre seu coração (nem sempre só de papel e tinta) e convida para um cafezinho o leitor, do outro lado da página, mesmo que seja um convite enviesado, o cronista falando de si sem deixar de ajustar com cuidado, muito cuidado, as costuras, dobras, volteios do seu justo disfarce.

O livro do Marcelo é um acinte. Um elegante acinte, uma forma de manter vivo o que, repito, pode existir de humano em cada um de nós diante do esforço contínuo, avassalador, vindo de várias partes, o esforço de apagar as diferenças, apagar os rastros, de que somos vítimas todos os dias, leitores e escritores. Na dobra do dia é um livro ousado, de uma ousadia construída com a suavidade e a firmeza de quem não precisa gritar para ser ouvido. É um livro que anda na contramão da mesmice, do processo emburrecedor de que somos alvo, mais ou menos certeiro, conforme as circunstâncias, e busca o resgate de uma memória que pode nos salvar de tudo que está aí. (Memória que é um dos pontos altos da escrita do Marcelo, nos contos e nas crônicas, aqui e noutros livros, memória não apenas do autor mas dos cronistas que leu.)

Marcelo abriu a noite falando sobre como concebeu a arquitetura de Na dobra do dia homenageando dois de seus cronistas favoritos, de quem recorta as duas frases de cada parte do livro. A primeira tem por título “Pequenos amores da armadilha terrestre”, de Paulo Mendes Campos. A segunda vem de João do Rio, também com uma frase pinçada do repertório do autor, que via nas ruas pensamento e alma: “As ruas pensam.”

Como bom cronista, e contista, Marcelo não tem o péssimo hábito de apenas reunir da gaveta as crônicas publicadas e juntá-las em livro, sem mais. Ele sabe que o livro que prepara, que vai dar a público, tem que ser feito no capricho, não é apenas uma mensagem de e-mail ou algo que o valha, é uma carta, escrita a mão, na calma e paciência que merece uma carta de verdade, escrita a um amigo de verdade.

Com esse cuidado, esse capricho – e, sem dúvida, essa entrega, que é menos e mais do que uma autobiografia tornada pública – que Marcelo não apenas escreveu cada uma das belas crônicas mas pensou no modo de selecioná-las (tarefa inglória) e depois organizá-las em livro.

A certa altura, Marcelo deixou de lado a conversa sobre os bastidores da criação e passou a ler, a meu convite, as próprias crônicas. É sempre uma riqueza ouvir um escritor lendo seu próprio texto. Não importa se a leitura é competente – no caso, foi – ou se o autor é um tímido, lendo para dentro, ou se gagueja na leitura. Importa que, ao ler, ele meio que faz uma viagem de volta à origem, do texto em primeiro lugar, e ao que estava antes do texto também. É comovente ouvir um escritor lendo seu próprio texto, se entregando ali uma segunda vez, à procura de amigos.

Marcelo leu a crônica que dá título ao livro. E mais adiante, a pedido da Ana Chiara, uma crônica que falasse de Madureira, bairro onde Marcelo nasceu. Ele escolheu “Subúrbio”. Mais adiante, novamente a pedido da Ana, leu o belíssimo conto “Água”, do livro A palavra ausente.

A noite de quarta foi memorável, em todos os sentidos. Foi uma celebração da amizade, uma estranha e fascinante amizade entre textos – os do Marcelo, lidos ali, com os outros, evocados por ele ou pela plateia – e também uma outra forma de celebração, entre amigos antigos e novos, que foram se fazendo naquela sala e, estou certo, vão perdurar leitura afora, pelas páginas, pelos dias.

Rio, outubro 2015.
  Breve entrevista
Perguntas de Flávio Carneiro para Marcelo Moutinho
 
Como você lida com o leitor de crônicas que você é? Como a leitura dos cronistas da sua preferência interfere, se é que interfere, no seu exercício de cronista?

Marcelo Moutinho - Não penso nesse leitor que sou, ou fui, no momento em que escrevo as crônicas. Mas talvez inferira, já que aquilo que lemos passa a fazer parte de nosso repertório, seja o consciente ou o inconsciente. Claro que há temas que atravessam cronistas de diferentes épocas e gerações, como o clássico mote da falta de assunto. E, nesses casos, torna-se fundamental conhecer o legado que outros colegas deixaram. Para não sermos mero repetidores e, mais essencial, para dialogar com eles.


João do Rio diz que as ruas não apenas pensam – como na frase que você usa para nomear a segunda parte do seu livro – mas têm alma. E sabemos, claro, que elas também têm memória. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso: as ruas pensam, sentem e lembram?

Marcelo Moutinho - Tem alma e memória. Gosto de pensar que certos lugares guardam a lembrança do que foram um dia, de como foram, do que aconteceu ali. O prédio de uma escola, o banco de uma praça, espaços aparentemente ordinários do ponto de vista da grande história ou da arquitetura, podem carrear mundos inteiros de afetos. As ruas conjugam a concretude do asfalto, das paredes, com o emaranhado de vidas que as cruzam. São uma síntese de muitos fios, uma interseção profundamente simbólica. Como escreveu o próprio João do Rio, “há suor humano na argamassa do seu calçamento”. Daí a ideia de que, sim, pensam, tem nervos, são potentes como sítios de criação. Na segunda parte de “Na dobra do dia”, essa perspectiva serve como norte para um passeio pelas ruas da cidade. Da cidade que permanece e da cidade que se foi.


A memória é matéria-prima dos seus contos e crônicas. Como se dá isso, essa relação da memória com a escrita, no seu processo de criação?

Marcelo Moutinho - Gosto muito de uma expressão que o Carlos Heitor Cony usou para dar título a um de seus romances: “matéria de memória”. Meus contos e crônicas, em determinado sentido, são isso. Recolhas de histórias e experiências que, envernizadas pela ficção, buscam a vida que pulsa nas miudezas. Muitas vezes quase que silenciosamente. Como a da moça que observa o mundo de uma janela da Praça Tiradentes ou a do menino que trai o pai na hora de escolher o time. O homem que maneja sua pipa imaginária na esquina da Mem de Sá com a Gomes Freire, a lembrança de uma festa de Cosme e Damião, o desalento da casa vazia. A escrita é capaz de dar eternidade à memória. Uma maneira de sacanear a morte, líquida e certa. De iludi-la. E eu quero mais é que a morte se dane.


Você disse uma vez, na FLIP, que jogar futebol é melhor do que escrever. Ainda pensa assim? E emendando nesta uma outra pergunta: que espaço o futebol ocupa na sua vida e de que modo entra, ou não, no que você escreve?

Marcelo Moutinho - Incomparavelmente melhor. Se você me perguntar se preferiria ser o craque meia-armador do Fluminense ou vencedor do Nobel, nem pensaria duas vezes quanto à resposta: jogador do Flu. Mas, como jogador, sou um escritor razoável. Então me resta escrever, embora não deixe de jogar minha pelada toda semana. O futebol ocupa grande espaço na minha vida e às vezes até gostaria que ocupasse menos. Uma derrota pode ser capaz de estragar meu dia, de destruir o bom humor. Parafraseando a expressão do Cortázar, no futebol a emoção vence a razão por nocaute, não por pontos. E, assim como as outras coisas presentes no meu cotidiano, desliza para a literatura de forma natural e espontânea. Gosto de explorar esse universo ficcionalmente, sobretudo nos contos. É um universo riquíssimo, que não raro resvala no trágico, nos dramas individuais. Como dizia o Nelson Rodrigues, em futebol, pior cego é o que só vê a bola.
Curadoria de João Cezar de Castro Rocha.



Flávio Carneiro

Flávio Carneiro (Goiânia, 1962) é autor premiado de romances, contos, ensaios, textos infantojuvenis e roteiros cinematográficos. Doutor em literatura e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ele colabora como critico literário para o jornal O Globo e outros veículos.




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